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Mineração vai levar US$ 47 bi em investimentos ao Pará

Quantidades de recursos injetados na economia local terão reflexo direto na criação de 99 mil empregos

Renée Pereira

29 Junho 2014 | 02h 06

O setor de mineração têm sido um dos principais motores de crescimento da Região Norte, em especial no Pará, onde estão as grandes jazidas minerais. Nos próximos quatro anos, até 2018, só esse Estado deverá receber cerca de US$ 47 bilhões de novos investimentos, segundo dados do Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará (Simineral).

A quantidade de recursos injetados na economia local terá reflexo direto na criação de 99 mil postos de trabalho. Até o ano passado, a cadeia produtiva mineral respondia por 271 mil empregos diretos e indiretos no Estado. Para cada emprego direto, outros 13 postos de trabalho são criados ao longo da cadeia, diz o presidente do Simineral, José Fernando Gomes Júnior.

Na avaliação dele, todo esse investimento vai trazer desenvolvimento e progresso para a região, já que as cidades envolvidas recebem uma compensação financeira pela exploração dos recursos minerais, uma espécie de royalty da mineração. Em 2013, a arrecadação dessa conta cresceu 53% no Estado, segundo o Simineral. Parauapebas recebeu 87% do total e Canaã dos Carajás, 4,8% - quando o projeto S11D da Vale entrar em operação esse porcentual subirá.

Canaã dos Carajás
Sergio Castro/Estadão

Cidade de Canaã dos Carajás, onde a Vale constrói a usina do Projeto Ferro Carajás

          

"Mas a população tem de cobrar dos governantes a aplicação adequada dos valores arrecadados", afirma Gomes Júnior. O governador do Pará, Simão Jatene, é um dos defensores de mudanças no sistema de tributação e divisão dos recursos do ICMS. Segundo ele, hoje no Estado municípios de 200 mil habitantes têm a mesma cota-parte de ICMS que a capital Belém, que tem 1,5 milhão de moradores. "Aí você cria uma ilha de prosperidade num mar de tormentas, com um entorno paupérrimo", diz ele, questionando a gestão dos recursos por parte de alguns municípios.

Várias cidades que recebem grandes projetos continuam com uma infraestrutura que deixa a desejar, apesar da arrecadação maior. Saneamento básico é a principal deficiência. A justificativa dos governantes locais é que os recursos são consumidos pelo explosão populacional das cidades, que recebem uma quantidade enorme de migrantes.

Do lado ambiental, apesar de as jazidas estarem na Amazônia, a pressão das ONGs tem sido bem menor que na construção de hidrelétricas. Em recente entrevista ao Estado, o superintendente de Política Públicas do WWF-Brasil, Jean-François Timmers, disse que os impactos da mineração são pontuais e mais restritos comparados à construção de uma usina. Por outro lado, ele ressalta que o setor mineral precisa de elevada oferta de energia para produzir. Ou seja, ela acaba demandando novos projetos de eletricidade.

Em Canaã dos Carajás, o maior projeto da Vale

Qualquer morador de Canaã dos Carajás, no Sudoeste do Pará, sabe bem o que significa S11D, sigla que está espalhada pela cidade em adesivos de carros e placas de sinalização nas estradas. Trata-se do bilionário projeto Ferro Carajás S11D (potencial e localização da reserva), localizado da Serra Sul de Carajás. É o maior empreendimento da história da Vale e o maior da indústria de mineração. Serão investidos em todo o complexo US$ 19,67 bilhões. No pico da obra, a expectativa é criar 30 mil empregos nos Estados do Pará e Maranhão.

O projeto consiste na construção da mina, usina de processamento e sistema de logística. Quase 60% do volume de investimento será aplicado na expansão da ferrovia e do sistema portuário no Terminal de Ponta da Madeira, em São Luiz (MA). Na usina, que fica cerca de 50 km de Canaã dos Carajás, o minério explorado será transportado até a usina por meio de um sistema de correias com 9 km de extensão, o que vai reduzir o número de caminhões na operação.

A previsão é que o projeto entre em operação em 2016, produzindo 90 milhões de toneladas de minério de ferro por ano - volume pouco menor que a produção atual da mina de Carajás, atingida após duas décadas de operação. Segundo dados da Vale, quando estiver pronto, o S11D criará 3.600 postos permanentes de trabalho na região. A esperança da população de Canaã dos Carajás é que os jovens da cidade consigam uma chance na empresa. Trabalhar na Vale virou status para a população local. Todo mundo quer ser "verdinho", uma referência à camisa verde dos funcionários da Vale. Com esse uniforme, os funcionários levam vantagem, tanto na paquera com as moças da cidade como nos negócios.

