Assine o Estadão
assine

Economia

Amir Khair

Mãos sujas

Ainda é grande a indefinição dos rumos que tomará a política e a economia do País. Uma surpreendente revelação de uma secretária da Odebrecht, Maria Lúcia Guimarães Tavares, levou a Polícia Federal a desencadear a Operação Xepa, 26.ª fase da Lava Jato, que culminou com a decisão do alto escalão desta empresa a fazer delação premiada.

0

Amir Khair*

27 Março 2016 | 03h00

Nada mais nada menos que 279 políticos de 22 partidos estão na superplanilha da Lava Jato há um mês (?) e o juiz Sérgio Moro se apressou em decretar sigilo (?) sobre o conteúdo dela. Será que essas informações não interessam à sociedade? Mas felizmente os meios de comunicação furaram o sigilo decretado. Agora será fácil esclarecer o que é legal e ilegal nas doações. A delação premiada dos executivos da Odebrecht vai esclarecer muita coisa e bombas de impacto vão dominar o cenário político nos próximos meses. Sim, muita novidade poderá vir a sacudir o Congresso. 

Abre-se a caixa preta de uma grande empreiteira e apareceram 279 políticos. Imagina se abrir a caixa preta de outras grandes empresas que vivem das benesses dos governos federal, estaduais e municipais. 

A política desviou o foco da economia e o futuro é cada vez mais incerto. A tentativa de acordo do senador Serra com o vice-presidente Temer tentando unir PSDB e PMDB pode não progredir face aos desdobramentos das delações que virão. Afinal, em quem confiar? Em Cunha, Renan, Temer?

As manifestações de rua deram seu recado firme contra a corrupção e enxotou políticos que queriam se aproveitar do impacto que elas causaram. É importante considerar a repulsa que as pessoas têm com a falta de representatividade da cúpula política e do uso do dinheiro público para enriquecimento ilícito. 

Enquanto isso a economia continua descendo ladeira abaixo e as demissões se avolumam a cada dia. A insegurança atinge milhões de brasileiros, que não sabem se continuarão empregados. A inflação corrói o poder aquisitivo dos salários. A consequência é a diminuição do consumo, das vendas no comércio e do faturamento das empresas. Na ponta final a arrecadação do setor público desaba. O foco na redução das despesas perde o sentido face à perda de arrecadação e do crescimento dos juros. Em 2015, este último foi responsável por 82% do déficit público, a perda de arrecadação por 13% e a elevação de despesas por apenas 5%. Neste ano a tendência é piorar mais ainda o impacto dos juros e da perda de arrecadação.

Há avaliações que consideram que o dano já causado na economia pela política praticada por este governo pode se estender por alguns anos e, assim, quem vier eventualmente a suceder a presidente no caso de impeachment vai passar maus bocados para reerguer a economia.

Creio que tudo irá depender da política que vier ser adotada. A pregada pelo PMDB no seu programa “Uma ponte para o futuro” corre o risco de naufragar em pouco tempo. Não contém propostas firmes de estímulo ao crescimento. O consumo cede o lugar ao investimento como carro-chefe do crescimento. Isso passou a ser um lugar comum das análises mais divulgadas. Apelam ao “milagre” das expectativas animando o espírito animal dos empresários. 

Não vejo assim. Há que considerar que esse espírito animal só vai se manifestar pragmaticamente quando os empresários constatarem duas coisas: a) perspectivas favoráveis de consumo e; b) redução da capacidade ociosa da produção. Só então virão novos investimentos. Não arriscar o futuro é o que vai dominar a decisão empresarial. É difícil e muitas vezes demorado ganhar dinheiro nos negócios e fácil e rápido perder o que se investe. Muita cautela é a palavra de ordem.

Defendo o consumo como carro-chefe da retomada do crescimento. Para isso é absolutamente necessário colocar no lugar o que impede o crescimento: a elevada taxa de juros ao consumidor, que multiplica por 2,4 vezes o preço à vista no crediário. As famílias estão entupidas de dívidas com parcelas de juros nas prestações que freiam seu consumo e as levam à inadimplência. O mercado financeiro, por enquanto, ainda lucra com essa situação, mas em breve vai sentir o impacto da quebradeira de empresas e da interrupção do recebimento das parcelas que foram financiadas.

Sem mexer nessas taxas o País vai continuar funcionando como um poderoso carro que se move travado pelo freio de mão puxado.

O governo pode ter papel relevante nesta retomada. Há que calibrar suas despesas. É fácil economizar. Não o que se propaga que é o corte em programas sociais. Estes ainda animam o consumo e garantem parte relevante do clima social mais ameno. O dinheiro jogado fora é com os juros: R$ 501 bilhões em 2015 e caminhando para R$ 650 bilhões (!) neste ano. A realocação de recursos só se torna viável em relativamente pouco tempo com a derrubada desta despesa.

Manter o excesso de reservas internacionais quando se caminha para o equilíbrio das contas externas custa ao País R$ 110 bilhões por ano! Reduzir a Selic ao nível da inflação projetada para os próximos doze meses permitiria gradualmente uma economia anual adicional à venda do excesso de reservas de R$ 230 bilhões!

Infelizmente nem este governo nem os que pretendem assumir o comando do País parecem inclinados a pôr um basta a este esbanjamento irracional.

Apesar disso continuo defendendo a colocação no lugar das taxas de juros básica e ao tomador. Talvez, infelizmente, tenha que aguardar outros fracassos de tentativas de reerguer o País via aperto de cinto das camadas de renda média e baixa. 

Enquanto isso vão aparecendo as mãos sujas que desviam recursos públicos subtraídos dos que mais necessitam. Esse o maior crime. 

*Amir Khair é mestre em Finanças Públicas pela FGV e consultor

Mais conteúdo sobre:

publicidade

Comentários