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Mercado de empréstimo online começa a atrair investidores no Brasil

Segmento que movimentou US$ 5,98 bi nos EUA em 2014 ganha espaço no mercado brasileiro, com cenário de escassez de crédito e juro alto; em março, duas empresas começaram a operar esse modelo de crédito e pelo menos sete avaliam entrar no País

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LAURA MAIA , JÚLIA LEWGOY , ESPECIAL PARA O ESTADO ,
O Estado de S.Paulo

26 Maio 2015 | 02h04

A escassez de crédito e a escalada da taxa de juros estão abrindo espaço, no Brasil, para um mercado que, lá fora, virou um fenômeno: o de empréstimos online para pessoas físicas e empresas. Só no ano passado, nos EUA, duas das principais plataformas de crédito online movimentaram US$ 5,98 bilhões em empréstimos. No País, o modelo de negócio já começa a atrair os primeiros empreendedores e investidores.

Uma das últimas a estrear no mercado foi a plataforma Biva, idealizada pelo advogado Paulo David, de 26 anos, e pelo administrador financeiro Eduardo Teixeira, de 22 anos. A empresa, ainda uma startup, tem o aval do fundo de investimento Vox Capital, de Antonio Moraes Neto, herdeiro do Grupo Votorantim, e do fundo argentino KaszeK Ventures, dos fundadores do Mercado Livre. Nos últimos três meses, a Biva realizou cerca de 40 empréstimos, conectando online pequenas e médias empresas a investidores pessoa física - modelo de negócio que é inédito no Brasil, conhecido por peer-to-peer lending, ou empréstimo de pessoa para a pessoa.

No mercado de crédito online, entretanto, a empresa não está sozinha. O Simplic, correspondente bancário da financeira Sorocred, oferece crédito online para pessoas físicas desde julho de 2013. E a plataforma Geru, correspondente bancária do Banco Bracce, também iniciou sua operação em março deste ano.

O escritório de advocacia Pinheiro Neto está assessorando mais sete grupos de investidores que querem atuar nesse ramo aqui no País. "A tecnologia está mudando a economia como um todo, e também o sistema bancário", diz o sócio do escritório Bruno Balduccini.

Lá fora, as operações de peer-to-peer são realizadas sem a intermediação de uma instituição financeira, mas no Brasil, por causa das regras do sistema financeiro nacional, isso não é possível. "Temos um modelo tropicalizado", observa Balduccini, um dos responsáveis por arquitetar o modelo da Biva. Para se adequar às regras do Banco Central, a plataforma atua como um correspondente bancário, ao ajudar na estruturação do empréstimo que é realizado, de fato, pelo banco parceiro, cujo nome não pode ser revelado por causa da confidencialidade do contrato.

"Nossa ideia é levar crédito para pequenas empresas que não têm acesso ou, quando têm, pagam muito caro por isso", diz Paulo David.

Foi por meio da Biva que o dono de uma esmalteria em São Paulo, o empresário Heber Santos, de 36 anos, acabou de conseguir R$15 mil para mudar o endereço do salão de manicure. Ele percorreu agências de seis bancos durante 15 dias buscando as melhores condições, mas só conseguiu taxas de juros de 3,8% ao mês como pessoa física e de 2,99% como pessoa jurídica - além de ter achado as análises de crédito burocráticos. Na Biva, o processo durou quatro dias úteis, a uma taxa mensal de 2,38%. "Vou me mudar para o novo ponto em julho", conta entusiasmado.

No Simplic os empréstimos, oferecidos para pessoas físicas, variam de R$ 500 a R$ 2.500 e podem ser parcelados em até 12 vezes. As taxas de juros, entretanto, não são tão atrativas quando comparadas às formas tradicionais de crédito. "Nosso objetivo não é oferecer taxas menores, mas sim facilidade e comodidade. Focamos em clientes que estão em um momento de aperto", explica o diretor do Simplic, Rafael Pereira.

A Geru oferece empréstimos que vão de RS$ 2 mil a R$ 35 mil reais e podem ser pagos em até 36 meses. As taxas de juros variam de 25% a 80% ao ano, dependendo do resultado da análise de crédito a qual o cliente é submetido ao solicitá-lo. Para o fundador da Geru, Sandro Reis, uma das principais vantagens do serviço é a impessoalidade. "A pessoa solicita o crédito da própria casa, sem ninguém saber se teve o pedido aprovado ou não e, o melhor de tudo, de forma rápida."

Potencial. Para o professor de Tecnologia da Informação da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Fernando Meirelles, as taxas de juros oferecidas nessa modalidade ainda são altas e só tendem a baixar quando o volume de transações for maior. "Por enquanto, as taxas só são vantajosas para quem tem menos acesso ao sistema tradicional de crédito", diz.

O pesquisador Bryan Zhang, diretor do Centro de Finanças Alternativas da Universidade de Cambridge, acredita que o Brasil tem um enorme potencial para modelos de negócio como peer-to-peer lending e crowdfunding (financiamento coletivo). "O País tem os ingredientes perfeitos para disseminar formas alternativas de financiamento: grande população, uso massivo de celulares e rede sociais. Além de espaço para tecnologia e empreendedorismo."

Em 2010, a plataforma Fairplace tentou instalar o peer-to-peer puro no Brasil, ou seja, sem intermediação bancária. Após alguns meses de funcionamento, o site teve de encerrar as operações porque a atividade de conectar diretamente usuários que precisavam de empréstimos com quem queria emprestar recursos em troca de remuneração foi caracterizada como intermediação financeira - o que só pode ser feito por instituição autorizada pelo Banco Central.

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