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Mina de urânio só produz morcegos

Marta Salomon - O Estado de S.Paulo

09 Maio 2011 | 00h 00

Atrasado por falta de licenças ambientais, programa nuclear brasileiro entra em colapso após acidente de Fukushina. Moradores de Santa Quitéria aguardam dias melhores

A maior mina de urânio prospectada do país, no município de Santa Quitéria (CE), é hoje um morro com pedaços de rocha avermelhada à vista e galerias de pesquisa que viraram moradia de morcego. Sem licença ambiental e do órgão de fiscalização da área nuclear, a mina de Itataia deveria entrar em operação em um ano e meio, produzindo mais de mil toneladas de urânio, mas a nova estimativa, que é meados de 2015, já ameaça não vingar.

O caso da mina de Itataia é mais um adiamento no cronograma do Programa Nuclear Brasileiro, abalado depois do acidente nas centrais nucleares de Fukushima, em março.

"Acho que é essa nuvem lá do Japão que deu problema aqui", arrisca Vanderlei de Oliveira, vizinho da área das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) no sertão cearense. "Isso aí só não vai demorar mais se a Dilma "acoxar"", completou, esperando da presidente Dilma Rousseff pressão para a mina de urânio e fosfato começar a operar.

"Eles falam que vai sair, mas não sai", observa o sogro de Vanderlei, Luiz Gonzaga Macedo, que trabalhou nas primeiras sondagens em Itataia, nos anos 70.

Depois do terremoto do Japão, e sem que haja um desfecho claro para o acidente nuclear, Dilma Rousseff tirou da agenda a definição sobre o local das quatro próximas usinas nucleares brasileiras, previstas para entrarem em funcionamento até 2030. O cenário até inibiu o lobby de grandes empreiteiras, em movimentação no governo e no Congresso, para mudar a Constituição e passarem a poder operar usinas nucleares. A tarefa hoje é monopólio da União.

Importar urânio. Independentemente do acidente nuclear no Japão, o programa nuclear brasileiro, ressuscitado no segundo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enfrenta dificuldades crescentes. O país, que planeja exportar urânio enriquecido para a China e a Coreia, teve de importar urânio para abastecer as usinas de Angra 1 e 2. O motivo é simples: a única mina em operação, em Caetité (BA), não conseguiu cumprir os planos de aumentar a lavra e ainda teve a produção reduzida por falta de licenças da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen).

Parada. A mina de Itataia deveria extrair 1.100 toneladas de urânio em sua fase inicial, a partir de 2013, junto com 240 toneladas de fosfato, destinadas à produção de fertilizantes, considerada igualmente estratégica pelo governo. Esses foram os planos divulgados com o anúncio da primeira parceria da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) com uma empresa privada, a Galvani, em 2008.

Três anos depois, a mina está parada. A Galvani nem tem escritório na cidade. A estatal INB mantém apenas três funcionários no local, entre eles o vigia Antonio Dias Gomes, que trabalha ali há quase 20 anos.

"Aqui é uma região muito pobre, o povo vive da roça, dos cabritos e de Bolsa Família. Quando algum membro da família consegue se aposentar o restante da família encosta", resume o funcionário. Depois da visita do Estado, Dias Gomes disse que faria uma limpeza na área de uma das galerias de pesquisa, onde o mato cresceu.

"O povo aqui não tem medo de urânio não, torce para que tenha trabalho", completou.

"Vai não vai". A mina de Itataia, em Santa Quitéria, não foi adiante por falta de licenças ambiental e da área nuclear. Mas há um desencontro de informações entre órgãos do governo. A Cnen informou que a licença para mina depende de uma descrição detalhada do processo de mineração e do processamento posterior do minério. Os documentos foram exigidos das Indústrias Nucleares do Brasil.

A estatal INB confirma que o cronograma da mina está atrasado, mas que o Estudo de Impacto Ambiental já teria sido entregue ao Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O órgão ambiental federal informou que as regras para o estudo só foram definidas em fevereiro deste ano e que ainda aguarda a apresentação do estudo pela estatal.

Sem saber se continuará no cargo, o presidente das INB, Alfredo Tranjan, não atendeu ao pedido de entrevista até sexta-feira à noite.

O novo atraso no cronograma de Itataia não alarma o relojoeiro ambulante Raimundo Nonato Mesquita. "Faz uns 40 anos que essa mina está num vai não vai. Na época de campanha eleitoral, os políticos falam da mina, mas depois esquecem".

O último prefeito eleito na cidade teve o mandato cassado por compra de votos.

O relojoeiro trabalhava na sexta feira na avenida principal de Santa Quitéria, a pouco mais de 200 quilômetros de Fortaleza. Nos postes da avenida, cartazes informam que Santa Quitéria é a terra do fosfato e do urânio, com o verbo no presente, apesar de a exploração nem ter começado.

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