Gabriela Bilo/Estadao
Gabriela Bilo/Estadao

'Não dá para dizer uma coisa e fazer outra no governo'

Segundo Roberto Giannetti da Fonseca, PSDB não pode ter medo de falar a ‘verdade’ e precisa admitir que cometeu erros no passado

Entrevista com

Roberto Giannetti da Fonseca, consultor de empresas e conselheiro econômico de Geraldo Alckmin

Renata Agostini, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2018 | 04h00

Amigo de longa data de Geraldo Alckmin, Roberto Giannetti da Fonseca, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior no governo FHC, prepara-se para compor a equipe de campanha do governador, que deseja se lançar à presidência. O economista, que é consultor de empresas, trabalhará ao lado do ex-banqueiro Persio Arida e do diretor da escola de economia da FGV, Yoshiaki Nakano. Segundo Giannetti, o perfil díspar dos integrantes do grupo é proposital. "Geraldo pensou: vou convidar pessoas que confio, que têm pensamentos divergentes, liberais ou keynesianos, vou ouvir e decidir em cada caso", disse ao Estado. Giannetti afirmou que “ninguém faz a cabeça do governador” e que expressaria nessa entrevista suas ideias e não as do tucano, mas deu algumas indicações sobre a postura que ele adotará na campanha. Segundo ele, Alckmin não seguirá dogmas econômicos, mas terá posições firmes, como ser favorável à privatização de estatais.

Poucos pré-candidatos contam com entusiasmo do eleitorado. O que Alckmin tem a seu favor?

O PSDB está numa época de muda. Essa geração que começou com Franco Montoro está no seu outono, inverno. Seja pela idade, seja pela exaustão de sua carreira política. Geraldo é o mais jovem dos velhos e o mais velho dos jovens. A população está muito ansiosa pelo novo, tanto que falam do outsider. Mas essa renovação tem de vir com experiência, com preparação. Não adianta fazer uma coisa improvisada, oportunista. Geraldo pode fazer uma renovação do PSDB para que ele assuma nova atitude política no Brasil. PSDB tem de acabar com a imagem de em cima do muro.

Uma imagem justificada em fatos recentes...

Tem razão. Eu mesmo fui integrante do governo Fernando Henrique Cardoso e quantas vezes nós hesitamos em determinadas coisas. Acabou a época de hesitação. Não importa se a verdade vai me tirar votos. Não posso dizer uma coisa na campanha e fazer outra depois no governo. Acho que deveríamos pensar como proposta que candidatos eleitos no Executivo tenham de assinar contrato de gestão, com compromisso de seguir o mandato até o fim. O estelionato eleitoral de 2014 foi tão excessivo que temos de aprender que não dá para simplesmente acreditar em palavra de campanha.

O mesmo questionamento poderia ser feito sobre a campanha para reeleição de FHC?

Foi um discurso ilusório (sobre câmbio). Talvez ele acreditasse. Quer dizer, ninguém podia prever como seria a crise cambial. Eu já achava que aquilo era falso, no sentido que era insustentável. Persio saiu do Banco Central por causa disso. O presidente quis manter a banda cambial e deu no que deu. Houve erros também do PSDB. Temos de ter autocrítica também. Agora em política cambial temos uma visão muito clara do que deve ser feito. Já discuti isso muito com Nakano e Persio.

Qual é essa visão?

Estamos formando consenso. Tem de ser câmbio flutuante, mas temos de expurgar efeitos de sobrevalorização que vêm da falta de controle do mercado financeiro. Não vejo nenhum interesse da economia brasileira em abrigar fluxo de capital especulativo cuja única função é ganhar arbitragem de juro no Brasil e valorizar o real. Você perde dos dois lados: eles vêm tirar um naco de renda daqui para levar para fora e sobrevalorizam o real. Há duas maneiras de fazer: colocando tributação, com IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), ou mesmo colocando limites para as instituições financeiras em posição vendida de dólar e comprada em real. Não pode ter mais de tantos por cento do seu ativo líquido ou do seu patrimônio. Ou no mercado futuro você põe IOF sobre posição vendida. Porque o fluxo forte que tem no mercado financeiro hoje é vender dólar e comprar real para arbitrar taxa de juro. Isso tem sido o vírus na economia brasileira.

Não será lido como política de intervenção no câmbio?

Intervenção o Banco Central está fazendo toda hora com swap cambial, com posições de mercado à vista, etc. Algum tipo de intervenção o Banco Central sempre haverá de fazer e tem que fazer para eliminar a volatilidade. O que não pode é deixar os fluxos de capitais interferirem na formação da taxa de câmbio de forma permanente e disfuncional. Porque os preços relativos afetam o desempenho da economia. A alocação de recursos depende dos preços relativos. Se a indústria não tem preço bom que remunera o capital, não vou investir na indústria. O pessoal está preferindo consumir ou investir no mercado financeiro em vez de colocar dinheiro na economia real. E como fazemos com os desempregados? O tema da campanha do Geraldo vai ser emprego, emprego, emprego.

Os programas sociais têm de ser mantidos em sua opinião?

