Mercúrio e Brunello

Usinas de energia geotérmica ameaçam tirar a paz de um paraíso turístico italiano famoso pela produção de vinhos

O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2015 | 02h03

A vista do terraço que Giorgio Franci tem no alto de seu moinho de azeite, na Toscana, é sublime. Abarca todas as ondulações do Val d'Orcia. As muralhas de Pienza, patrimônio mundial da Unesco, erguem-se, quase indistintas, a leste. Espalhados pelo vale - que está incluído entre as paisagens culturais da Unesco - veem-se castelos medievais, vilarejos etruscos encravados nas colinas e vinhas de da região de onde sai um dos grandes vinhos da Itália, o Brunello di Montalcino.

Se os temores de Franci se confirmarem, porém, em breve esse cenário glorioso estará salpicado de plataformas de perfuração e, em poucos anos, brotarão usinas geotérmicas por todo lado. O Val d'Orcia é palco de uma disputa apaixonada, em que os adversários dos conservacionistas não são exploradores à procura de combustíveis fósseis, e sim paladinos da energia verde.

Em 26 de agosto, expirou uma moratória de seis meses imposta pelo governo regional da Toscana, dando nova partida a um processo que envolve a realização de sondagens em 31 concessões, algumas das quais no Val d'Orcia e em outras áreas ambientalmente sensíveis.

Os toscanos convivem com a energia geotérmica desde a era clássica, quando teve início a utilização das fontes de água quente da região.

A primeira usina geotérmica do mundo foi construída em Larderello, no norte da Toscana, em 1913. Atualmente, esse tipo de energia atende a 27% da demanda da região. Até poucos anos atrás, a exploração era monopólio da Enel, maior geradora de energia da Itália.

O setor foi liberalizado há cinco anos, e entre as empresas que venceram os leilões de concessão estão subsidiárias italianas de empresas portuguesas e canadenses, além de uma série de companhias locais, algumas das quais estreando no segmento de energia.

Segundo Antonio Mazzeo, do governo regional da Toscana, a exploração de áreas como o Val d'Orcia pode ajudar a Itália a cumprir as metas impostas pela União Europeia, que estabeleceu que até 2020 o país deve elevar para 20% a participação das fontes renováveis no total de energia gerada pelo país. Além disso, alega Mazzeo, serão criados novos empregos.

Oposição. Há quem se oponha radicalmente à energia geotérmica. Embora renovável, ela não é necessariamente benigna: sua exploração produz alto nível de ruído e envolve a liberação de substâncias tóxicas presentes no subsolo. As plantas geotérmicas instaladas no Monte Amiata, que se ergue às margens do Val d'Orcia, passaram anos despejando mercúrio no ar.

A Enel Green Power, responsável pelas usinas, diz ter eliminado o problema com um novo sistema de filtros. Stefano Boco, que já advogou para o Partido Verde italiano e hoje preside uma associação em que estão reunidos os novos concorrentes da Enel, diz que "100% de nossos membros estão comprometidos com a utilização de uma tecnologia de circuito fechado, que não produz emissões". Os níveis de ruído das novas usinas aparentemente ficarão bem abaixo do estabelecido pela legislação.

Alguns críticos aceitam a energia geotérmica, mas argumentam que a instalação de usinas em determinadas áreas vai desfigurar paisagens únicas e ameaçar a economia local, que gira em torno do turismo e de produtos alimentícios de alta qualidade.

"Para nós, a beleza imaculada do Val d'Orcia é valor adicionado", explica Franci, que herdou a fábrica de azeite do pai. "Vendemos nossos produtos na China, graças a um intermediário. Representamos zero ponto zero alguma coisa do faturamento dele. Mas sempre que vem com clientes para a Europa, ele os traz aqui para comer pici e tagliata, fazer uma degustação - e admirar a vista."

Para Giampiero Secco, prefeito de Seggiano, municipalidade da região, a concessão de licenças de exploração está em franca contradição com a ênfase que sucessivos governos deram ao agroturismo e ao agronegócio na Toscana. "Muitas pessoas aqui foram estimuladas a seguir numa direção, e agora estão puxando o tapete delas."

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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