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Novas ameaças ao emprego

Jorge J. Okubaro

Perturbadores no presente, pelos dramas pessoais e familiares que embutem, os números do desemprego no País que vão sendo divulgados tendem a piorar nos próximos meses. Se suas causas não forem adequadamente atacadas, com a retomada do crescimento em tempo razoável e em bases estáveis, o problema, no momento de natureza conjuntural, poderá agravar-se e tornar-se estrutural. O Brasil ficará, então, mais vulnerável ao impacto das profundas mudanças que estão ocorrendo no setor industrial em todo o mundo e se estenderão pelos próximos anos.

Na avaliação do Fórum Econômico Mundial, que se reuniu na semana passada em Davos, na Suíça, está em curso uma revolução industrial baseada em tecnologias de novíssima geração – inteligência artificial, robótica, nanotecnologia e outras –, que elevará ainda mais rapidamente a produtividade mundial, mas terá outros impactos, alguns ainda não convenientemente avaliados. “As mudanças são tão profundas que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de maior promessa ou de potencial perigo”, advertiu o presidente do Fórum, Klaus Schwab.

É por isso que a mensagem transmitida pelo estudo contém, ao mesmo tempo, esperança, temor e advertência: “As últimas ondas de avanços tecnológicos e mudanças demográficas levaram a mais prosperidade, produtividade e criação de empregos. Isso não significa, porém, que essas transições estão livres de riscos ou dificuldades. Antecipar-se e preparar-se para a transição atual é necessário”.

Uma das consequências negativas das mudanças já em curso será sobre o mercado de trabalho. O efeito estimado do que o Fórum chama de quarta revolução industrial é a perda líquida de 5 milhões de empregos nas 15 maiores economias do mundo nos próximos cinco anos. O Brasil está na lista. Se a economia brasileira continuar fragilizada, as consequências das mudanças serão mais perniciosas aqui do que na maioria dos demais países.

É desolador o quadro atual do mercado de trabalho no Brasil. Há pouco, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados relativos ao trimestre móvel agosto-outubro de 2015 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, a mais abrangente avaliação do desemprego no País. Segundo a pesquisa, naquele período havia 9 milhões de brasileiros à procura de emprego. É pouco provável que a situação tenha melhorado de maneira notável.

Na quinta-feira passada, o Ministério do Trabalho e Previdência Social divulgou os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), segundo os quais, em 2015, o País perdeu 1,542 milhão de postos de trabalho com carteira assinada. É o pior resultado desde 1992, quando essas estatísticas passaram a ser divulgadas.

A perda não é apenas quantitativa, embora deva ser ressalvado que o número de vagas fechadas deixa evidente a rapidez da degradação do mercado de trabalho. O problema é também de qualidade do emprego, pois o mercado formal é o que, geralmente, oferece salários mais altos e assegura ao trabalhador direitos e garantias inexistentes no mercado informal.

O desemprego crescente é mais uma consequência da crise por que passa o País em decorrência dos erros políticos e administrativos do governo e da irresponsabilidade com que gere os recursos públicos. É de causar espanto que, diante da deterioração do mercado de trabalho, o ministro da área, Miguel Rossetto, tente convencer os desempregados e o País de que “a crise não foi capaz de destruir as conquistas dos trabalhadores dos últimos anos”.

Se gestores públicos não conseguem enxergar o drama que se desenrola às vistas de todos, é difícil de imaginar que estejam dispostos a procurar meios para mitigá-lo ou eliminá-lo. Essa postura enganosa das autoridades públicas torna ainda mais improvável a reversão de um quadro que, por todos os demais indicadores, parece condenado a piorar no futuro próximo.

A inflação, que já supera os dois dígitos, parece ter deixado de ser o foco da preocupação de quem deveria combatê-la, o Banco Central. É o que sugere a decisão de seu Comitê de Política Monetária de manter inalterada a taxa básica de juro, a Selic – decisão que havia sido imprudentemente antecipada por seu presidente em nota intempestiva. A economia, que deve ter encolhido de 3,5% a 4% em 2015 (os dados oficiais só serão divulgados em março), continua a encolher em 2016 (estima-se que o Produto Interno Bruto diminuirá 3%). É óbvio o efeito destrutivo desses fatores sobre o nível de emprego e a renda média dos brasileiros.

Não causa surpresa, portanto, que a Organização Internacional do Trabalho tenha previsto que, neste ano, o Brasil será responsável por um em cada três novos desempregados que surgirão na economia mundial. Entre as grandes economias do mundo, o Brasil é o que apresentará o maior aumento proporcional do desemprego (na China, o número absoluto de desempregados em 2016 será maior do que no Brasil, mas sua força de trabalho é várias vezes maior do que a brasileira). É óbvio também que, por seu peso na região, o Brasil seja o principal responsável pelo aumento do desemprego na América Latina.

A mudança desse quadro está condicionada à retomada do crescimento. E as condições para o País voltar a crescer são conhecidas, como restabelecimento da credibilidade das políticas econômicas, sobretudo nas áreas fiscal e monetária, confiabilidade e estabilidade das regras para a atividade econômica e ambiente político saudável.

O comportamento errático do governo na área econômica, a preocupação obsessiva da administração Dilma com o impeachment que limita seu campo de visão e de ação, a atitude irrealista que beira a irresponsabilidade de autoridades diante da crise, no entanto, deixam claro que, no que depender do poder público federal, a crise está longe de ser resolvida. Quanto mais ela se arrastar, mais vulnerável estará o trabalhador brasileiro às mudanças que ocorrem no resto do mundo.

*JORNALISTA, É AUTOR DE ‘O SÚDITO (BANZAI, MASSATERU!)’, ED. TERCEIRO NOME

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