‘O Banco do Brasil tem papel de governo’, diz Bendine

Dirigente afirma que resgatou função pública da instituição, mas avisa que não há mais espaço para cortar juros

David Friedlander e Ricardo Grinbaum, de O Estado de S. Paulo,

18 Agosto 2013 | 02h14

 

SÃO PAULO - O presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, não dá bola para os críticos e afirma sem rodeios: o banco é, sim, um braço do governo na aplicação da política econômica. "Eu resgatei um pouco esse papel do Banco do Brasil enquanto agente de desenvolvimento econômico e social. Quer dizer: ele tem um papel de governo, de fato."

Bendine sabe que muitos enxergam o risco de que o banco seja administrado de acordo com as conveniências do governo. Nos anos 90, o uso político quase quebrou o BB. Ele mesmo assumiu a instituição em 2009, na fase mais aguda da crise financeira global, com a missão de executar duas tarefas da agenda do ex-presidente Lula: ampliar a oferta de crédito para estimular a economia e liderar uma competição mais aguerrida com os bancos privados, para forçá-los a reduzir os juros. Seu antecessor, Antonio Francisco de Lima Neto, não seguiu a cartilha do Planalto e foi ejetado do cargo.

"Sei que o mercado ainda precifica muito a gente negativamente por causa dessa possível interferência, ou intervenção, governamental", diz o presidente do BB. "Muitas vezes, as pessoas não entendem a governança do Banco do Brasil. Hoje, ela está num nível igual ou superior à das grandes empresas brasileiras."

Chefe do maior banco da América Latina, com mais de 100 mil funcionários e 60 milhões de clientes, Bendine começou no BB aos 14 anos, como office-boy num programa chamado Menor Aprendiz. Sob seu comando, o volume de ativos administrado pelo banco passou de R$ 591 bilhões para R$ 1,2 trilhão e o BB abriu novas frentes, como o crédito imobiliário.

Responsável por 21% dos empréstimos e financiamentos concedidos no País, o banco é o líder brasileiro em crédito. Segundo Bendine, o plano é emprestar cada vez mais, novamente na contramão dos bancos privados, que pisaram no freio. O movimento é seguro, diz ele, tanto que a taxa de inadimplência do banco hoje é metade da média do sistema financeiro. "Acho que a gente é mais otimista e sabe ler melhor os cenários. Parte dos bancos privados recuou além do que deveria."

Nesta entrevista, exclusiva ao Estado, Bendine fala do relacionamento com o governo, avalia os concorrentes e conta um pouco sobre o plano de aumentar a participação no Banco Votorantim, do qual o BB já é sócio. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Banco do Brasil ajudou o governo em sua estratégia de reduzir os juros bancários. Mas a alta da inflação mudou o cenário e o BC aumentou a taxa de juros básica da economia. A bandeira de juros baixos, que era uma questão de honra da presidente Dilma, ficou para trás?

A presidente Dilma entendia que os spreads (diferença entre o que banco paga na captação do dinheiro e o que cobra no empréstimo) estavam muito altos e que isso inibia o crescimento do País. Mas não foi uma imposição, foi uma cobrança. Você não baixa juros por decreto. O fator que norteou esse movimento aqui no banco foi a queda da taxa básica de juros. Foi aí que adotamos a estratégia de trabalhar com spreads mais reduzidos, transferimos o ganho para nossos clientes e para a sociedade. O BB foi o indutor, os demais tiveram de vir atrás. Os spreads no mundo são esses que a gente está praticando agora aqui.

Ainda há espaço para baixar as taxas?

Hoje, não. Com o novo reposicionamento da Selic (a taxa básica de juros), dado o efeito inflacionário, não se pode continuar com a transferência de ganhos para os clientes por causa do custo de captação. É ele que determina a fixação da taxa. Agora só vou conseguir novos avanços à medida que nossa eficiência melhorar muito. Tivemos de fazer algumas pequenas correções (aumento dos juros), mas o spread global do banco tem se mantido estável. Hoje está por volta de 4,6%, que é mais ou menos a base mundial. Chegou a ser 7,5%, 8%.

A presidente Dilma já está satisfeita com esse resultado?

Eu não discuto isso com ela. Minha conversa no dia a dia é com o conselho de administração, que no caso é dado pelo Ministério da Fazenda. Diria que a Fazenda está muito satisfeita com esse nosso papel, porque isso deu uma arejada novamente na economia, que era um objetivo correto do governo.

