NILTON FUKUDA/ESTADÃO
NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Levy não vai conseguir entregar promessas, diz ex-presidente do BC

Para Gustavo Franco, além da dívida pública excessiva, o governo finge que o alto endividamento não existe

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2015 | 12h52

SÃO PAULO - As promessas do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, estão muito elevadas, e ele não vai conseguir entregá-las. Essa é a avaliação do ex-presidente do Banco Central e sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco. 

De acordo com Franco, o Brasil terá, neste ano, um "prejuízo total do setor público da ordem de 8% do PIB". O problema, segundo o economista, é que, além da dívida pública excessiva, o governo "finge que isso (o alto endividamento) não existe". Franco participou nesta manhã do 22º Fórum Nacional da Indústria de Aluguel de Automóveis. 

O ex-presidente do BC afirmou que, a partir do Plano Real, o governo conseguiu regularizar as dívidas da União, Estados e municípios, e o País passou a ter superávit primário da ordem de 3% do PIB entre 1998 e 2008. "Crescemos e isso permitiu que a taxa de juros caísse. Mais dez anos desse comportamento virtuoso e o País teria chegado a uma taxa de juros de 4% ao ano e um nível de endividamento muito menor", afirmou.

Para Franco, a trajetória negativa começou em 2008, quando o governo entendeu que tinha de tomar medidas anticíclicas, mas não soube parar. "Seguiu adiante com as medidas, e o resultado foi uma tragédia", disse o economista. 

Inflação. Gustavo Franco disse que o processo de elevação da taxa básica de juros (Selic) não está surtindo efeitos sobre a inflação, o que tem sido confirmado pelos indicadores de núcleos e pelos índices de difusão dos preços. 

Segundo o ex-BC, os preços públicos foram administrados de forma heterodoxa, como se o governo estivesse tomando inflação para o futuro. "Foi uma forma de congelamento lento. Nós sabíamos onde isso ia dar, como estamos vendo agora", criticou Franco. Por isso, segundo ele, a taxa de juro tem funcionado como banhos frios, que resolvem no primeiro momento, abaixando a febre, mas que não cura a infecção.

A única coisa boa, de acordo com o sócio da Rio Bravo, é que as expectativas do mercado (Focus) mostram piora da inflação para 2015 e uma curiosa melhora para 2016 e 2017. "Mas é difícil dizer se essa melhora não é mais um desejo do que um cálculo", duvidou o economista.

Confiança. No Brasil, de acordo com Franco, está ocorrendo uma queda da confiança que não tem nada a ver com economia. Talvez por isso os aumentos da taxa de juros não estejam influenciando a economia. "Aumento de juros, em geral, traz confiança de que no futuro haverá melhora, mas não é o que está acontecendo no Brasil", disse. O desemprego, de acordo com ele, vai bater rapidamente nos 10%.

Para Franco, é preciso olhar o quadro fiscal para entender o que está acontecendo. "Nosso problema no Brasil é a dívida pública excessiva, que distorce uma variável importante, que é a taxa de juros", disse ao afirmar que uma dívida de 65% do PIB para países que têm em patrimônio cinco vezes o PIB do exercício é mole. Para um país como o Brasil, é crítico. 

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