Beto Nociti/Banco Central
Beto Nociti/Banco Central

Mais um tombo nos juros

A Selic chega a seu menor patamar desde que a política das metas de inflação entrou em vigor e o impacto disso não é pouca coisa

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2017 | 20h45

Juros a 7% ao ano, quem diria... É o nível mais baixo desde 1999, quando começou a ser praticada a política de metas de inflação (Veja o gráfico abaixo). E deve baixar ainda mais.

O mergulho de 14,25% ao ano até estes 7,0% levou apenas 13 meses. É um tombo de grandes proporções em período curto.

O comunicado divulgado logo após a reunião do Copom não fechou questão sobre quando concluir o atual ciclo de baixa, que começou em outubro de 2016. O texto ainda admitiu que pode cair mais, moderadamente. Caso não sobrevenham surpresas ruins, isso programa outro corte, de 0,25 ponto porcentual, em fevereiro.

Há três meses, o Banco Central vem preparando os espíritos para certo período de estabilidade, que, em princípio, é o nível de juros neutros, aquele que não produz nem inflação nem desinflação, na meta que é de 4,0% ao final de dezembro de cada ano. Mas até agora a inflação veio mergulhando mais fundo do que o Banco Central e o mercado projetaram.

Nesta sexta-feira sai a inflação de novembro e aí ficará mais claro se o piso da meta (os 4,5% no ano menos a área de escape, de 1,5%) terá sido furado ou não. Com uma inflação nos níveis de agora, os juros básicos (Selic) em 7% ao ano indicariam que o custo real do dinheiro (descontada a inflação) continuaria alto demais. Uma coisa é juro real de 4% ao ano quando a inflação é de 10% e outra, bem diferente, quando fica em torno dos 3%.

Embora em seu nível mais baixo, estes ainda são juros excessivos quando comparados com os que prevalecem nos Estados Unidos e na área do euro: de 1,25% em 12 meses, para os norte-americanos, e zero por cento, para os europeus, ao ano. Falta conferir até que ponto essa inflação bem mais baixa veio para ficar ou se é apenas soluço temporário. A principal causa da inflação – a desordem das contas públicas – ainda não foi removida. E o grande risco de recaída grave é a falta de reformas, diz o comunicado.

Em 2012, a Selic também despencou, quando foi a 7,25%. A diferença é a de que naquela vez os juros caíram artificialmente, por ordem da presidente Dilma, sem que o comportamento da inflação tivesse criado condições técnicas para isso. Desta vez, os juros vêm caindo naturalmente, na cola da inflação também desmaiante.

Mesmo levando em conta que os juros na ponta do tomador de crédito não caíram na mesma proporção, não dá para negar que o custo do financiamento vem caindo e deverá seguir caindo, tanto para as empresas como para pessoas físicas. E, na medida em que ajuda a reduzir os custos de produção, este é fator adicional que ajuda a derrubar a inflação.

O impacto macroeconômico mais importante desse tombo dos juros acontece nas contas públicas. Embora a dívida pública continue crescendo, seu custo (em juros) vai caindo à metade. E há também o efeito sobre os subsídios no crédito, especialmente nos de longo prazo concedidos pelo BNDES. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) está fixada, há sete meses, em 7,0% ao ano. Como até agora o Tesouro vinha pagando mais do que isso para levantar recursos repassados ao BNDES que cobrissem o rombo das contas públicas, esse crédito vinha embutindo um subsídio. Na medida em que a Selic se iguala à TJLP, esse subsídio vai sendo zerado.

O outro efeito macroeconômico acontece nas aplicações financeiras. Acabou o tempo de retorno abundante, na maior moleza. Com o novo patamar dos juros, para obter um rendimento melhor será preciso arriscar mais: ou aplicar dinheiro em negócio próprio ou em ações, em ouro, em moedas. Nessas condições, qualquer um está sujeito a tropeços. O aplicador tem agora de reaprender a administrar as finanças pessoais num regime de inflação e juros bem mais baixos.

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