Fábio Motta|Estadão
Fábio Motta|Estadão

PERFIL: Maria Silvia comandava guinada no BNDES sob fogo amigo

Primeira mulher no alto escalão de Temer, economista tinha fama de 'trator', após comandar a CSN

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2017 | 18h31

RIO - Há exato um ano e dez dias, a economista Maria Silvia Bastos Marques era anunciada pelo então presidente em exercício Michel Temer como a nova presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Foi a primeira mulher a ser indicada para o alto escalão do governo Temer, após a nomeação de um ministério formado apenas por homens ser alvo de críticas.

Sua indicação, anunciada um dia antes do nome de Ilan Goldfajn para presidir o Banco Central (BC), sugeria alinhamento na equipe econômica. Exigente, focada em resultados e com fama de "trator" no mundo dos negócios, onde fez fama ao ser a primeira mulher a comandar a siderúrgica CSN, Maria Silvia foi diretora do BNDES quando o banco começou a trabalhar nas privatizações, no início dos anos 1990. Voltou duas décadas depois para dar uma guinada no banco.

Neste mês, Maria Silvia enfrentou "fogo amigo" de setores do próprio governo. As reclamações são de que o banco travou o crédito e não está funcionando, como mostrou o Broadcast. No dia 8, a revista "Época" publicou que o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, estaria procurando um substituto para Maria Silvia, mas o Palácio do Planalto descartou mudanças. 

As críticas vêm desde o ano passado. Maria Silvia vinha argumentando, reiteradas vezes, que, em meio à recessão, falta demanda por crédito para investir e não oferta por parte do BNDES. Ano passado, os desembolsos para empréstimos já aprovados encolheram 40% em termos reais. 

Ainda que o tamanho da queda seja explicado pela falta de demanda, a redução do BNDES foi uma das primeiras medidas do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Há um ano, antes de Temer completar um mês no cargo, o próprio presidente anunciou a devolução de R$ 100 bilhões, parcelados em três anos, da dívida do banco de fomento com a União. 

O desafio de Maria Silvia era justamente reduzir o BNDES, cuja expansão foi uma marca nos governos do PT. Turbinados por R$ 440,8 bilhões em aportes do Tesouro de 2009 a 2014, os desembolsos saltaram de R$ 88,5 bilhões em 2003 para R$ 267 bilhões em 2010, em valores de 2016.  

Ao longo de um ano de gestão, a restrição ao crédito subsidiado e mudanças internas foram alvo de críticas do empresariado e de parte do corpo técnico. A Operação Bullish, que investiga as operações do banco com o frigorífico JBS, e a revelação da delação premiada dos principais executivos da maior processadora de carnes do mundo aumentaram a pressão. A associação de funcionários (AFBNDES) reclamou da falta de firmeza na defesa do trabalho técnico dos servidores.

A tarefa de encolher o BNDES não estava sendo fácil, mas Maria Silvia vinha acelerando as mudanças. Em novembro passado, surpreendeu o mercado, ao devolver os R$ 100 bilhões de uma vez, e não em três.

Outro sinal do ritmo acelerado das mudanças foi a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP), que substituirá a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) nos empréstimos do BNDES a partir de 2018. Cerca de três meses se passaram entre a revelação, pelo Estado, de que a equipe econômica estudava atrelar os juros do BNDES às taxas das NTN-Bs, títulos públicos corrigidos pela inflação, e o anúncio da TLP, no fim de março.

O destaque da guinada foi o anúncio da nova política de crédito do banco, na primeira semana deste ano, com regras que valem para todos os setores e incentivos "horizontais" aos projetos que recebem crédito subsidiado.

Em relação a suspeitas de irregularidades nas operações, a diretoria de Maria Silvia criou uma Área de Controladoria e mudou regras para a concessão de empréstimos para a infraestrutura e para a exportação de serviços. Conforme investigações do Tribunal de Contas da União (TCU), da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) vinham avançando, o banco criou comissões de apuração interna.

A apuração sobre os empréstimos à Usina São Fernando, do pecuarista José Carlos Bumlai - próximo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele foi condenado na Lava Jato - "concluiu que a operação foi contratada de acordo com as definições operacionais do banco, seguindo, de forma regular, todos os procedimentos", como informou o BNDES em nota ao Estado em dezembro.

Com a deflagração da Operação Bullish, uma comissão de apuração interna sobre as operações com a JBS foi instalada, comunicou o BNDES no último dia 16. O prazo para apresentar os primeiros resultados é 45 dias. 

Ao longo do um ano de gestão de Maria Silvia, o Estado ouviu de funcionários que as mudanças, tanto na política operacional quanto nos controles internos, não foram tão grandes assim. Alguns classificaram as ações de "marqueteiras".

Nesta quinta-feira, 25, em editorial publicado em seu jornal interno, a AFBNDES rebateu a afirmação do presidente Temer, que em pronunciamento no último sábado disse que nomeou Maria Silvia para moralizar o banco. "Não há nenhuma 'moralização' ocorrendo no processo de nomeação de conselheiros em empresas investidas da BNDESPar. Os empregados do BNDES indicados para conselhos de administração ou fiscal das empresas investidas pelo banco não recebem remuneração no exercício dessa atividade", diz o editorial.

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