Mantega indica novo modelo econômico

Guinada, segundo Mantega, será percebida quando medidas começarem a surtir efeitos

BEATRIZ ABREU, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2012 | 03h10

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, assumiu ontem pela primeira vez que o governo Dilma Rousseff pratica uma nova "matriz macroeconômica", uma mudança que, segundo ele, veio para ficar. A lógica de Mantega é de que essa reforma será melhor compreendida quando as medidas de curto e longo prazos amadurecerem e uma nova rodada de contratos na economia ocorra dentro dos novos padrões.

Uma reestruturação dos instrumentos de condução da economia é o pano de fundo dessa nova relação entre as medidas fiscal, monetária e cambial. Os instrumentos são os mesmos, mas o peso de cada braço do antigo tripé econômico foi relativizado e diferenciado pela ousadia de quebrar paradigmas, como o de baixar a taxa de juros a um piso inferior aos 9%, sem provocar inflação.

Os ventos foram favoráveis à essa mudança que, na realidade, começou a dar sua guinada ainda no governo Lula, quando o Ministério da Fazenda foi vitorioso no embate em torno da redução da meta de inflação, que se mantém até hoje em 4,5%, com intervalo de dois pontos para cima e de dois pontos porcentuais para baixo. Esse movimento de mudança na política econômica ganhou impulso com a fase aguda da crise financeira internacional.

Na época, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou mão das chamadas medidas macroprudenciais, implementadas pelo Banco Central no fim da gestão de Henrique Meirelles.

São medidas que reequilibraram a oferta de crédito interno e externo com a administração dos compulsórios, o dinheiro que os bancos são obrigados a recolher ao Banco Central. Só assim, o BC administrou e ainda administra os vasos comunicantes de maior disponibilidade de dinheiro na economia e garante um alívio aos pequenos bancos que, na crise, perdem a condição de captar recurso barato no mercado.

Matriz. O controle fiscal deu a sustentação necessária à nova "matriz macroeconômica". Na avaliação do ministro, abriu espaço para menor rigidez no controle da inflação por meio da dosagem da taxa de juros, a Selic, e a uma política cambial mais ativa. A redução dos juros já é ponto pacífico e colocou por terra a certeza entre economistas de que o País não suportaria uma taxa de juro inferior a 9% porque a inflação retornaria a passos galopantes. O juro caiu e a inflação também, movimento bem-sucedido com o efeito deflacionário do baixo crescimento mundial. O Banco Central reafirma que a política é de câmbio flutuante, mas também não é novidade que o BC e governo trabalham com uma taxa de câmbio "neutra", que não pressiona os preços.

Ninguém diz que patamar é esse. "É um número mágico", repetem os técnicos. Há uma certeza no Planalto à qual o BC está alinhado: o governo não quer que o câmbio se aprecie tanto.

Anteontem, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Aldo Luiz Mendes, disse, em entrevista ao Estado, que o BC interviria para conter a retomada do processo de desvalorização do real. Foi uma intervenção no câmbio e coerente com a nova matriz econômica e, portanto, com o discurso de Mantega.

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