Meirelles e Ilan aproveitam janela, mas amarram próximo governo com metas

Mudança na meta de inflação junto com o teto do gasto vão ditar a política econômica do sucessor de Temer

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2017 | 19h40

Passou mais de uma década até que Henrique Meirelles – hoje ministro da Fazenda – conseguisse anunciar a redução da meta de inflação brasileira na direção de patamares mais próximos da média de 3% praticada em países avançados (veja mais abaixo). À frente do Banco Central e como principal fiador da política econômica do governo Lula após a queda de Antonio Palocci, Meirelles teve com o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, os mais duros embates justamente por conta da meta de inflação.

Enquanto Mantega queria dar espaço à queda mais rápida dos juros para acelerar o crescimento da economia, Meirelles avaliava que aquele era o momento de reduzir a meta brasileira para patamares mais próximos dos praticados nos países mais ricos. A redução da meta seria um empecilho, na avaliação da equipe de Mantega. Foram dois anos de tensão e alfinetadas públicas entre um e outro, que esquentavam às vésperas do Conselho Monetário Nacional (CMN) decidir a meta de inflação de 2008 (em 2006) e de 2009 (em 2007).

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Meirelles não conseguiu convencer o presidente Lula. Com o estouro da crise financeira internacional, em setembro de 2008, a redução da meta deixou de ser uma polêmica dentro da equipe diante da necessidade de acelerar o crescimento econômico do País.

Convencido por Mantega, Lula chegou a dizer que o governo não deveria fazer mais sacrifício reduzindo a meta. "Seria bom, e essa é uma opinião muito pessoal, que a gente refletisse bem. Já fizemos o sacrifício para 4,5% e foi muito duro. Gostaria que pensássemos politicamente, que não temos mais o direito de fazer um novo arrocho", declarou Lula na época ao colocar um ponto final na disputa.

Por muitos anos, a derrota de Meirelles nessa verdadeira guerra dos dois ministros de Lula foi "cantada" pela equipe de Mantega como a mais importante vitória da Fazenda. Na avaliação de muitos assessores do ministro, a permanência da meta de 4,5% naquele momento, mesmo com a pressão de Henrique Meirelles, pode ser considerada um "turning point" da política econômica no governo Lula.

A virada. Depois de 11 anos desse embate que marcou a história da política econômica brasileira, e apesar de todas as incertezas políticas (e talvez mesmo em razão delas), a equipe econômica do governo Michel Temer – com Ilan Goldfajn no BC, aproveitou hoje a janela de oportunidade que se abriu ao País para colocar em prática um plano que tinha ficado para trás.

Uma oportunidade que não existia na época do governo Lula. A inflação está muito baixa e já há analistas do mercado prevendo o estouro da meta deste ano para baixo. E o crescimento da economia não aponta uma aceleração que possa comprometer o controle da inflação. Tudo isso afeta positivamente as expectativas, facilitando o trabalho de convergência da inflação para as metas.

A decisão de hoje do CMN de alongar e reduzir as metas, porém, amarra o próximo governo. Se Temer conseguir ficar no cargo até 2018, sua equipe terá definido as metas de 2019, 2020 e de 2021 para o próximo governo. A mudança na meta de inflação junto com o teto do gasto, aprovado no ano passado pelo Congresso, vão ditar a política econômica do sucessor de Temer. Em tese o próximo governo poderá rever esses planos. Mas não sem muito desgaste e pressão do mercado.

METAS DE INFLAÇÃO 

País   Meta/Centro do Intervalo  

 Argentina 2,0% 

Turquia 0% 

Brasil 4,5% 

República Dominicana 4,0% 

Índia 4,0% 

Indonésia 4,0% 

Rússia 4,0% 

Chile 3,0% 

China 3,0% 

Colômbia 3,0% 

Costa Rica 3,0% 

Hungria 3,0% 

México 3,0% 

Filipinas 3,0% 

Sérvia 3,0% 

África do Sul 3,0% 

Austrália 2,5%  

Islândia 2,5% 

Noruega 2,5% 

Polônia 2,5% 

Romênia 2,5% 

Tailândia 2,5% 

Canadá 2,0% 

República Checa 2,0% 

Zona do Euro 2,0% 

Israel 2,0% 

Japão 2,0% 

Nova Zelândia 2,0% 

Peru 2,0% 

Coreia do Sul 2,0% 

Suécia 2,0% 

Suíça 2,0% 

Reino Unido 2,0% 

Estados Unidos 2,0% 

MÉDIA 3,0% 

Fonte: Ministério da Fazenda

*Adriana Fernandes é repórter especial do Broadcast na sucursal de Brasília 

 

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