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Inovação em mercados emergentes

LOURDES CASANOVA, PROFESSORA NO INSEAD, ESPECIALIZADA EM AMÉRICA LATINA, PALESTRANTE DO BRASSCOM GLOBAL IT FORUM - O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2012 | 03h 06

A inovação - definida como a adoção de novos produtos, processos de produção, métodos de marketing e modelos de negócios - chegou ao topo da agenda dos tomadores de decisão de governos e empresas. Enquanto o mundo ocidental se esforça para se recuperar da crise financeira global, novos players estão surgindo na área da inovação, desafiando décadas de primazia dos países de alta renda.

Mas se considerarmos que o indicador mais citado de desempenho de inovação é o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em relação ao PIB, o Brasil e a América Latina estão bem abaixo da média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Como resultado da pesquisa InnovaLatino, fruto da parceria do INSEAD com a OCDE, identificamos quatro características das economias latino-americanas na busca pelo fortalecimento de sua capacidade de inovação.

Primeiramente, essas economias possuem recursos naturais abundantes e as estratégias de inovação têm um claro enfoque setorial para apoiar clusters competitivos e incentivar o desenvolvimento de serviços de valor agregado. Um exemplo é a Embrapa, que está por trás da transformação do Brasil em uma potência agrícola. Nos últimos 30 anos, a produtividade do setor aumentou em 150%, enquanto a expansão da área agrícola foi de apenas 20%.

Observamos, em segundo lugar, o desenvolvimento de políticas para criar competências de inovação, melhorando a educação formal e unindo universidades ao setor de negócios. Uma política de inovação bem-sucedida deve ajudar as pessoas a adquirir ou atualizar as habilidades que precisam para inovar. Isso começa com a educação formal, mas também se estende à interação entre as instituições de ensino e o setor empresarial, facilitando o fluxo de informações no ecossistema de inovação. Universidades latino-americanas começam a desempenhar um papel importante nessa área.

Em terceiro lugar, países da região adotaram, na última década, políticas para promover clusters de apoio a empresas de pequeno e médio porte, como o programa de arranjos produtivos locais do Sebrae.

Por fim, a inovação pode ser um fator-chave para possibilitar o crescimento verde com o desenvolvimento e implantação de tecnologias ambientais. O Brasil domina a produção de biocombustíveis da região, produzindo etanol a partir da cana de açúcar e está iniciando a segunda geração de produção de biocombustíveis, com redução das emissões de gases de efeito estufa.

Recomendações. O fortalecimento da inovação no Brasil e na América Latina começa com pessoas - pesquisadores, empresários e funcionários de empresas. Capacitá-las para inovar exige mais e melhor educação para todos. Com isso, as economias estarão mais bem preparadas para absorver, adotar, adaptar e gerar novas ideias e tecnologias.

Em seguida vêm as empresas, pois elas traduzem conhecimentos e ideias em novos produtos, serviços e modelos de negócios. A política de inovação deve reconhecer a diversidade de empresas e promover ações e instrumentos adequados às características da economia. Em particular, o apoio voltado às micro, pequenas e médias empresas é vital, dada a importância delas para a geração de empregos e sua vulnerabilidade ao fracasso. O Plano Brasil Maior visa incentivar iniciativas inovadoras de empresas brasileiras. No entanto, o Brasil e a América Latina não podem ignorar o setor informal, onde quase metade dos trabalhadores está empregada. O sucesso da iniciativa Sebrae em 2011 para formalizar um milhão de trabalhadores brasileiros deve ser comemorado.

Uma infraestrutura tangível e intangível para a inovação é crucial e requer investimentos e implantação de estruturas regulatórias adequadas. Conexões de alta velocidade de banda larga, em particular, oferecem uma plataforma importante para estimular a atividade empresarial. Uma política de inovação bem-sucedida requer o compromisso de longo prazo das instituições e uma ação coordenada entre ministérios, agências e outros níveis de governo para conceber e implementar políticas coerentes.

O Brasil e a América Latina mostram que a inovação não pode mais ser limitada às atividades de laboratórios e investimento em P&D. O relatório InnovaLatino celebra essa percepção, mesmo que a maioria das despesas em P&D - ainda muito baixas - sejam financiadas por fundos públicos. A região tem que aproveitar esse momento próspero para enfrentar os desafios impostos pelos atrasos em produtividade e tornar o crescimento econômico sustentável e significativo para toda a sociedade.

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