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Economia

The New York Times

Nos EUA, melhora da economia exclui mulheres com mais de 50 anos

Apesar da retomada econômica, milhões de americanas ainda tentam voltar ao mercado de trabalho

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Patricia Cohen,
The New York Times

12 Janeiro 2016 | 14h57

Os sinais mais recentes de uma economia em recuperação foram suficientes para persuadir o Fed (o Banco Central americano) a elevar as taxas de juros pela primeira vez em quase uma década, mas a melhora no mercado de trabalho não foi suficiente para Chettie McAfee conseguir um emprego.

Dispensada no início da recessão de uma empresa de testes diagnósticos em Seattle, onde trabalhou por mais de três décadas, Chettie, de 58 anos, está desempregada desde 2007. "Tenho procurado sem parar, mas nas entrevistas me perguntam por que estou há tanto tempo parada", disse ela, que precisou apelar para a poupança e a ajuda da família para sobreviver e evitar que a casa fosse tomada pelo banco.

A taxa de desemprego de 5% pode estar próxima do que os economistas consideram pleno emprego, mas esse número digno de manchetes não expõe os desafios enfrentados por milhões de americanos que ainda precisam voltar ao trabalho.

Chettie faz parte de um grupo que vê o período pós-recessão como algo particularmente difícil de enfrentar: o das mulheres com mais de 50 anos.

O fato impressiona porque muitas tendências econômicas e sociais recentes - como o declínio da manufatura e o aumento dos cuidados de saúde, o avanço de mulheres bem formadas em profissões e empregos que já foram na maior parte ocupados por homens - eram vistas como prejudiciais para os homens em idade ativa e vantajosas para as fileiras crescentes de mulheres trabalhadoras.

Mas muitas dessas mulheres, mais velhas agora, ganham menos e não utilizam plenamente suas habilidades. Outras ficaram sem qualquer emprego durante meses ou mesmo anos; algumas até desistiram de procurar.

Um novo estudo sobre o desemprego de longa duração da Reserva Federal de St. Louis descobriu que as perspectivas para as mulheres acima de 50 diminuíram após a Grande Recessão. Em 2006-07, antes da crise, menos de um quarto das desempregadas havia ficado sem trabalho por mais de seis meses; em 2012-13, as mulheres mais velhas desempregadas representavam metade dos desempregados desse grupo.

Os números do emprego definitivamente melhoraram desde então, afirmam os economistas, e mais mulheres de meia-idade conseguiram voltar ao trabalho. Mesmo assim, as consequências da recessão, que terminou há mais de seis anos, continuam a afetar muitas pessoas que ficaram à deriva durante e imediatamente após a tempestade.

"O tempo para encontrar um novo emprego foi muito mais longo do que em recessões anteriores. A pergunta óbvia é: 'Por quê?'", disse Alexander Monge-Naranjo, coautor do estudo de St. Louis.

Não há respostas simples.

Quando se trata de mulheres acima dos 50, uma teoria que faz sentido para Monge-Naranjo é que aquelas que deixaram a força de trabalho para cuidar dos filhos pequenos têm maior dificuldade para voltar.

"Elas não imaginaram que o mercado de trabalho iria se complicar e que demoraria tanto tempo para voltar ao normal", ele disse.

Essa foi a experiência de Lynn Colafrancesco, que chegou a ser vice-presidente de uma empresa de resseguros e, agora com 59 anos e divorciada, começou a procurar um emprego com determinação, há três anos. Assim que comentava que parou de trabalhar para cuidar de dois filhos, podia ver no rosto do entrevistador que ela havia sido sumariamente desconsiderada para o cargo.

"Agora, nem menciono meus filhos. Não gostam de ouvir esse detalhe", disse Lynn. Para se sustentar, ela trabalha como professora substituta dois dias por semana e aluga quartos em sua casa em Fairfield, Connecticut.

Certamente, homens e mulheres mais velhos têm que lidar com a discriminação da idade.

"Já me disseram em entrevistas que querem alguém mais jovem. Nem importa que eu aceite o mesmo salário de um iniciante", disse Karen Lamkin, advogada com 25 anos de experiência que vive perto de Boston e está sem trabalho há três anos.

A diminuição da rede de contatos profissionais e possivelmente menos habilidades de ponta também podem prejudicar os trabalhadores mais velhos na procura por emprego, disse Connie Wanberg, professora da Escola de Administração Carlson, da Universidade de Minnesota. Em um mundo onde a rede de contatos é mantida cada vez mais on-line, eles podem estar menos adaptados às técnicas recentes. Os mais velhos também podem ser mais exigentes, disse Connie - mais relutantes em se afastar da família, por exemplo, ou excluir certos tipos de trabalhos.

A questão é se esses fatores atingem mais decisivamente as mulheres do que os homens, disse ela. A mulher, que tem uma tendência maior de ser sobrecarregada pelo trabalho doméstico, mesmo com a idade, pode precisar de mais flexibilidade em seus horários, por exemplo.

Algumas simplesmente não aceitam.

Com casa e seu carro quitados e alguma renda de investimentos, Susan McNeill Spuhler, 52 anos, engenheira que foi despedida em abril de 2013, disse estar esperando a posição perfeita. Ela já viu amigas em situação financeira mais desesperadora aceitando qualquer trabalho e depois se decepcionando porque o emprego, ou a empresa, estava abaixo da média.

Susan e outras agora com 50, 60 e 70 estão entre as inúmeras mulheres que entraram para a força de trabalho pago em números recordes, mudando a cara da economia dos EUA. Mesmo quando a de taxa de participação dos homens na força de trabalho despencava, a das mulheres - especialmente as de 55 anos ou mais - continuava estável.

Porém, enquanto trabalhadores mais velhos geralmente têm taxas de desemprego mais baixas do que os mais novos, aqueles desempregados, por qualquer motivo, tendem a permanecer assim por mais tempo. E as mulheres com mais de 55 anos que perdem o emprego têm mais dificuldade do que os homens de encontrar outro, de acordo com Sara E. Rix, analista e ex-pesquisadora da AARP, organização de lobby para americanos dessa faixa etária.

As mulheres mais velhas estão frequentemente em pior situação financeira porque seu histórico de trabalho é irregular - muitas vezes porque pararam por um tempo para cuidar dos filhos - ou porque eram, em certa medida, dependentes dos maridos, mas acabam ficando viúvas ou se divorciam. Mesmo as que sempre trabalharam normalmente ganham menos do que os homens, resultando em menor seguridade social, benefícios de pensão e menos poupança.

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