Sergio Castro/Estadão

Boa parte dos funcionários da Vale e do pessoal mais graduado das construtoras mora em hotéis alugados pelas empresas. O principal gasto deles é com a comida. E não faltam opções na cidade. Todos os dias, quando o sol se põe, moradores montam seus restaurantes ambulantes no meio da praça construída no canteiro central da Avenida Weyne Cavalcante - a principal da cidade. Ali, tem comida para todos os gostos, de cachorro-quente, churrasquinho a um jantar completo. Maria Aparecida Silva, de 48 anos, fechou seu restaurante num ponto fixo da avenida para servir suas refeições na praça.

Ela transformou a churrasqueira num fogão onde coloca grandes panelas com buchada, chambaril (um ensopado de carne), assado e galinha caipira. No fim de semana, tem sarapatel. Os preços variam de R$ 10 a R$ 15. "Aqui vem todo tipo de gente comer minha comida, advogados, médicos e engenheiros. Está sempre cheio." A vantagem de Maria Aparecida é que agora ela não paga nenhum aluguel.

Rebelião. Os operários da obra ficam nos alojamentos, distantes da cidade. E, como em outras grandes obras, de vez em quando se rebelam. No último feriado, um grupo queimou parte do alojamento, quebrou máquinas e fez um engenheiro de refém.

Cidade vive crescimento explosivo após mineradora

Até 2000, Canaã dos Carajás era um lugarejo desconhecido; chegada da Vale em 2004 mudou a história, e em 2011 PIB já havia crescido 10.679%

De um lado da Rodovia PA-160, que dá acesso à pequena Canaã dos Carajás, no sudoeste do Pará, um estande de vendas dá sinais de que o progresso chegou na cidade. Lotes de bairros planejados, com 300 metros quadrados, são vendidos por R$ 89 mil, em 180 parcelas. Dos 200 terrenos postos à venda há apenas uma semana, só restavam oito disponíveis. Na outra margem da estrada, no entanto, o outdoor alertava para outro reflexo do crescimento: "Abuso sexual é crime. Denuncie". Trata-se de uma campanha para reduzir os altos índices de estupro e de pedofilia no município.

Batizada com nome de origem bíblica (70% da população local é evangélica), que significa Terra Prometida, Canaã dos Carajás era um lugarejo desconhecido no mapa do Brasil até o início dos anos 2000. Sua história, no entanto, ganhou nova narrativa com a chegada da Vale e a instalação da Mina de Cobre de Sossego, em 2004. O empreendimento foi o grande responsável pelo elevado crescimento econômico da cidade. Até 2000, o Produto Interno Bruto (PIB) do município não passava de R$ 28 milhões. Em 2011, já havia crescido 10.679% e alcançado R$ 2,9 bilhões. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no mesmo período o PIB do Pará avançou 363% e o do Brasil, 251%.

O crescimento colocou a cidade em terceiro lugar no ranking estadual do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM). Entre 2000 e 2011, o município saiu do patamar de baixo desenvolvimento para um nível de desenvolvimento moderado. Hoje, aos 19 anos, Canaã dos Carajás abriga o maior empreendimento da indústria mundial de minério de ferro (o S11D, de US$ 19,67 bilhões, da Vale) e sonha em absorver parte de toda riqueza mineral de seu território para o bem-estar da população.

O sonho, no entanto, já extrapolou os limites do município. Em pouco tempo, a fama de província mineral ganhou outros Estados e atraiu milhares de migrantes de várias partes do Brasil. Até o ano passado, a estimativa do IBGE era de que, entre 2000 e 2013, 20 mil pessoas haviam se mudado para a "Terra Prometida" em busca de riqueza. Mas o prefeito de Canaã dos Carajás, Jeová Gonçalves de Andrade (PMDB), diz que esse número está defasado. "Na prática, deve haver umas 50 mil pessoas na cidade", diz ele, reclamando que a infraestrutura do município não comporta tamanho inchaço populacional.

Apesar da riqueza em seu solo, crescimento do PIB e arrecadação maior, Canaã dos Carajás mantém várias características de outras localidades do Pará: apenas 20% da cidade têm água tratada, esgoto e rua pavimentada - isso porque a Vale investiu cerca de R$ 100 milhões na infraestrutura local. A prefeitura promete elevar para 55% o total de ruas asfaltadas até dezembro.

Na educação, o cenário não é diferente. Para dar conta de toda demanda, foi preciso criar turnos intermediários no meio do dia, o que não é o ideal, diz o prefeito. "Nossa meta é acabar com esses turnos e construir mais três escolas para atender todas as crianças."

Segundo ele, apesar de a receita ter aumentado, a demanda explodiu com a chegada de novos moradores. O avanço da receita própria do município, especialmente de ISS pago pelos prestadores de serviços da Vale, cresceu 293% entre 2005 e 2013, para R$ 72 milhões. A receita total alcançou R$ 189 milhões, incluindo os royalties da mineração, que deverão aumentar com a operação do S11D, em 2016.

