Ministro candidato

Crise fiscal continua muito grave e é o calcanhar de aquiles do ministro

O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 05h00

Não é de hoje que os aliados do presidente Michel Temer cobram do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que venha a público e diga que não é candidato nas próximas eleições de 2018.

O ministro não só dá de ombro à cobrança como segue – sem receio – com o seu projeto particular, ao intensificar nas últimas semanas uma agenda de encontros paralelos com a comunidade evangélica e políticos que veem nele um potencial candidato no ano que vem.

Diante do cenário que se avizinha, com a economia se recuperando e a população começando a sentir mais fortemente os efeitos da queda forte da inflação e dos juros, Meirelles teria o que apresentar aos eleitores.

A desculpa para a movimentação política do ministro, que tem aberto espaço na sua agenda exaustiva para essas reuniões políticas, é a busca de apoio às propostas de reformas que foram encaminhadas ao Congresso.

Ele desconversa sobre uma eventual candidatura, mas não titubeia ao palpitar que um candidato com uma mensagem reformista será o vitorioso nas eleições. É uma declaração de quase apresentação das suas qualidades como candidato.

Meirelles, na verdade, nunca escondeu suas pretensões políticas no passado, e todos os sinais apontam que o mesmo vale para o momento atual. Está cada vez mais claro que ele não quer descartar a possibilidade de uma candidatura. Aliás, o conselho que ouviu do ex-presidente Lula quando estava no comando do Banco Central no governo do petista foi justamente de que na política nunca se deve fechar as portas.

Lula, é bom lembrar, ensaiou um apoio político a uma candidatura Meirelles, que acabou não ocorrendo. Mas que deu muito trabalho na seara econômica. Entre o fim de 2009 até abril de 2010 – período em teve de decidir se iria se desincompatibilizar da presidência do BC para se candidatar –, a agonia foi grande para a condução da política de juros.

Meirelles foi acusado de ter atrasado a subida da taxa de juros até decidir se seria candidato. O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC na época sinalizou que subiria a Selic, mas a alta de 8,75% para 9,50% só veio depois. Foi efetivada em abril, depois que Meirelles anunciou que ficaria no BC e não iria se candidatar nem a vice de Dilma Rousseff (curiosamente, ele perdeu a disputa com o próprio Temer), nem ao governo de Goiás e muito menos a uma vaga para o Senado.

Todas essas possibilidades estavam no radar, o que só aumentou a confusão. Os críticos disseram que Meirelles esperou para subir a Selic quando, pelos efeitos defasados da política monetária, teria impacto somente depois das eleições. O ano de 2010 terminou com a taxa Selic em 10,75%. E, em janeiro de 2011, primeiro mês do governo Dilma Rousseff, com Meirelles já fora do BC, a taxa saltou para 11,25% numa tentativa do seu sucessor no BC, Alexandre Tombini, de dar um “choque de credibilidade” depois dessa fase conturbada.

Se Meirelles foi acusado de ter operado a política econômica de olho na política no governo Lula, o risco é o mesmo agora. O bombardeio que sofre hoje dos aliados – sobretudo do PMDB e do dividido PSDB – é em parte fruto dessa movimentação política. Isso ficou evidente na discussão da revisão da meta fiscal.

A atividade econômica dá sinais de recuperação, os investidores estão eufóricos com a venda da Eletrobrás e outras privatizações, mas, no front doméstico, a crise fiscal continua gravíssima. É o calcanhar de aquiles do ministro.

É por aí que os ataques à política econômica se intensificaram nas últimas semanas. E todo mundo – incluindo sua equipe – está de olho se ele será menos duro nas decisões de controle de gastos e, principalmente, de perda de receitas mirando uma composição política para 2018. Ele será mais condescendente?

A versão política de Meirelles já o colocou – e à economia brasileira – em risco uma vez. Em um cargo mais relevante que em 2009/2010, essa preocupação é ainda maior. Eventos não antecipados, como uma piora abrupta do exterior, podem materializar esses riscos.

A realidade pode acabar mostrando que o cargo de ministro da Fazenda talvez seja incompatível com projetos eleitorais neste momento em que o cenário político é de muita incerteza e complexidade. 

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