No meio do caminho

Selic deve cair mais, mas na vida real juros resistem nas alturas

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 05h00

Inflação baixa, juro básico baixo. Sem dúvida, uma combinação benigna, que ainda deve durar um bom tempo. Segundo a maioria das apostas, os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúnem nesta semana, devem promover mais um corte na taxa básica de juro, a Selic, de 6,75% para 6,5%. Se for confirmada, essa queda será a 12ª seguida desde outubro de 2016 e pode ser a última desse ciclo – já há quem acredite numa nova baixa, com base na avaliação de que a retomada teria perdido parte do gás neste primeiro trimestre. Salvo algum tremor de origem política nos mercados, depois dessa ou dessas quedas ainda vem pela frente um bom período de estabilidade. 

Com a Selic ladeira abaixo, por que motivos, então, a queda dos juros desperta tantas dúvidas dos cidadãos comuns? É até natural uma certa desconfiança em relação a indicadores econômicos e ao discurso oficial. Mas, nesse caso, trata-se simplesmente de reconhecer que ficou no meio do caminho a tarefa de trazer para níveis civilizados os juros da vida real. E essa defasagem dificilmente será eliminada no futuro próximo. 

Há uma percepção diferente da queda dos juros para quem vai aplicar algum dinheiro extra e para quem contrata um empréstimo, financia a compra de um bem ou se socorre do cheque especial. Acostumados a taxas mais generosas, os pequenos investidores se sentem incomodados agora com os magros rendimentos das suas aplicações financeiras. Foi-se o tempo em que era possível combinar pouco risco com bons rendimentos – o que era considerado uma “jabuticaba” do mercado financeiro no Brasil. Hoje, mesmo investidores com perfil considerado conservador já estão migrando para aplicações de maior risco, na tentativa de obter retorno pouco mais significativo. Uma mudança e tanto nos usos e costumes do mercado, perfeitamente compatível com um quadro de juros mais baixos. 

Na mão contrária, porém, o declive dos juros é bem menos perceptível. Continuam escandalosamente altas as taxas pagas por pessoas físicas e mesmo pequenas e médias empresas, embora mais baixas do que em passado recente. O último levantamento do Banco Central, referente a janeiro, retrata bem essas variações. A taxa média de juros nas operações de crédito estava em 26,3% ao ano, com uma redução de 6,6 pontos em 12 meses, mas com uma alta de 0,7 ponto no mês. Ao consumidor, a média era de 32,3%, quase 10 pontos abaixo de um ano atrás, mas 0,4 ponto acima de dezembro. 

Se essas taxas agregadas são inegavelmente elevadas, frente à Selic, imagine então as cobradas em linhas específicas como crédito para pessoas físicas, excluindo o consignado, cheque especial e rotativo do cartão de crédito, de respectivamente 122,6% ao ano, 324,7% e 327,9%. Números que dispensam comparações com outros períodos. A equipe econômica busca corrigir distorções mais gritantes, como é o caso das medidas adotadas para transformar o rotativo do cartão de crédito em outra modalidade, com juros mais amenos, depois de um prazo determinado. Por enquanto, os resultados são limitados. Fala-se também em alguma ação no cheque especial, mas ainda não há nada de concreto. Além disso, também não produziram o efeito desejado ou não foram adiante os sucessivos ataques ao spread, a exemplo do cadastro positivo, que atenderia aos reclamos de maior segurança por parte das instituições financeiras e, em contrapartida, premiaria os bons pagadores – o spread continua sendo um dos maiores do mundo.

O nome desse jogo viciado, para muitos analistas, é concentração bancária. Quatro grandes instituições detêm mais de 70% dos ativos do sistema. E o poder de fogo desses “bancões” aumenta ainda mais quando se considera, por exemplo, o volume de empréstimos concedidos – R$ 4 de cada R$ 5. A chegada de alguns bancos estrangeiros foi saudada como um sinal de mais concorrência e benefícios aos clientes. Ilusão. Eles acabaram se acomodando às “redes de proteção” e nada mudou. Com o avanço da concentração, a situação só piorou. 

A proximidade do fim do ciclo de redução dos juros causa até uma certa frustração. As taxas efetivas, pagas por cidadãos comuns e empresas, resistem nas alturas. Haja empenho para estimular a concorrência e forçar os bancos a tirá-las de lá.

* CIDA DAMASCO É JORNALISTA

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