Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

José Fucs, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2017 | 17h00

Com o tsunami político provocado pela delação do empresário Joesley Batista, um clima sinistro propagou-se pelo País. Analistas de mercado, ancorados em experiências do passado, vislumbraram o caos na economia, que dava os primeiros sinais de vitalidade, depois da pasmaceira dos últimos anos. Nas redes sociais, ecoou um sentimento de desesperança em relação ao futuro, reforçado pela absolvição da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), contestada por boa parte dos brasileiros, na semana passada.

Mas, desta vez, ao contrário do que aconteceu em outras crises, os estragos na economia até agora foram relativamente restritos. Um mês depois da delação de Joesley se tornar pública, o que se observa no mundo real, por trás da profusão de notícias negativas, é uma inusitada calmaria. O cenário está longe de ser cor-de-rosa, mas, considerando a magnitude do maremoto, a economia mostrou um poder de resistência surpreendente. “A resiliência da economia brasileira ao choque da nova crise política é admirável”, diz o economista Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central (BC) e diretor do Centro de Economia Mundial, ligado à FGV do Rio.

No mercado financeiro, passado o pânico inicial, as operações voltaram praticamente à normalidade. Apesar de o Copom – o Comitê de Política Monetária do BC – ter informado que poderá reduzir o ritmo do corte nos juros, em razão das incertezas no front político, a taxa básica continuou a cair, chegando a 10,25%, o menor nível desde 2014.

Mesmo as projeções para a economia real quase não sofreram mudanças. De acordo com os dados do BC, a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no ano caiu de 0,5% para 0,4%. Se tal previsão se confirmar, o Brasil ainda fechará 2017 deixando a recessão herdada de Dilma para trás. “Houve, talvez, uma redução na inclinação do voo ascendente da economia, mas não virou descendente, não”, afirma Flavio Rocha, presidente da Riachuelo, uma das maiores redes de varejo do País.

Retrospecto. À primeira vista, pode parecer estranho que a economia tenha um desempenho à margem da política. Mas, como lembrou o colunista do Estado Celso Ming, em artigo publicado na quinta-feira passada, esse descolamento não é algo novo no mundo. A Itália, por exemplo, viveu o mesmo fenômeno. Durante décadas, a economia italiana se manteve firme e forte, apesar das sucessivas crises políticas. Talvez agora, no Brasil, onde a política e a economia sempre tiveram estreita relação, isso possa acontecer também.

Em parte, o descolamento observado até o momento deve-se ao retrospecto positivo do próprio Temer na economia. Independentemente de seu possível envolvimento em escândalos de corrupção, que será julgado no devido tempo pela Justiça, ele abraçou uma agenda reformista e modernizadora, e propôs um conjunto corajoso de medidas para viabilizar o crescimento sustentável do País. “Ninguém aprovou tanta coisa importante em tão pouco tempo quanto o Temer”, afirma o economista Antonio Delfim Netto, ex-deputado federal e ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura.

Em pouco mais de um ano, Temer implementou, em parceria com o Congresso Nacional, o controle dos gastos públicos, propôs as reformas da Previdência e trabalhista e apoiou a mudança do marco regulatório e a redução das exigências de conteúdo nacional no setor de petróleo e gás. Promoveu também uma renegociação das dívidas estratosféricas dos Estados, que, se não é a ideal, representa um ponto de partida para a solução definitiva do problema, e cortou os empréstimos com juros subsidiados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). De quebra, ainda idealizou um programa ambicioso de concessões e privatizações, sem o tabelamento do lucro, como acontecia no governo Dilma.

Mais que tudo, porém, a relativa tranquilidade da economia se deve à credibilidade da atual equipe econômica e à percepção de que, mesmo se Temer deixar o cargo, ela será mantida, assim como a agenda de reformas e de modernização da economia. “Qualquer que seja o desfecho da crise política, a estratégia econômica vai continuar”, diz Langoni. “Ela poderá até sofrer desvios, ajustes de timing, mas sua direção não deverá mudar. A não ser que aconteça um novo tsunami político, uma recaída populista ou uma nova aventura heterodoxa.”

Nas últimas semanas, pipocaram informações, vazadas pelo núcleo político do governo, de que Temer, acossado pela crise, poderá ressuscitar medidas que deram errado no governo Dilma, para tentar alavancar a economia e melhorar a sua popularidade, como a ampliação dos créditos do BNDES com juros subsidiados e a distribuição de benesses com impacto negativo na arrecadação, como a correção na tabela do imposto de renda e nos benefícios do Bolsa Família.

