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Economia

Celso Ming

Meta estourada

A inflação de dezembro ficou em 0,96%, número que perfez, para todo o ano de 2015, uma inflação de 10,67%, a mais alta dos últimos 12 anos

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Celso Ming,
O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2016 | 21h34

A inflação de dezembro, medida pelo IPCA, ficou dentro das expectativas. Ficou em 0,96%, número que perfez, para todo o ano de 2015, uma inflação de 10,67%, a mais alta dos últimos 12 anos, mais de 6 pontos acima da meta (4,5%).

Como a lei exige, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, encaminhou ainda nesta sexta-feira carta ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, em que apresenta suas explicações para o estouro do teto da meta (6,5%) no ano passado.

Um dos principais fatores dessa disparada foi o realinhamento dos preços administrados, aqueles que se alteram apenas por lei ou decisão de governo, como tarifas de energia elétrica, combustíveis, transportes urbanos, telefonia, etc. Esse segmento , cujas correções ficaram atrasadas em 2014, porque a política foi comprar o apoio dos eleitores, subiu nada menos que 18,06% em 2015 (veja gráfico no Confira). Os preços da energia elétrica, por exemplo, saltaram 51% e os da gasolina, 20,1%. Eles têm um peso de aproximadamente 25% na cesta de preços ao consumidor e foram decisivos para o estouro acontecido em 2015.

Quem enfatiza a disparada dos preços administrados prepara o argumento de que os juros básicos (Selic) não devem subir, porque essa inflação é de aumento de custos, e não de demanda. Portanto, não tem a ver com exacerbação do consumo que a alta dos juros deveria conter.

No entanto, a despeito da queda do consumo e do forte recuo da atividade econômica, não se pode desprezar a disparada ocorrida também no segmento de preços livres, como se pode aferir a partir do alto índice de difusão, que não foi inferior a 65% ao longo do ano e apontou em dezembro os 74,6% . Esse número indica quantos itens de consumo apresentaram alta no período. Entre as razões dessa anomalia está o forte e abrangente sistema de indexação (reajustes automáticos pela inflação passada) da economia.

Como não há mais represamentos significativos de preços administrados a repassar para a economia, ninguém espera que essa inflação de dois dígitos se repita em 2016. Mas a pressão de alta continua excessiva. A inflação de quase 11% em 2015 é fator que, por si só, cria um campo de inércia que tende a puxar para cima também a inflação de 2016.

A expectativa do mercado é a de que a inflação dos próximos 12 meses também estoure o teto da meta. O último dado da Pesquisa Focus levantado pelo Banco Central aponta para uma inflação esperada em 2016 de 6,87%.

Essa virulência da inflação é o que vinha levando o Banco Central a acenar com novo reforço da Selic, hoje nos 14,25% ao ano, com o objetivo de criar condições para a convergência para a meta de 4,5%, ainda que apenas em 2017. Até mesmo alguns economistas conservadores entendem que nova safra de alta seria prejudicial, porque tenderia a exacerbar as despesas com juros, que são incorporados à dívida e, portanto, a aumentariam excessivamente.

Essa questão será dirimida dia 20, data em que está agendada nova decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

CONFIRA:

Aí está a evolução tanto dos preços livres como dos administrados.

 

Pior para o povão

A coordenadora de Índices de Preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos, observou nesta sexta-feira que essa inflação de quase 11% prejudicou mais a baixa renda do que os outros segmentos. É um reforço na demonstração de que essa inflação é concentração de renda na veia, e não o contrário, como pensam as esquerdas jurássicas. Ou seja, a inflação contribuiu para derrubar o PIB, que nada mais é do que a renda nacional e empobreceu mais os pobres do que os ricos.

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