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Celso Ming

Mutirão anticrise

Por que o governo não trata a crise econômica com o mesmo senso de gravidade que dá à crise do zika?

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Celso Ming

15 Fevereiro 2016 | 21h00

A presidente Dilma entendeu que é preciso um mutirão de todo seu governo para enfrentar o vírus zika. Se essa iniciativa é eficaz ou não é assunto para outra conversa. O que importa aqui é que o governo entendeu que o problema é sério e que é preciso enfrentá-lo com todos os recursos disponíveis.

Mas a pergunta que tem de ser feita é por que a presidente Dilma não faz a mesma coisa com os graves problemas da economia, especialmente o da retração que pode chegar perto de 10% em apenas dois anos. Por que não engaja as forças do seu governo para consertar a economia e as finanças públicas?

O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, está no governo há dois meses com a missão de destravar a economia, mas, a rigor, não conseguiu avançar mais do que havia avançado seu predecessor. Ou seja, não avançou.

Dá para dizer que a pergunta é ainda anterior à feita acima. A presidente Dilma está convencida de que a encalacrada da economia seja de fato problema sério que tem de ser atacado com determinação? Ou continua achando o que achava em 2014, que os comentaristas, esses eternos alarmistas, só enxergam o lado ruim, não conseguem enxergar tanta melhora na economia, a miséria sendo controlada, o emprego crescendo e o povo com geladeira em casa?

Durante um bom tempo, a presidente Dilma pensava realmente assim. Se crise havia, para ela era puramente externa, versão mais recente da teoria da marolinha do presidente Lula. Mas ainda no último trimestre de 2014, se não antes, sobraram indícios de que Dilma caiu na real. Entendeu que a economia mergulhava na recessão, que a inflação disparava e que o desemprego voltaria a aumentar. Ela chegou a reconhecer em encontro com jornalistas no Palácio do Planalto, em agosto de 2015, que seu governo demorou demais para perceber a gravidade da crise e que “nesse processo levou muitos sustos”. Esse reconhecimento sugere que a presidente também entendeu que optara pela política econômica errada. Não fosse assim, não teria escolhido para a condução da política econômica nem Joaquim Levy nem Nelson Barbosa.

Mas o que, afinal, explica a paralisia? A razão mais importante é a falta de convicção sobre o que fazer. Mais de uma vez no seu primeiro mandato, a presidente Dilma condenou a política de ajuste. Até agora, não se mostrou convencida de que é preciso ajustar as despesas públicas ao tamanho da arrecadação. Ou, dizendo de outra forma, não está convencida de que o bolão de despesas públicas é muito maior do que aguenta a economia encolhida pelo fim do ciclo de alta das commodities. Há enormes pressões a partir de dentro e de fora do seu governo para que volte a acionar o crédito subsidiado para estimular o consumo, como vem insistindo o ex-presidente Lula - contra a política monetária restritiva adotada pelo Banco Central. A presidente Dilma parece disposta a acatá-las. E pouco ou quase nada vem fazendo para destravar o investimento, especialmente na infraestrutura. Sua única resposta é mais imposto.

O diabo é que não há indícios de que essa vacilação esteja para ser superada. A presidente Dilma vai aceitando com a apatia de sempre a perda de aprovação do seu governo e se mostra incapaz de liderar a virada do jogo.

CONFIRA

Continua a deterioração das projeções do mercado a respeito tanto da inflação quanto da evolução do PIB em 2016. É o que mostra o gráfico.

O gado gir e a Índia

O leitor Jonio Tito pede para corrigir informação veiculada aqui na edição de sábado. Ele avisa que a introdução do gado indiano gir (e outras linhas de zebu, como o nelore e o guzerá) no Brasil aconteceu no fim do século 19 e início do século 20 - e não depois de 1947, como está na matéria. Assim seja. Apenas fica aqui a observação de que a informação errada é a que consta na matéria do Times of India.

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