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Marcha à ré

O desastre do PIB não é consequência da crise externa; é obra do governo Dilma, que praticou uma política econômica errada

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Celso Ming

03 Março 2016 | 21h00

Em 2014, quando as Contas Nacionais revelavam fracasso do PIB, o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, dizia que não se podia olhar pelo retrovisor, que era preciso olhar para a frente, pelo para-brisa. Era puro papo-furado, porque o que veio depois é o que vemos. Desta vez, esse tipo de conversa nem pode ser retomada. Já se sabe que o que vem pela frente é ruim ou até pior do que aconteceu em 2015.

O recuo do PIB, dentro do previsto, ficou nos 3,8% em relação ao nível de 2014. O brasileiro ficou mais pobre porque a renda média (renda per capita) caiu 4,6% em relação à de 2014, com a agravante de que o pobre e o cidadão de classe média devem ter perdido mais renda do que o das classes favorecidas, porque este tem mais condições de se defender da inflação e do estrago provocado pela recessão.

O governo continua dizendo que esse tombo é consequência da crise externa. Engolir essa história é acreditar em duendes. Só a Rússia (-3,8%) e a Venezuela (-4,5%), dois grandes exportadores de petróleo, apresentaram números parecidos com os do Brasil. Esse desastre é obra nossa; é do governo Dilma, que praticou uma política econômica errada.

Três são os números mais relevantes entre os apresentados nessa quinta-feira pelo IBGE. O primeiro deles é o novo naufrágio da indústria: 6,2%, em comparação com 2014. Mas, se for tomado o segmento da indústria de transformação, o afundamento é ainda maior: 9,7%; e o da construção civil, grande empregador de pessoal, 7,6%. Mais uma vez, salvou-se a agropecuária (crescimento de 1,8%), mas este é um setor que pesa cerca de 5,0% no PIB.

O segundo é o Consumo das Famílias, segmento festejado em anos anteriores como grande propulsor do crescimento econômico e da renda nacional. O tombo, de 4,0%, mostra que o poder aquisitivo foi ralado pela inflação e pelo desemprego. Desta vez, o consumo externo (exportações) foi bem (aumento de 6,1%), mas é uma conta que também pesa pouco no PIB, coisa de 13,0%.

E o terceiro número mais relevante tem a ver com o investimento, que tecnicamente leva o nome e sobrenome de Formação Bruta de Capital Fixo. A queda em relação a 2014 foi de 14,1%. Esse desempenho foi especialmente desastroso porque investimento de hoje é produção de amanhã. Se a semeadura se retrai dessa forma, é inevitável o impacto sobre a safra futura. E essa é uma das razões por que olhar a paisagem pelo retrovisor não entusiasma ninguém (veja ainda o Confira).

O forte recuo de 2015 funciona como embalo negativo para 2016. Qualquer recuperação terá de suplantar a atual velocidade da marcha à ré. Esse é um dos motivos pelos quais as projeções sobre o comportamento do PIB de 2016 não são muito diferentes do resultado de 2015. O Boletim Focus, por exemplo, que registra a expectativa de cerca de 100 consultorias, bancos e departamentos econômicos de empresas, aponta para este ano novo recuo do PIB de 3,45%. O próprio Banco Central passou a trabalhar com queda do PIB de 3,0%. Se um número dessa ordem se confirmar, em dois anos a economia brasileira terá se esvaziado em cerca de 8%.

CONFIRA:

O gráfico mostra como investimento e poupança deslizam ladeira abaixo.

 

Poupancinha

O Brasil consome demais pelo que quer crescer. Sobra pouca coisa para a poupança. Esse é um dos fatores que seguram o avanço. Só para comparar, o padrão asiático é poupança de 30% a 35% do PIB, mais do que o dobro do brasileiro. O da China é superior a 50%. Quando o governo estimula ainda mais o consumo, com crédito subsidiado, como aconteceu quando prevaleceu a Nova Matriz Macroeconômica, o baixo crescimento passa a ser opção de política econômica.

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