No pós-Lula

Economia perde foco na campanha, mas retomada e ajuste desafiam candidatos

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 05h00

Ainda sob efeito da tensão que cercou a prisão de Lula, durante toda a sexta-feira e até a noite de sábado, a semana começa com incertezas. Velhas e novas incertezas sobre como o País chegará às eleições de outubro e como será a rearrumação do quadro político. Há inúmeras perguntas ainda sem respostas. Quando entrará em cena o substituto de Lula na chapa do PT, provavelmente Fernando Haddad? Quais as chances reais da formação de uma frente de esquerdas, depois dos acenos de Lula a Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila? Em qual terreno pisará Ciro Gomes, que se nega a ser “puxadinho do PT”? Com que roupa virá o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa? Como ficará Bolsonaro, sem poder encarnar o anti-Lula? Qual o gás de Marina e de Alckmin? Quem vai carregar a candidatura governista? 

Até algum tempo atrás, parecia que a economia seria o foco das atenções dessa campanha com recorde de candidatos. Tanto para um lado como para o outro. As esquerdas batiam pesado nas reformas constitucionais, vistas como retirada dos direitos já adquiridos pelos trabalhadores, enquanto o centro e a direita dirigiam o foco para a retomada. Pois bem. A reforma trabalhista passou sem grandes resistências, a da Previdência foi arquivada e a retomada mostra fôlego limitado. Com isso, a economia perdeu pontos nos dois discursos. E cedeu lugar à segurança pública, com todas as contradições e frustrações observadas desde a intervenção no Rio. Difícil saber, a essas alturas, se a economia retomará a prioridade na campanha, mais à frente – e qual será o impacto dentro e fora dos círculos governistas. 

Depois de um vai não vai, Henrique Meirelles acertou na sexta-feira sua saída do Ministério da Fazenda, reafirmou o interesse por encabeçar a chapa do MDB e descartou a hipótese de ser vice de Temer, ao contrário do que indicavam até os jingles do evento de sua filiação ao partido. Mais do que óbvio que os planos de um esbarram nos do outro, os dois com anêmicos índices de intenção de votos, mas a questão principal não é essa. Segundo o roteiro na cabeça dos governistas, lá pelo meio de 2018 a atividade estaria andando a um ritmo tal que haveria condições de emplacar o candidato capaz de comprovar a paternidade da política econômica. Falta, porém, um “pequeno detalhe” para confirmar aquela expectativa inicial: ela própria, a economia. 

Antes de qualquer coisa, a atividade econômica não está reagindo com a velocidade desejada: janeiro teve indicadores ruins, fevereiro mostrou uma ligeira melhora, expressa, por exemplo, no crescimento da produção industrial – de apenas 0,2% sobre janeiro – e março ainda não tem um perfil fechado. A política monetária é o principal instrumento agora para acelerar a economia, e mesmo com rodadas adicionais de redução da taxa básica de juro e a liberação de depósitos compulsórios dos bancos não se mostra com potência suficiente para cumprir esse objetivo.

Além disso, até nas áreas onde a melhora é indiscutível, não há reconhecimento pela população. Nesse sentido, são exemplares as opiniões manifestadas pelos entrevistados na mais recente pesquisa CNI-Ibope, que mostrou a aprovação à forma de governar de Temer empacada em 9%. A grande maioria dos entrevistados (80%) desaprova sua atuação no combate à inflação, apesar da queda estrondosa do IPCA. A conversa de que era só blindar a equipe econômica e deixar a economia andar – descolada da política – ficou pelo caminho. Além de garantir essa proteção, num governo aparentemente mais disposto a se reeleger do que a fazer valer sua agenda original, é preciso dar respostas a quem espera por uma recuperação de fato. Por coincidência, os eleitores.

Quanto às esquerdas, podem até “esquecer” da economia nesses primeiros momentos de disputa do espólio de Lula, em que o Judiciário e a cobrança de punições “aos outros” certamente estarão no centro das suas críticas, Mas, ao lado das promessas de avanços sociais, elas terão de enfrentar temas incômodos, no calor da campanha, se o objetivo for escapar de estelionato eleitoral. A crise do Estado brasileiro é para valer e vai exigir medidas duras para ser superada. Algumas daquelas que, no palanque, são justamente os alvos dos ataques aos adversários. 

*CIDA DAMASCO É JORNALISTA

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