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Ipatinga vive o fim de uma era

Cidade cresceu em torno da usina siderúrgica e agora vê receitas e empregos desaparecerem

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Leonardo Augusto / IPATINGA - ESPECIAL PARA O ESTADO,
O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2016 | 03h00

A crise da Usiminas arrasta para o vermelho a cidade que a empresa ajudou a criar. A mineira Ipatinga, com 257 mil habitantes, assiste com apreensão o declínio da usina, fundada há 54 anos.

“Bom mesmo era quando a empresa pagava 'girafão'”, diz Mateus Vinícius Souza, de 23 anos, que hoje trabalha na construção civil. Em 2012, ele trabalhou por alguns meses em uma empresa da Usiminas. Na época, não havia mais o 'girafão'. O termo é usado para nomear um abono que a empresa concedia aos empregados no fim do ano, geralmente entre dois e três salários.

Mesmo se quisesse, o ex-funcionário teria dificuldades para voltar à Usiminas. Com a crise, só no ano passado foram demitidos em Ipatinga 1.788 funcionários do grupo, que inclui empresas como Convaço, Usimec e Sankyu. Os números são do Sindicato dos Metalúrgicos de Ipatinga e Região (Sindipa). Este ano também já ocorreram demissões.

A Usiminas chegou a ter 17 mil empregados e tem hoje 6,5 mil. No ano passado, um dos três altos-fornos deixou de operar. O equipamento tinha capacidade para produzir 4 mil toneladas de aço por mês. Quando a linha parou, operava com 1,8 mil toneladas ao mês. Os dois outros altos-fornos em funcionamento, com capacidade de 4 mil e 8 mil toneladas por mês, produzem hoje, respectivamente, 2,5 mil e 5,5 mil toneladas.

Para o sindicato, depois do anúncio, feito pela empresa, de que vai mandar embora 4 mil empregados diretos e indiretos em Cubatão (SP), o próximo alvo poderá ser a fábrica de Ipatinga. “O que querem é aumentar lucros nas costas do trabalhador. Em Ipatinga não há mais como cortar funcionários”, afirma o diretor do sindicato, Geraldo Magela Duarte.

O sindicalista afirma que a Usiminas passou a ser vista como “bananeira”. “O cacho que tinha que dar, já deu”, diz, citando uma expressão que se refere ao fato de que as bananeiras raramente dão dois cachos.

Segundo Magela, o salário médio da empresa é de R$ 2,5 mil. O piso é de R$ 1.264,00. Desde 1.º de novembro do ano passado, data-base dos metalúrgicos, o sindicato tenta acordo para o pagamento de aumento de 14,05% para os empregados. A empresa não quer dar reajuste.

Na avaliação do sindicato, o principal problema da empresa hoje não tem relação com a crise, mas com a disputa entre os sócios da Usiminas. Desde setembro de 2014 a japonesa Nippon Steel e a Ternium, do grupo ítalo-argentino Techint cortaram relações. “É problema muito grave. Os japoneses não querem investir. Já os italianos querem comprar máquinas e mandar mais funcionários embora.”

A crise na Usiminas virou tabu na cidade. A prefeita Cecília Ferramenta (PT) e secretários não falam sobre o assunto. A justificativa da assessoria é que estavam em viagem na semana passada.

Dependência. Os problemas da empresa e o impacto nos cofres públicos, porém, não têm como serem deixados de lado. O alto-forno desligado fica do outro lado da avenida em que se encontra a prefeitura. A cidade cresceu “abraçando” a empresa: de carro são necessários 20 minutos para percorrer a usina.

Em nota, a prefeitura afirmou que em 2015 a arrecadação do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que chega aos cofres do município caiu 11%, o que, segundo a nota, “não deve ser imputado somente às dificuldades da siderúrgica”. O imposto responde por 40% da receita da prefeitura.

A Secretaria Municipal de Fazenda também destacou uma queda na arrecadação do imposto sobre serviços, “em decorrência da redução do setor de prestação de serviços na siderurgia”.

Ex-funcionários também não costumam falar sobre os problemas na usina. Aposentado há dez anos como funcionário do grupo, Juscelino Moura Oliveira, de 64 anos, afirma que conseguiu muito trabalhando no grupo, mas o momento é de a cidade tentar ficar menos dependente da siderurgia. “Tenho duas filhas. Nenhuma nunca pisou na Usiminas. Cada uma vem construindo a vida por outros caminhos.”

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