José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Na moda, o consumismo passa por grandes transformações

Mercado de vestuário segue movimento de compartilhamento, com ferramentas bem ao estilo ‘Tinder’ e ‘Netflix’

Ian Chicharo Gastim, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2016 | 05h00

Já imaginou trocar, alugar, doar, usar e reusar quantas vezes for possível uma roupa? A ideia de que uma peça que não é boa para um pode ser boa para outra pessoa está abrindo novos caminhos no mercado de moda, um dos pilares da economia criativa no País.

Com o surgimento de ferramentas para troca de roupas e a popularização de oficinas de corte e costura, a associação de moda diretamente ao consumismo está sendo colocada em xeque atualmente. 

Na opinião de representantes desse setor, a necessidade de comprar roupas novas, as da última estação ou para representar um estilo próprio, tem sido substituída por uma preocupação maior com o bem-estar e com a sustentabilidade.

Esse movimento está ligado à tendência de compartilhamento. De acordo com a pesquisa global da empresa de marketing Havas, 52% dos entrevistados disseram que poderiam viver felizes sem a maioria dos seus pertences.

Para a assessora Mari Pellicciari, voltada para o mercado criativo. o movimento atual da moda tende a sair da lógica industrial, para, em vez de aumentar a produção, ter mais qualidade. “É possível se representar de outras formas. Nós estamos voltando ao conceito do fazer”, ela afirma.

A visão é compartilhada pela estilista e diretora Flávia Aranha, que defende que o processo de fazer a sua própria roupa é capaz de transformar a pessoa. 

“Você não fica dependente da grande indústria. Ter uma roupa sob medida é libertador, temos muitos corpos para seguir padrões P, M e G”, afirma.

‘Comprismo’. Se hoje compramos uma coisa que não é usada e ela acaba ficando esquecida em casa, o que acontece é que, de fato, não chegamos a consumi-la, nós só compramos algo. É dessa forma que Mari Pellicciari explica a diferença entre comprar e consumir.

“O problema real não é o consumismo, é o nosso ‘comprismo’, que esgota possibilidades de uso de uma coisa”, afirma.

Mari Pellicciari foi uma das idealizadoras de um aplicativo de troca de roupas que vai na contramão desse “comprismo”, o Roupa Livre. A ideia é simples: se você se interessa pela roupa de uma pessoa e ela também se interessa pela sua, o programa promove uma aproximação, o que permite um consumo mais sustentável.

Além do Roupa Livre, uma iniciativa que também está em linha com o compartilhamento é a Roupateca, uma espécie de “Netflix” de roupas, que funciona em um andar da House of Bubbles. A partir de uma assinatura mensal, que varia por pacote de R$ 100, R$ 200 ou R$ 300 mensais, a pessoa pode pegar roupas por um período máximo de 10 dias. A única exigência é devolver a peça lavada. 

Três perguntas para: 

Mari Pellicciari, especialista em assessoria para empreendedores criativos

1.Quais os principais desafios e lacunas para a economia criativa no País?

O principal desafio é a quebra de paradigma. É sair do raciocínio industrial e migrar para um pensar que privilegia questões como florescimento pessoal, distribuição de poder, acesso em vez de posse, bem comum e resolução de problemas de forma criativa. O terreno é fértil pois temos muitas questões para serem resolvidas e a atividade de criar novas possibilidades é essencial.

2.Como unir criatividade, inovação e cooperação em um negócio?

Esses conceitos têm que estar no modelo de organizar e de fazer as coisas. Os novos negócios devem ter em sua essência cooperação, colaboração e outros princípios que nos colocam interagindo em nível de igualdade, fora da lógica da hierarquia. Esta é a verdadeira inovação. É dai que vem a energia criativa, pois todos têm a chance de criar, de ser um agente ativo no processo.

3.O que você diria para quem tem dúvidas se deve ou não empreender?

Aconselho a não criar estruturas rígidas que impossibilitem você de experimentar, de fazer as coisas de outro jeito, mudar de ideia ou se manter criativo. Temos a ilusão de que precisamos de mais dinheiro, tempo ou qualquer outra desculpa para não fazermos o que queremos, mas não é verdade. O que você já tem é mais do que o suficiente para começar. Vai lá e faz.

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