Balões de ensaio. O próprio presidente, porém, teria pedido cautela com o “pacote de bondades” à turma do núcleo político. Temer sabe que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, não apoia essas medidas e tudo de que não precisa agora é arrumar confusão com ele. Meirelles – o grande fiador da estabilidade econômica – acredita que não há mágica para retomar o crescimento e que o melhor caminho é persistir nas reformas da Previdência e trabalhista e tentar avançar com a reforma tributária e as reformas microeconômicas.

“As medidas oportunistas para estimular a economia produziram resultados desastrosos, que levaram à imensa crise da qual estamos tentando sair”, afirma o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, uma escola de negócios de São Paulo, e ex-secretário de Política Econômica do governo Lula. “Às vezes, surgem balões de ensaio, mas depois o balão cai no chão”, diz Tony Volpon, ex-diretor da área internacional do BC e economista-chefe do banco suíço UBS no Brasil. “A economia está num processo ainda frágil de recuperação e não é hora de brincar com a política econômica.”

Com o atraso na votação da reforma da Previdência, ganharam força também os questionamentos sobre a real capacidade de Temer para aprovar as reformas no Congresso, se ele permanecer no cargo. Mas, segundo uma pesquisa realizada pelo projeto Congresso em Números, da FGV do Rio, Temer manteve a média de apoio que vinha tendo na Câmara dos Deputados, de 73,5%, mesmo nas duas semanas seguintes à delação de Joesley.

Apesar do mar de lama que atinge boa parte de Brasília, parece haver certa conscientização de que a agenda de Estado tem de avançar. O País, com 14 milhões de desempregados, não resistirá a mais um ano de paradeira. Até partidos que entregaram os ministérios depois da delação de Joesley, como o PPS, declararam que apoiarão as reformas da Previdência e trabalhista. O senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) disse também que, mesmo se os tucanos saírem do governo, continuarão a apoiar as reformas. Outros partidos, como o DEM e o PMDB, de Temer, o maior partido no Congresso, deverão seguir a mesma trilha. Caso isso se confirme, o descolamento entre a economia e a crise política poderá se prolongar. O próximo presidente, a ser eleito em 2018, poderá, então, dar sequência à agenda de reformas e colher o que se plantar agora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Zeina Latif, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

Não se recupera do desastre de Dilma da noite para o dia. A crise abalou estruturas e reduziu o potencial de crescimento do País.

A queda consistente da inflação é a prova do acerto da atual política econômica. Essa é a senha para a recuperação.

Há sinais de estabilização da atividade, mas não de retomada. A demanda interna caiu no primeiro trimestre, refletindo ainda as condições monetárias restritivas de trimestres atrás.

+Veja o especial 'O Brasil além da crise' completo 

A crise política poderá enfraquecer a retomada, pelo impacto no crédito e na confiança. Não é o caso de um “duplo mergulho”. Poderá haver um recuo do PIB no segundo trimestre, uma vez que elementos presentes no primeiro, como a safra agrícola recorde, não deverão se repetir. Isso não deve ser lido, no entanto, como aprofundamento da crise.

Os sinais de recuperação serão crescentes daqui para a frente. A política monetária bem conduzida funciona para ativar a economia. O balanço das empresas melhora, o crédito flui, a confiança, o consumo e o investimento voltam.

Apesar da confusão política, não é um governo que perdeu o rumo ou que poderá ser substituído por outro que mudaria o time e a política econômica.

Mas a ponte para 2019, que afastaria o risco de aventuras na eleição de 2018, não está garantida. É importante que a recuperação seja forte o suficiente para gerar empregos. A margem para erros é estreita. Se a crise política for longa e o governo reagir mal, desviando-se da rota original, a recuperação poderá ser mais lenta.

Neste caso, a campanha eleitoral seria ruidosa, deixaria os mercados voláteis, agravando o quadro. A depender do resultado do pleito, prejudica-se também o crescimento de longo prazo.

Nem tudo depende do governo. A crise política interessa a poucos, principalmente corporações e grupos de interesse que rejeitam reformas e ameaças ao status quo. Que o bem comum prevaleça.

* ECONOMISTA-CHEFE DA XP INVESTIMENTOS

Mais conteúdo sobre:
PIB Crise Econômica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Lu Aiko Otta, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

BRASÍLIA - A crise política paralisou o andamento da reforma da Previdência, mas há um conjunto de medidas em elaboração pelo governo que não dependem de votações expressivas no Congresso e cujo andamento pode ajudar na recuperação da atividade econômica. É nelas que os esforços estão concentrados agora. Para um assessor, um “efeito concreto” da crise é que, com menos reuniões para tratar da reforma da Previdência, outros estudos ganharam velocidade.

A área técnica corre com a agenda para construir as condições de retomada da atividade, apesar das turbulências. Uma fonte da equipe econômica salientou que a recuperação virá de forma “gradual”. Ela depende, em boa medida, das concessões e privatizações em andamento e de iniciativas para melhorar o ambiente de negócios. Algumas dessas medidas poderão ser anunciadas nos próximos dias pelo Planalto, que procura criar uma agenda positiva.

