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Economia

IBGE

O abismo industrial

Os gélidos números do IBGE para a produção manufatureira por si só revelam o que está por trás do quadro dramático de 2015. A grande queda do setor teve a liderança de bens de capital e bens duráveis, que recuaram a taxas próximas ou superiores a 20%.

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Júlio Gomes de Almeida*

02 Fevereiro 2016 | 21h24

Não é por acaso. Como os impasses vividos pelo Brasil são, sobretudo, desdobramentos de uma crise de confiança que brota da economia, mas também de um sistema político-parlamentar que se desintegrou, não haveria como evitar que a aquisição de bens que nos ligam ao futuro sofresse a ruptura revelada pelos números. Estes, na verdade, nada mais são do que uma medida ou um termômetro da desconfiança que tomou conta do País.

Outros setores são também afetados pelos mesmos motivos? Certamente que sim, mas muito longe da indústria, pois os bens por ela produzidos é que mais propriamente relacionam o presente com o futuro. Como o que está por vir é visto por empresários e mercado financeiro como algo impossível de ser avaliado, torna-se também impossível o cálculo do retorno dos investimentos, paralisando as inversões.

Nesse contexto, uma recessão seria inevitável, mas certos eventos de 2015 agravaram e espalharam a crise. O ajuste fiscal pouco saiu do papel, mas provocou queda de 35% do investimento público, atingindo os setores de máquinas e de insumos para construção. O mesmo resultou da desarticulação da construção pesada e da Petrobrás. O reajuste de tarifas públicas se deu de forma quase instantânea, provocando um choque nos orçamentos familiares, deprimindo a demanda e o retorno sobre o capital dos segmentos de bens de consumo. Por fim, o Banco Central aprofundou a alta dos juros, derrubando ainda mais as decisões de investir e as compras a crédito.

Não há solução para a crise no setor que não combine um mínimo retorno da confiança, redução de juros e estabilização do investimento público. Sem isso, a indústria terá outra queda drástica em 2016. Mas, se avançarmos nessas questões, a desvalorização da moeda – o único fator positivo nessa conjuntura – operará mais decisivamente como vetor do relançamento industrial.

*Professor do Instituto de Economia da Unicamp e consultor do Iedi

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