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'Não teve conta de padeiro na refinaria'

O Estado de S.Paulo

29 Junho 2014 | 02h 05

Presidente da estatal refuta afirmação feita por ex-diretor da Petrobrás para justificar a alta dos custos de Abreu e Lima

A queda das ações da Petrobrás no mercado financeiro não é a principal preocupação da presidente da Petrobrás, Graça Foster. Ela diz que prefere "não olhar para esse lado". Já de olho nos desafios das próximas décadas, a executiva diz que a estatal é vidraça política. Por isso, não se cansa de ir ao Congresso participar de CPIs que investigam denúncias de corrupção envolvendo a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e a compra da unidade de Pasadena, nos Estados Unidos. "É um dever se explicar", diz.

Graça Foster refuta a afirmação do ex-diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto da Costa, de que teria sido feita uma "conta de padeiro" para divulgar o orçamento para a construção da refinaria Abreu e Lima, o que explicaria a alta posterior dos preços. Graça garante que daqui para a frente, para construir refinarias, só com "rigor".

A decisão do governo, anunciada na semana passada, de contratar a Petrobrás, sem licitação, para explorar áreas do pré-sal tem motivação eleitoral?

Sou presidente da Petrobrás, quero aumentar a produção. Tenho certeza de que a pancadaria em cima da Petrobrás será enorme se quem estiver aqui não pensar no pós-2020, no pós-2030. Não consigo imaginar que o governo poderia querer o mal da Petrobrás. O acionista majoritário da companhia tem interesse na produção e a Petrobrás tem interesse em produzir. Estamos com tudo na mão, vai esperar o quê?

Nesse horizonte, como fica a curva de aumento de produção?

A curva de produção sobe em 2020, quando atinge 4,2 milhões de barris por dia, mas para sustentar essa curva preciso colocar mais 1,5 bilhão de barris por ano. Esse volume excedente é excepcional. Dá um oxigênio para a Petrobrás.

A Petrobrás é a grande vidraça para atingir politicamente o governo?

Quando se discute a Petrobrás, está se discutindo uma parte, ainda que pequena, do governo. A gente tem de viver se explicando. Vamos ao Congresso participar de CPIs. É um dever se explicar. Tenho completa consciência da minha responsabilidade.

Por que a mudança no comitê de auditoria do conselho de administração?

A justificativa do presidente (do conselho de administração da estatal, Guido Mantega) foi de um rodízio. Eu não tenho vivência do conselho de administração para dizer (se antes havia rodízio). O ministro queria fazer um rodízio em todos os conselhos. Ele (Mauro Cunha, conselheiro minoritário) não foi deposto, foi sugerido para ele estar em outros conselhos e ele preferiu não atuar.

O comitê tem acesso às auditorias. O que foi descoberto?

Abrimos algumas comissões de apuração interna. A gente não faz investigação. A Petrobrás não é polícia, tem limites. A gente ouve as pessoas, vê os contratos, sabe quem ligou, quem viajou, quem subiu no prédio. A gente faz relatórios e tem obrigação de entregar aos órgãos de controle. Nós terminados dois processos importantes da Lava Jato e cancelamos o contrato da Ecoglobal (suspeita de envolvimento no escândalo).

A senhora disse que não deixaria "pedra sobre pedra" no caso Pasadena...

Pasadena está em curso ainda, é complicado. Pasadena começou em 2004, antes até, quando já tinha a indicação de se fazer aquisição no exterior. Para recompor essa história toda, quantos diretores que estavam fora, saíram da empresa, do mercado, e que pedimos ajuda. Hoje (sexta) autorizei mais alguns dias.

Por que essa decisão?

Queremos conversar com mais uma pessoa. Ótimo que ela se dispõe a conversar. A gente faz relatório, entrega aos órgãos públicos e eles dão continuidade.

Existem outras duas refinarias pela frente. O que fazer para evitar outra Abreu e Lima?

Problema de Abreu e Lima que eu conheço é custo alto fora das métricas internacionais. As outras refinarias estamos há dois anos e meio em um processo de otimização e busca das métricas internacionais. O processo foi visto e revisto. Foi para os Estados Unidos para ser refeito. Agora nós temos toda documentação pronta para licitação. Vamos fazer licitação de um grande pacote seguindo cada passagem de fase. Queremos rigor.

Mas dá para se blindar?

Não é se blindar, é cumprir as métricas. Construir refinarias no Brasil é difícil. Tem de cuidar de toda a infraestrutura, construir estrada, porto, um mundo para essa refinaria operar. Não é um projeto simples. É assim que é, e ainda assim é um investimento que se justifica. Temos de ter rigor e em busca desse rigor somos cobrados, estamos demorando. Não faltou rigor, talvez tenha sido inexperiência.

Tem risco de ter outra conta de padeiro?

Nem aquela teve conta de padeiro. Existe um projeto que estava em fase inicial, depois de 35 anos sem fazer refinaria. Foi feito um projeto muito embrionário, que levou um ano. Não é uma conta de padeiro, não aceito isso. A explicação é assim: eu errei. Não estou dizendo que é o caso da refinaria. Pra mim, tudo se resolve com uma frase muito simples: eu errei, eu não sei, eu esqueci. São coisas do ser humano, né?