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Inovação demora a avançar no País, apesar do crédito

Jiane Carvalho - Especial para O Estado de S.Paulo

06 Junho 2014 | 04h 02

Entraves como burocracia, educação deficiente e relação difícil entre empresas e universidades atrapalham progressos na área

O Brasil tem avançado em políticas de incentivo à inovação, mas ainda existem muitos obstáculos a serem vencidos. O Fórum Estadão - Inovação, Infraestrutura e Produtividade, realizado na quarta-feira em São Paulo, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), reuniu representantes de governo, empresas e acadêmicos para debater o tema.

Um ponto comum dos discursos foi a necessidade de assegurar a competitividade das empresas nacionais por meio do tripé inovação, infraestrutura e produtividade. A segunda edição do fórum colocou em evidência o contraste entre a oferta de instrumentos de financiamento público de projetos voltados à inovação e o desafio de superar entraves como infraestrutura deficiente, educação ruim, burocracia e a distância entre universidade e empresas.

Na abertura do evento, representantes de governo, empresas e meio acadêmico defenderam a inovação como imperativa para garantir competitividade. O presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), Ruy Martins Altenfelder Silva, chamou a atenção para o lento avanço do Brasil quando comparado a países como a Coreia do Sul. "Há quatro décadas, os dois países tinham indicadores parecidos, mas a Coreia investiu pesado em educação, revolucionou sua economia e virou um tigre asiático. Hoje, a Coreia é referência do que deveríamos ter feito e não fizemos", comenta Altenfelder, lembrando que o Brasil ocupa a 75ª posição no ranking de produtividade, entre 120 países.

O crescimento dos recursos públicos destinados ao apoio de empresas que investem em ciência e tecnologia foi o destaque positivo das discussões, embora ainda não tenham atingido o objetivo de acelerar o ritmo de avanço do grau de inovação na economia brasileira.

"Entre crédito reembolsável e não reembolsável, só o BNDES aumentou 16 vezes o volume de recursos destinados ao financiamento da inovação desde 2007", destacou David Kupfer, assessor da presidência do BNDES. "O que precisa ser lembrado é que o investimento em inovação deve sim ser feito com velocidade, mas sabendo que o retorno tem de ser considerado no longo prazo."

Como desafios que emperram o desenvolvimento de empresas inovadoras na economia brasileira, o representante do BNDES apontou a necessidade de que as instituições definam melhor o foco e permanecem no caminho escolhido por um bom tempo. "Não dá para avançar em direções diferentes."

Demanda. Com um orçamento de R$ 12 bilhões para este ano, a Finep - empresa pública ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia- é hoje um dos principais financiadores de programas de incentivo à inovação. O presidente da Finep, Glauco Arbix, apontou a demanda elevada por parte das empresas pelos recursos como um sinal da relevância que o tema tomou nos últimos anos.

"Só no Inova Empresa, o orçamento chega a R$ 32 bilhões, mas a demanda agregada é muito maior, chegando a R$ 93 bilhões", comentou o executivo. O Inova Empresa é uma parceria entre a Finep e o BNDES e tem vários programas específicos como Inova Aero Defesa, Inova Agro e Inova Saúde.

Apesar das cifras altas destinadas ao financiamento de projetos inovadores, Arbix destacou gargalos de outras esferas que tornam o desenvolvimento da inovação no ambiente empresarial brasileiro mais lento do que em outros países, como o sistema frágil de educação, um marco regulatório não amigável à inovação, em virtude da burocracia, e a distância entre universidade e empresas.

Na tentativa de dar mais agilidade no desenvolvimento de processo de inovação por parte das empresas e também melhorar a qualidade do financiamento, o presidente da Finep aponta as vantagens de um programa em fase de gestação, o Plataformas do Conhecimento.

Os principais pontos destacados pelo executivo são a definição de processo de avaliação por metas, a adoção de um regime especial de contratação de pessoas e de compras e a busca por "cérebros" do exterior para atuar no País. "A ideia central é que seja um investimento de longo prazo, garantindo funding por 10 anos."

Avanços. O secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, João De Negri, reforçou a relevância do projeto Plataforma do Conhecimento que deve focar inicialmente em três áreas. "A atuação será voltada para os setores de energia, saúde e agricultura. A Finep terá que aprender a fazer algo novo."

Um dos avanços recentes na atuação da Finep, destacado por ele, é a redução nos prazos de avaliação de projetos e liberação de recursos. No passado, todas as etapas consumiam mais de 400 dias, e hoje a Finep consegue realizar o mesmo trabalho em 30 dias.

De Negri defendeu a criação de parcerias público-privadas (PPPs) para entregar ao País o que ele precisa. "O Brasil sabe trabalhar bem com fomento, mas não sabe trabalhar com encomendas tecnológicas", afirmou. "Dá para avançar em inovação, por exemplo, com o desenvolvimento de vacinas de doenças negligenciadas ou equipamentos voltados à saúde."

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