Novo choque do bem?

Alta das commodities vem da volta do crescimento sincronizado no mundo

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2017 | 05h00

Em pouco mais de um ano, entre 21 de janeiro de 2016 e 16 de fevereiro de 2017, o dólar caiu de R$ 4,17 para R$ 3,08. Isto significa que o real teve uma valorização de 35% desde o seu ponto recente mais depreciado, no início do ano passado. Aproximadamente no mesmo período, medidas do risco Brasil caíram a menos da metade. E houve forte alta da bolsa e queda dos juros.

O primeiro impulso de quem reflete sobre essa enorme melhora nos indicadores do mercado financeiro pode ser o de pensar no caos político-econômico de um ano atrás, em plena temporada de impeachment, comparado com a casa mais em ordem hoje em dia (mesmo considerando o elevado desemprego, a impopularidade de Temer, a Lava Jato, a crise dos Estados, etc.).

O observador pode concluir que o impeachment foi uma bênção econômica, e que a nova equipe econômica está operando um milagre. É fato que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, apoiados por competentes auxiliares, vêm fazendo um bom trabalho.

Entretanto, a grande virada dos indicadores financeiros não deve ser atribuída apenas a isso. Na verdade, o Brasil pode estar sendo beneficiado por algo que o consultor e ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore batizou de “choque do bem”, quando o fenômeno se manifestou no início do governo Lula: um movimento sustentado pela alta das commodities exportadas pelo País, acompanhado do barateamento relativo das nossas importações.

Um recente relatório da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) mostra que, precisamente no último ano (quando os índices financeiros deram o salto registrado acima), os termos de troca brasileiros quase dobraram, e já estão no nível de meados de 2010. Os termos de troca são a relação entre os preços das exportações e das importações brasileiras. A sua elevação significa que o que compramos do mundo ficou mais barato comparado ao que vendemos para o mundo, ou vice-versa.

A alta do preço das exportações brasileiras reflete basicamente uma elevação das commodities, movimento que vem acontecendo de forma clara e intensa no caso das matérias-primas metálicas, como o minério de ferro. Nas commodities alimentares, a tendência é mais oscilante, mas há uma alta desde o fim do ano passado.

Essa valorização das commodities, por sua vez, é causada pela volta do crescimento sincronizado no mundo: há notícias positivas nos Estados Unidos, Europa, Japão e China. Se houver elevação das taxas de juros americanas, como está previsto, isso não significa necessariamente que os capitais vão sair do Brasil e o real se desvalorizará.

Afinal, os juros americanos subirão por causa do aquecimento da economia, que é parte importante da retomada global que valoriza as commodities e, em consequência, as moedas de países exportadores de matérias-primas, como Brasil, Chile, Austrália, Nova Zelândia, etc. (que já vêm subindo). O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) subiu os juros de 2004 a 2006 e o real se valorizou no período, exatamente porque estávamos em pleno “choque do bem” das commodities.

Evidentemente, é cedo para comemorar. O mundo anda muito estranho, com o imprevisível Donald Trump no comando da maior potência, e é prudente não menosprezar os riscos. Adicionalmente, o atual choque positivo ainda não se compara em magnitude aos do passado recente.

Ainda assim, há alguma possibilidade de que o Brasil esteja se aproximando de um período de vacas gordas em termos de cenário internacional, que se reflete aqui em tendência de valorização do câmbio e juros mais baixos. Resta ver se, caso tudo corra bem, e findo o hiato de governo reformista até 2018, o País vai aproveitar para lançar bases sólidas de crescimento sustentável ou vai reeditar os erros de sempre, como no caso da infeliz nova matriz econômica.

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