Eles têm de ser repensados. São absolutamente necessários. Acho que ninguém mais discute isso. Mas eles são tão frágeis do ponto de vista de controle, que o que tem de vazamento hoje, de sobreposição, fraude, má utilização. É uma coisa inacreditável. É um desperdício de dezenas de milhões de reais. Eu diria que tem gente no Jardim Europa, aqui na nossa frente, que deve ter seguro-desemprego e Bolsa Família.

Considerando a composição do grupo de conselheiros econômicos de Alckmin, como ele irá se posicionar? Não é estranho ter Nakano e Persio Arida no mesmo time?

Muitos pensaram assim ao ouvir os nomes. Se pensássemos igual, bastaria ter um conselheiro. Geraldo, que é muito perspicaz, pensou: vou convidar pessoas que confio, que têm pensamentos divergentes - não em tudo, mas alguns pontos são claramente divergentes -, liberais ou keynesianos, vou ouvir e decidir em cada caso a posição mais adequada. Não há entre nós quatro - eu, Persio, Nakano e José Roberto Mendonça de Barros - nenhum que terá predominância. Ele ouvirá todos e terá discernimento para buscar a melhor alternativa. Ninguém faz a cabeça do Geraldo. Sobre os mais variados assuntos, inclusive economia, ele sempre escuta opiniões divergentes, anota tudo, depois vai refletir e, com seu próprio discernimento, toma a decisão final.

Então o governador não vai adotar uma linha específica.

Essa ideia de esquerda, direita, liberal ou... Isso é coisa do século XX. No século XXI, as pessoas têm de ser pragmáticas e ver o que funciona. Quais são as boas experiências de políticas públicas que têm dado resultado e trazido solução? E fazer um blend, um mix.

Mas Mendonça de Barros está dentro mesmo? Ele tem dito que não.

Ele tem conversado com Geraldo, mas não houve convite formal. E nem é a hora do Geraldo fazer isso, porque ele não é candidato. Individualmente cada um está trabalhando, mas não existe equipe formal de campanha. Tenho conversado mais com Persio, porque temos relação pessoal permanente. Somos colegas de faculdade, frequentamos a casa um do outro, já viajamos juntos. Mas tenho visto entrevistas do José Roberto, ele me manda documentos que tem feito. É algo incipiente. Geraldo está conversando com cada um, buscando contribuições e dando ideia do que gostaria.

Ir na linha de defender o que funciona, sem se identificar com nenhum pensamento econômico, não dará ideia de estar em cima do muro?

Não, porque teremos posição muito firme. Se perguntar se é a favor da privatização? Somos sim. Ele está privatizando a Cesp (Companhia Energética de São Paulo), como não é a favor da privatização? Em 2006, não estavam claras certas posições do partido. De lá para cá, vimos um ataque às estatais brasileiras pelos políticos, pelos corporativistas, que destruíram a Petrobras. O que vamos fazer para protegê-las? Privatizá-las, porque aí elas serão realmente do público. Que os milhares de brasileiros que têm poupança invistam na Petrobrás, porque vão ganhar dinheiro. E um capital pulverizado com golden share do governo que impeça que ela seja vítima de qualquer tentativa de tomada de controle hostil ou mesmo desnacionalizada. Não é vender ao capital estrangeiro, como diz o PT. Isso nem passa pela minha cabeça.

Pré-candidatos que hoje se posicionam no campo de centro e de direita têm se colocado como liberais. Como atrair esse eleitor para Alckmin?

Mostrando que nossa política tem mais consistência e efetividade. Essa visão que o mercado tudo resolve é uma visão ingênua hoje em dia. E 2008 já nos deu uma lição de que, quando você tem desregulamentação excessiva e não há fiscalização, a coisa pode desandar. Acho que nossa proposta tem mais equilíbrio, mais confiabilidade. O debate econômico será sério. Respeito todos eles: Armínio Fraga, Paulo Guedes, o pessoal da Casa das Garças, Edmar Bacha. Grandes nomes, colaboraram com o governo FHC e tudo. De novo, você põe dois economistas juntos e tem três opiniões: a favor, contra e muito antes pelo contrário. Se dentro da campanha do Geraldo já vai haver divergências, que dirá para fora. E teremos humildade de reconhecer se houver uma ideia melhor. Vamos misturar um pouco de Keynes e Hayek (Friedrich Hayek, economista da escola liberal). Esse debate nunca vai se resolver e nós temos que apostar nos dois.

Capital estrangeiro, ele é sempre bem-vindo em sua opinião?

Temos de ser um pouquinho mais seletivos. Ele não pode vir de forma incondicional e sem nenhum compromisso ou reciprocidade. Por exemplo, em algumas áreas você tem de limitar a concentração. Recursos naturais, agronegócios, energia: não dá para deixar a porta aberta e seja o que Deus quiser. Tem de ter um pouco de compromisso por parte dos investimentos estrangeiros. Indústria de transformação que vem só explorar o mercado interno e não tem nenhum compromisso de exportação? Colocar o Brasil nas cadeia globais implica em aqui ser plataforma de produção para o mundo. Essa é uma nova atitude em relação ao capital estrangeiro.

 

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