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Itamaraty em busca da virtude perdida

Marcelo de Paiva Abreu*

A morte de Luiz Felipe Lampreia, ministro das Relações Exteriores durante boa parte do governo FHC, despertou, ao melhor estilo dos trópicos, menções a “respeito e lealdade, a despeito de diferenças políticas”. Entretanto, é crucial que não se perca de vista o essencial em nome do que foram meras manifestações de cortesia de praxe.

Lampreia se foi justamente quando, por ironia, os pilares da diplomacia nos mandatos de Lula da Silva e Dilma Rousseff ruíam espetacularmente.

A Lula foi possível maximizar os ganhos com a diplomacia presidencial enquanto representava o retirante pobre que teve sucesso, o sindicalista vitorioso, o opositor da ditadura, o político pertinaz, o fundador do partido que renovaria a vida política da Nação. Dilma não teve trajetória comparável e Lula parece, agora, estar dando razões para que sua biografia seja extensamente revista à luz do petrolão e do envolvimento do PT na corrupção sistêmica.

Na esfera regional, o Brasil aproximou-se indecorosamente da Venezuela de Chávez. A denúncia de envolvimento dos EUA na tentativa de derrubar o líder venezuelano foi o que bastou para reforçar a ideia fixa dos estrategistas no Itamaraty e no Palácio dos Arcos que resultou em colocar o Brasil a reboque de Chávez. Hoje, com a Venezuela de Maduro em agonia, impressiona a mudez dos nossos bolivarianos.

No caso da Argentina, o Brasil passou a se esmerar na arte de engolir sapos durante o reinado dos Kirchners, apesar da forte pressão de setores da opinião pública para que a política externa tratasse de refletir adequadamente os interesses nacionais. A eleição de Mauricio Macri colocou o Brasil de saia-justa e, por incrível que pareça, em meio à crise brasileira, há indicações, como em Davos, de que a Argentina, a despeito do calote e tudo o mais, passou a ser levada mais a sério do que o Brasil.

O pleito brasileiro quanto ao Conselho de Segurança, outra ideia fixa da diplomacia petista, parece hoje miragem ainda mais remota. Com a agenda da Organização Mundial do Comércio (OMC) paralisada, a melhor aposta da diplomacia lulopetista, as principais iniciativas brasileiras de diplomacia global estão lamentavelmente encalhadas.

Os orçamentos polpudos do Ministério das Relações Exteriores possibilitaram a multiplicação de embaixadas no período de vacas gordas e ufanismo basbaque. Agora, em meio à intensa crise, falta dinheiro para quase tudo e, mais grave, o Brasil acumulou dívidas em dezenas de organismos internacionais e, em vários deles, tem o seu direito de voto ameaçado.

Por justiça, devem ser feitas qualificações na comparação entre a política externa sob Lula e o período pós-2010. Antonio Patriota e, especialmente, Luiz Alberto Figueiredo e Mauro Vieira abandonaram o ativismo da dupla Amorim-Pinheiro Guimarães e trataram, em boa medida, de minimizar os danos que decorreram da adoção da política externa que se dizia ativa e altiva, ainda que estivessem obrigados a conviver com o duplo comando no Palácio do Planalto e as afinidades de Marco Aurélio Garcia com exotismos bolivarianos e neoperonistas.

A melhor homenagem que pode ser feita a Lampreia é repetir as suas palavras no capítulo final de O Brasil e os ventos do mundo. Memórias de cinco décadas na cena internacional (Objetiva, 2009): “Não há razão para que a afirmação global do Brasil seja assinalada por uma postura antiamericana, como tem sido o caso no governo brasileiro em anos recentes. Não será com estridência ou ambiguidade que a voz do nosso país se fará mais relevante e influente. Não será tampouco com um protagonismo excitado que, frequentemente, é inútil ou beira o ridículo”.

O lento processo de reconstrução da credibilidade do Brasil deve dar atenção especial à política externa. O problema é que nisso também, como em relação à política econômica, o governo tem mostrado enorme relutância em fazer a necessária autocrítica.

* Doutor em economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular no Departamento de Economia da PUC-Rio

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