Filipe Araújo/Estadão
Filipe Araújo/Estadão

Mercado prevê novo reajuste de combustíveis até o fim do ano

Para analistas, aumento de gasolina e diesel dá R$ 8 bilhões por ano à Petrobrás, mas está longe de resolver a crise financeira da estatal

Antonio Pita, Fernanda Nunes , O Estado de S. Paulo

30 Setembro 2015 | 22h19

RIO - Longe de resolver a situação financeira da Petrobrás, o reajuste de combustíveis contribuiu principalmente para reduzir as dúvidas dos investidores quanto à autonomia da cúpula da estatal sobre a política de preços. As ações da estatal subiram quase 10%, refletindo o otimismo com o que analistas chamaram de “postura de comprometimento” com a recuperação da empresa no longo prazo. 

Os ganhos financeiros com o reajuste de combustíveis são estimados em até R$ 8 bilhões ao ano, cifra tímida diante da escalada da dívida nos últimos três mês, que subiu cerca de R$ 100 bilhões puxada pela disparada do dólar. O cenário delicado já leva especialistas a projetar novo reajuste para fortalecer o caixa da estatal até o próximo ano. 

“A alta das ações reflete um otimismo com a demonstração de uma postura compromissada da diretoria, que entendeu que a situação era tão complicada que já não tinha saída”, avalia Walter de Vitto, da consultoria Tendências. “Parece o começo de um caminho em que a Petrobrás vai reagir mais rápido à variações externas no preço do óleo, reverter a política nociva de conter reajustes. É bem provável que, até zerar as perdas dos últimos cinco anos, a Petrobrás pratique preços acima do mercado internacional.”

As perdas decorrem da defasagem entre o valor pago pela Petrobrás ao importar petróleo e derivados entre 2010 e 2014, e o preço de revenda no mercado doméstico. Para conter alta na inflação, o governo evitava reajustar preços de combustíveis interferindo sobre as decisões da cúpula da empresa. A ingerência provocou um rombo estimado em R$ 80 bilhões no caixa da companhia, que recorreu a financiamentos em dólar para manter projetos. No período, a dívida cresceu mais de 700%. 

A equação financeira da estatal é delicada: em junho, pela primeira vez a estatal registrou uma geração de caixa abaixo do volume de dívidas de curto prazo: R$ 41 bilhões ante débitos de R$ 44 bilhões a serem pagos até o início de 2016. A situação se agravou com a depreciação cambial de 30% em setembro, e o reajuste de preços foi inevitável para elevar a geração de caixa. Com a medida, a estatal deve gerar entre R$ 6 e R$ 8 bilhões por ano, conforme relatório do BTG Pactual e Bank of America Merrill Lynch. 

Essa melhora se deve ao fato de que, agora, gasolina e diesel estão sendo vendidos no País com preços entre 7% e 13% mais caros que o mercado internacional, segundo análise do HSBC. O banco melhorou as projeções para a relação entre a capacidade de a estatal gerar caixa e o volume das dívidas (alavancagem). Ainda assim, considera que o reajuste não “dissipa totalmente as preocupações” com a pressão cambial sobre a dívida. “Para alcançar a meta para a alavancagem em 2017, a estatal teria de passar por aumento adicional de 10% em 2016 e 2017.”

O alerta com os impactos do dólar é tamanho que nesta quarta-feira foi anunciada uma conversão incomum de empréstimo já firmado com o Banco do Brasil. O crédito na modalidade de exportação ao etanol, firmado originalmente em dólar, foi convertido para real no montante de R$ 4 bilhões, com prazo de quase dez anos. A Petrobrás também estuda novo corte de investimentos, mas o conselho da estatal não chegou a consenso na reunião desta quarta-feira. 

O analista Flávio Conde, da consultoria WhatsCall prevê novo reajuste ainda neste ano, em dezembro. Segundo ele, a Petrobrás ainda não está protegida de novas depreciações cambiais. “É preciso lembrar que, até o final do ano, teremos duas reuniões do Fed (o Banco Central americano), que já sinalizou para um alta de juros neste ano. Isso pressiona as moedas emergentes”, avalia. “Em termos financeiros, o reajuste alivia muito pouco. Vai ser necessário uma nova capitalização no próximo ano para levantar cerca de US$ 25 bilhões.”

A alternativa, porém, é vista com reservas por investidores e analistas. A capitalização demandaria aportes do governo, que não tem recursos sequer para o orçamento do próximo ano.

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