Neoliberalismo

Dificuldade na América Latina é fazer vigorar princípios básicos de Economia

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2017 | 05h00

Há um novo texto criticando o neoliberalismo na praça, só que desta vez não é mais um panfleto com palavras de ordem de diretório estudantil, como é costumeiro nesses casos. Trata-se, na verdade, de um ensaio escrito pelo professor Dani Rodrik, de Harvard, economista nascido na Turquia e muito respeitado pelo establishment econômico e financeiro global.

O texto é intitulado Resgatando a Economia do Neoliberalismo. Resumindo muito, Rodrik diz que os neoliberais defendem um modelo único de aplicação de princípios válidos como eficiência, incentivos corretos, direitos de propriedade, controle de inflação e política fiscal prudente.

Esse modelo único tem inspiração em governos do passado como os de Ronald Reagan nos Estados Unidos e Margaret Thatcher no Reino Unido. Outra característica do neoliberalismo seria a grande ênfase em desregulação, liberalização, privatização e austeridade.

Rodrik escreve que aqueles princípios válidos têm, na verdade, múltiplos e variados modelos de aplicação. Previsivelmente, ele dá como exemplo a China, nas últimas décadas um dos mais estrondosos casos de sucesso em crescimento econômico e redução da pobreza da história humana.

O economista explica que a China modificou, adaptou ao seu contexto sociocultural e, em vários casos, flexibilizou aqueles princípios. Assim, em vez de copiar o sistema ocidental de direitos de propriedade, os chineses usaram esquemas diferentes para dar segurança aos investidores, incluindo arranjos envolvendo a criação de empresas municipais e provinciais.

Zonas especiais de exportação e de atração de capital externo foram implantadas, evitando que se retirasse a proteção às estatais e aos seus empregados. Criaram-se incentivos para os camponeses investirem na terra em que trabalham, sem que houvesse privatização explícita.

Indo um pouco além, Rodrik lembra que outros países bem-sucedidos, como Coreia e Taiwan, subsidiaram pesadamente seus exportadores. Ele nota ainda que todos esses países abriram suas economias gradativamente, e não de uma só vez, como seria a recomendação neoliberal.

É difícil não concordar com cada um dos argumentos feitos por Rodrik, quando analisados individualmente. No entanto, quando apreciado em seu conjunto, o ensaio deixa algo a desejar – especialmente no contexto da América Latina, talvez a região do mundo em que se encontra o caso mais lamentável de países que se atolaram no processo de desenvolvimento econômico.

É sintomático que a palavra Venezuela não apareça nem uma só vez no texto do economista, quando se sabe que o desastroso modelo inaugurado por Hugo Chávez foi uma poderosa influência “antineoliberal” na América Latina (Rodrik faz só uma rápida menção a “economias levadas à ruína” por líderes populistas latino-americanos).

O Chile de Pinochet é apresentado como exemplo de país que desastrosamente abriu a economia de uma vez só (no início da ditadura), mas também é citado como exemplo de “milagre econômico”. O que Rodrik não explica é como se encaixam a sua crítica ao neoliberalismo e o fato de que o único país latino-americano bem-sucedido mencionado no seu ensaio seja o Chile, maior exemplo na região de adesão ao receituário neoliberal.

A verdade é que o grande entrave ao desenvolvimento da América Latina não é uma adesão fanática à cartilha ultraliberal dos tempos de Reagan e Thatcher. A maior dificuldade é fazer vigorar para valer, seja de que forma for, aqueles princípios que o próprio economista reputa essenciais, como eficiência, incentivos adequados, direitos de propriedade e boa gestão monetária e fiscal (para não falar na precária governança pública e seu efeito desastroso na educação, saúde, segurança, etc.)

Dessa forma, pelo menos sob a ótica latino-americana, Rodrik parece investir contra moinhos de ventos em sua crítica ao neoliberalismo.

*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

 

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