Sergio Castro/Estadão

Povo pobre. Mas muitos moradores não estão contentes com o retorno do empreendimento. "É uma cidade rica com um povo pobre", afirma Anderson Mendes, presidente da Associação Comercial, Industrial e Agropastoril de Canaã dos Carajás (Aciacca). Segundo ele, parte do comércio não vai bem. Com o aumento da população, o número de estabelecimentos comerciais também cresceu. Em três anos, por exemplo, a quantidade de farmácias subiu de 15 para 50 e a de lojas de material de construção, de 4 para 60. O grande problema, diz ele, é que o dinheiro não está circulando na cidade. Como os funcionários das construtoras que estão levantando o projeto são de fora do município e ficam em alojamentos, o dinheiro é enviado para suas cidades de origem.

Outra reclamação é que o sistema bancário não funciona bem. Às 6 horas já tem gente na fila aguardando a abertura do banco. Em dias de pagamento, os moradores chegam a esperar quatro horas para ser atendido. E, muitas vezes, o dinheiro não é suficiente para todos, diz Mendes. "Os moradores acabam indo para Parauapebas usar os bancos de lá. O problema é que aí gastam tudo no shopping."

Para a dona do bar e restaurante Premier, Uelma Lima, o alto custo de vida da cidade é o grande desafio para os empresários. Depois de morar na Europa por um tempo, ela foi incentivada pelo tio a abrir um estabelecimento em Canaã dos Carajás. Uelma está na cidade há dois anos e já pensa se conseguirá manter o restaurante aberto por mais tempo. "Só de aluguel pago R$ 6 mil. É difícil conseguir manter o negócio." Segundo ela, várias lojas abertas na Avenida Weyne Cavalcante já fecharam as portas por falta de demanda.

Os empresários do ramo imobiliário e da construção civil vivem situação contrária. Na mesma avenida do restaurante de Uelma, Edison de Morais não tem do que reclamar da loja de materiais de construção. Natural de Goiás, ele está há dois anos na cidade. "A concorrência é alta e a margem de lucro pequena. Mas tenho vendido bastante." No caso de Roberto Andrade, do grupo Moreira Empreendimentos Imobiliários, a margem de lucro é bem alta. A empresa já vendeu 5 mil lotes e prepara outros 1,2 mil para comercialização a partir de 15 de julho e 1 mil para 2015.

Ele conta que, no início, lotes acima de 360 m² eram vendidos por apenas R$ 3 mil. "Hoje não sai por menos de R$ 60 mil." E, mesmo assim, alguns residenciais de até 450 lotes são vendidos em apenas uma hora, com direito a briga entre os compradores. "A fila de espera tem mais 2 mil clientes", diz Andrade, um mineiro de Patos de Minas. "Apesar da distribuição de renda estar muito aquém, há um espaço enorme para crescer. Afinal, temos a maior jazida de ferro do planeta."

OBRA DA S11D FAZ 90 FAMÍLIAS SAÍREM DE VILA

O início da construção do S11D, da Vale, isolou os moradores da Vila Mozartinópolis, mais conhecida como Racha Placa. Boa parte da população da vila sobrevivia do trabalho nas fazendas compradas pela mineradora para o empreendimento. Além disso, plantavam milho, mandioca e arroz. "Não dependíamos de nada. Hoje temos de comprar tudo, até o milho para dar às galinhas", diz Antônio Maurício Gustavo, de 57 anos, um dos fundadores da Vila. A família de oito pessoas mora na pequena casa de madeira, com dois quartos, sala e cozinha. 

Sergio Castro/Estadão
 

No total, 90 famílias deixarão o Racha Placa para morar em outros locais. Segundo a Vale, foram oferecidas três opções aos moradores: "A livre negociação dos imóveis; a troca por residências na cidade; e o atendimento rural, por meio da criação de assentamento em parceria com o Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra), cabendo a cada um cinco alqueires de terra e a construção de uma casa". Do total de famílias, 48 escolheram essa última opção.

Mas os moradores estão ansiosos pela mudança, uma vez que a vila está praticamente acabada. Algumas famílias que optaram pelas outras alternativas já saíram do bairro, deixando para trás um rastro de ruínas. A Vale diz que o cronograma de obras das 50 unidades do assentamento está em dia e que as casas serão entregues em dezembro.

Segundo a mineradora, a realocação não era uma condição para a implantação do S11D. Foram os moradores da vila que manifestaram interesse em mudar, disse a empresa. A história entre a população local é diferente. Eles dizem que foi a Vale que, em 2008, começou a entrevistar as famílias para indenizar.

 

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