Só que agora o banco aumentou algumas taxas. Isso não deu problema com o governo?

Não. Isso é muito tranquilo aqui, é uma decisão técnica. Não tem interferência. Até porque se o governo dissesse "trabalha a custo zero", eu não conseguiria fazer isso. Sei que o mercado ainda precifica muito a gente negativamente por causa dessa possível interferência, ou intervenção, governamental. Muitas vezes, as pessoas não entendem a governança do Banco do Brasil. Nossa governança hoje está num nível igual ou superior à das grandes empresas brasileiras.

O que as pessoas não entendem?

Os analistas, às vezes, têm dificuldade em analisar o BB. Uma hora tendem a achar que é só um banco público, tem horas que acham que é apenas um banco comercial. Nenhum dos dois. Até pela sua história, o banco tem de ter um papel de agente de desenvolvimento da sociedade, senão ele perde um pouco da razão de ser. E, se for só um banco comercial, é melhor que seja privatizado e atue como tal. Nos últimos quatro anos, eu resgatei um pouco esse papel do Banco do Brasil enquanto agente de desenvolvimento econômico e social. Quer dizer: ele tem um papel de governo, de fato. Agora, o que a gente nunca abriu mão foi da nossa profissionalização, da nossa governança, da nossa técnica.

A direção do BB tem autonomia para tocar o banco ou o governo interfere muito, como todo mundo imagina?

Autonomia total. Claro que é total dentro da governança do banco. É lógico que o sócio controlador (o governo) sempre tem dentro do conselho de administração um peso maior e acaba ditando o rumo, como em qualquer companhia. Agora, se o governo disser para dar crédito a uma determinada indústria, a custo zero, é impossível passar.

Mas a gente sabe que os pedidos políticos continuam existindo...

Continua tendo. Bate aqui, a gente diz muito obrigado, vamos avaliar e tchau, amigo.

Foi isso que aconteceu no Itaquerão? (O BB fez exigências para financiar a construção do estádio do Corinthians e a operação foi parar na Caixa Econômica Federal.)

A gente estudou a operação durante um ano, mas o banco entendeu que o modelo ali não atendia aos preceitos e às normas do banco. A gente analisa tudo, até porque queremos crescer. Nosso negócio aqui é dar crédito, é intermediação financeira. Minha carteira de empréstimos, pelo nível de risco, é a melhor do mercado. Faz quatro anos que fazem o prognóstico de que "ah, lá no futuro isso pode dar problema"...

O sr. está falando das avaliações de que o banco teria emprestado demais para agradar ao governo e correria risco de crescimento da inadimplência?

Isso. Nossa inadimplência é metade do sistema financeiro. Nosso índice de inadimplência nesse primeiro semestre é o menor em 11 anos. A média de inadimplência do sistema está em 3,4%. A nossa é 1,87%.

Qual é a explicação?

Há vários fatores. Primeiro, temos um gerenciamento de cobrança muito efetivo. Segundo, temos uma composição muito forte de crédito direcionado (financiamento habitacional, agrícola, repasses do BNDES, etc.) na carteira, que tendem a ter menos inadimplência. O mais importante é a estratégia. Por prudência e conservadorismo, a estratégia do banco está voltada para linhas de menor risco. A rentabilidade é menor, mas por outro lado geram poucas perdas. A gente desestimulou e descontinuou linhas do tipo cheque especial e rotativo de cartão de crédito.

Vocês estão parando de...

Não. A gente tem na prateleira, oferece para o cliente, mas não estimula o uso. Pelo contrário. Quando o cliente fica dois meses usando todo limite de cheque especial ou do cartão no rotativo ou só pagando o mínimo, a central de atendimento automaticamente entra em contato e oferece uma linha mais barata. Hoje, basicamente 75% de nossa carteira de consumo está elencada em quatro linhas: crédito consignado, financiamento de veículos, crédito imobiliário e crédito ao consumidor. São linhas com taxas de perdas baixíssimas. Já a concorrência aposta um pouco mais fortemente em cheque especial, rotativo de cartão, etc, que têm um ganho enorme. Mas a inadimplência em linha de rotativo de cartão passa de 20%. Eu não sei trabalhar com isso.

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