Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Na busca pela casa própria, consumidor terá clima de ‘saldão’ e crédito restrito

Preço dos imóveis já apresenta queda em algumas cidades, mas bancos agora exigem entrada maior e juros mais altos para liberar financiamento

Hugo Passarelli, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2016 | 03h00

O mercado imobiliário fincou o pé num ciclo de baixa. O cenário de queda nas vendas, nos lançamentos e na concessão de crédito abriu espaço para a negociação na compra da casa própria, apesar das restrições impostas pelos bancos nos financiamentos. Para 2016, especialistas ainda recomendam a procura por barganhas, mas é preciso pesar as escolhas diante da incerteza da economia e da política.

“A incerteza é elevadíssima e impõe desafios adicionais sobre a escolha de se endividar por 20 ou 30 anos”, diz Luiz Calado, economista e autor do livro Imóveis - seu guia para fazer da compra e venda um grande negócio.

Na cidade de São Paulo, o principal mercado imobiliário do País, o setor sofreu um forte baque. As estatísticas finais sobre 2015, que ainda serão divulgadas, devem mostrar queda de 20% nas vendas de imóveis novos e recuo de quase 40% nos lançamentos, segundo o Secovi-SP.

Em algumas localidades, essa paralisia nos negócios já se reflete nos preços. Em Niterói (-3,0%), Brasília (-1,5%), Rio de Janeiro (-1,4%) e Curitiba (-0,2%) ficou mais barato comprar um imóvel em 2015, segundo o Índice FipeZap, que coleta preços de imóveis anunciados na internet.

Já na média das 20 cidades pesquisadas pelo indicador, o metro quadrado subiu 1,32% no ano passado. Para 2016, porém, a projeção é de queda – a primeira desde a criação do indicador, em 2008. A previsão mais atualizada aponta para um recuo de até 6% no valor dos imóveis. “Estamos voltando para níveis de 2011 ou 2010”, destaca Eduardo Zylberstajn, pesquisador e coordenador da pesquisa.

Outro levantamento feito pela Fipe e pelo Zap mostra que os descontos médios passaram de 6,8%, no início de 2015, para 8,1% no terceiro trimestre. Na mesma comparação, cada vez menos transações são realizadas sem nenhum tipo de decréscimo no preço de oferta: o porcentual era de quase 30% no início do ano e chegou 23,1%.

 

Usados. Para Lúcio Delfino, presidente da Associação Brasileira dos Mutuários da Habitação (ABMH), outra opção é escolher uma unidade usada. “A restrição e o encarecimento do crédito imobiliário têm influenciado muito a liquidez desses imóveis e facilitado a vida do comprador”, diz.

O presidente do Secovi-SP, o sindicato da habitação, Cláudio Bernardes, acredita que essa janela de oportunidade dura até, pelo menos, 2017. “Após o fim da crise, o mercado estará com baixo estoque e com a produção paralisada. Logo, pode haver um aumento de preço, assim como ocorreu nos Estados Unidos na retomada da crise imobiliária”, afirma.

O preço dos aluguéis também está em baixa e, num cenário de juro alto, pode ser uma boa aposta optar pela locação e aplicar na renda fixa. No futuro, os ganhos da aplicação podem ser revertidos para o valor de entrada do imóvel.

Apesar das barganhas, conseguir financiamento bancário não será das tarefas mais simples. De acordo com dados da Abecip, entidade que reúne os bancos que captam recursos da poupança para aquisição e construção de imóveis, a liberação de recursos somou R$ 70,8 bilhões em 2015 até novembro e deve cair para a faixa de R$ 60 bilhões neste ano.

Gilberto Duarte de Abreu Filho, recém-empossado presidente da Abecip, diz que a forte retirada de recursos da poupança deixou claro que o setor não pode apostar só na caderneta para financiar o crédito.

Para ele, o financiamento habitacional deve passar de um cenário baseado em taxas reguladas e crédito direcionado para um leque mais amplo de captação. Entre as opções, ele cita o Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) e a Letra Imobiliária Garantida (LIG) – essa última já está regulamentada, mas não estreou no mercado.

Consórcio. Quem ganhou espaço em 2015 foi o consórcio de imóveis. As vendas de novas cotas para compra da casa própria cresceram 45,6%, enquanto o crédito da modalidade somou quase R$ 6 bilhões (alta de 8%).

“Com as altas taxas de juros e orçamento mais restrito, o consumidor passou a olhar para o consórcio como uma maneira de planejamento”, diz Paulo Rossi, presidente da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcio (Abac).

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