DARIO OLIVEIRA/CÓDIGO19-5
DARIO OLIVEIRA/CÓDIGO19-5

Novo Mercado está ultrapassado, afirma especialista em governança corporativa

Turbulência na Bolsa causada pela delação da JBS mostra que segmento da Bolsa onde estão listadas as empresas com maiores níveis de governança precisa de reformulação

Lucas Coelho, especial para o Estado

19 Maio 2017 | 18h13

SÃO PAULO - A turbulência na Bolsa provocada pela delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista, controladores da JBS, mostra que o Novo Mercado, precisa de reformulação urgente. Essa é a conclusão do especialista em governança corporativa, Alexandre Di Miceli. "O Novo Mercado, infelizmente, morreu", afirma.

O Novo Mercado é o segmento que lista empresas que possuem, segundo os critérios da B3, os maiores níveis de governança corporativa entre aquelas de capital aberto. A JBS atualmente faz parte do segmento.

A tentativa de estabelecer um padrão de governança corporativa mostrou-se, segundo ele, completamente falha diante dos inúmeros escândalos de corrupção. "O problema no Brasil é a implementação, e não a falta de regras". Citando a Lei das Estatais como exemplo de medida frustrada, Miceli afirma que as investigações estão revelando o modo de operar das empresas brasileiras.

"Hoje (ontem, 18), a Cemig chegou a cair quase 50% em um momento (a empresa fechou em baixa de 20,43%). Todo mundo sabe que essas empresas sofrem influências políticas, mas elas sempre mantêm um discurso de blindagem. A JBS, por exemplo, é uma empresa de Novo Mercado, do segmento máximo da bolsa em boas práticas de governança", criticou.

Frederico Pacheco de Medeiros, ex-diretor da Cemig, foi preso pela Polícia Federal, acusado de estar envolvido em esquemas de corrupção junto de seu primo, o senador Aécio Neves. Para o especialista, "fica muito claro que a imagem vendida pelas empresas brasileiras está muito aquém da verdade. Estamos vendo um grande balcão com empresas que sofrem influência estatal. O mercado está percebendo que elas estão longe de serem bem governadas."

Alexandre Miceli também não poupou críticas aos modelos de análise das companhias, por serem guiados apenas pelo fluxo de caixa das empresas. "Esses modelos de análise são muito limitados. Tem pouca gente olhando de maneira mais ampla as formas de governança e as perspectivas de longo prazo."

"Essas variações abruptas de valor mostram o quão perdido está o mercado em relação às empresas brasileiras, especialmente as estatais. A Petrobras só chegou ao céu porque os investidores estavam cegos para os inúmeros problemas", disse.

Sobre a JBS, ele acredita que o frigorífico atingiu uma dimensão artificial devido ao dinheiro recebido pelo BNDES. "A administração é rudimentar, feita por irmãos sem qualificação alguma para gerenciar algo desse porte."

Segundo ele, a tendência é a empresa "murchar" até um tamanho mais condizente com sua realidade, isso se ela sobreviver. "Não consigo ver um futuro para a JBS. Não há dinheiro em caixa para lidar com todos os acordos que deverão ser pagos. São várias acusações diferentes, diversos processos; a verdade é que a JBS não tem estrutura para isso".

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.