No campo tributário, o governo prepara uma medida provisória para iniciar a reforma do PIS-Cofins, prometida desde 2012 e sempre adiada por causa de seu potencial de perda de arrecadação. Trata-se do tributo mais complexo do sistema federal e a promessa é simplificar seu cálculo. A Receita iniciou conversas com o setor privado e, a pedido dele, fará uma implementação gradual. Começará pelo PIS.

A pedido da indústria, o governo revisou a Lei do Bem, que estabelece incentivos fiscais para pesquisa e desenvolvimento. As mudanças pretendem melhorar a aplicação da lei, mas não deverá elevar a renúncia fiscal envolvida nesses programas.

De caráter mais urgente, deverá ser anunciada nos próximos dias a prorrogação do Repetro, programa que suspende a cobrança de tributos federais na importação de equipamentos para a indústria de óleo e gás. O governo quer anunciar a medida o quanto antes, pois há leilões de áreas de petróleo em setembro e as empresas precisam de tempo para se preparar.

Finalmente, o governo se prepara para permitir que créditos tributários das empresas possam ser usados para pagar dívidas com a Previdência. Antiga reivindicação do setor privado, essa medida foi anunciada em dezembro e prometida para junho. No entanto, deve sofrer atraso. A mudança será possibilitada pela união dos sistemas de pagamento da Receita e do INSS, que hoje são separados.

O Serpro, estatal de processamento de dados da União, também trabalha na construção do sistema que permitirá a emissão da nota fiscal eletrônica de serviços. Isso já é feito com sucesso nas transações de mercadorias. A expectativa é que o piloto comece a funcionar em outubro.

Além da simplificação tributária, há outras medidas em estudo, como a reforma da lei de recuperação judicial. Depois de constatar que a atual legislação pouco ajuda a manter vivas as empresas em dificuldade, o governo abriu debate com a academia e o Judiciário para aperfeiçoá-la. O resultado está em um relatório em fase final de elaboração que servirá de base para a elaboração de um projeto de lei a ser encaminhado ao Congresso.

Na mesma linha, o governo estuda enviar a regulamentação do distrato, quando uma pessoa compra um imóvel na planta e depois desiste. A proposta, que poderá ter a forma de projeto de lei ou MP, já está pronta em seu aspecto econômico. Falta a concordância do Ministério da Justiça, por envolver questões contratuais e de direito do consumidor. O texto foi acordado com o então ministro Alexandre de Moraes, mas precisou ser renegociado quando Osmar Serraglio assumiu a pasta. Agora, é preciso recomeçar o diálogo com Torquato Jardim.

A área de infraestrutura concentra muitos itens da agenda de trabalho do governo. Estão em elaboração novos marcos regulatórios para os setores de gás e de biocombustíveis. Eles deverão seguir para o Congresso como projetos de lei.

O governo espera, também, aprovar o projeto de lei que estabelece normas para atuação das agências reguladoras. Aprovado pelo Senado no ano passado, o texto está parado na Câmara, mas não há sobre ele grandes controvérsias. Outra proposta cuja tramitação é acompanhada com atenção é a que cria a Taxa de Longo Prazo (TLP), em substituição à Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP).

Para a equipe econômica, as concessões e privatizações têm sido uma frente bem sucedida do governo Temer para atrair recursos e investimentos. Nem mesmo a perda do grau de investimento pelo Brasil afastou investidores estrangeiros. Pelo contrário, eles consideram positivo o fato de haver um calendário crível de leilões.

Além dos leilões dos quatro aeroportos (Fortaleza, Salvador, Florianópolis e Porto Alegre), o governo comemora a venda de linhas de transmissão, com compromissos de investimento de R$ 50 bilhões, e espera sucesso também nas áreas de exploração de petróleo. Os leilões de hidrelétricas programados para este ano propiciarão arrecadação de R$ 10 bilhões em taxas de outorga.

EM ESTUDO

* Reforma do PIS-Cofins

* Revisão da Lei do Bem, que estabelece incentivos fiscais para pesquisa e desenvolvimento

* Prorrogação do Repetro, que suspende a cobrança de tributos federais na importação de equipamento para o setor de óleo e gás

* Permissão para que créditos tributários das empresas possam ser usados para pagar dívidas com a Previdência.

* Construção de sistema que permitirá a emissão da nota fiscal eletrônica de serviços.

* Aperfeiçoamento da lei de recuperação judicial.

* Regulamentação do distrato, quando uma pessoa compra um imóvel na planta e desiste.

* Marcos regulatórios para os setores de gás e de biocombustíveis.

* Normas para atuação das agências reguladoras.

* Criação da Taxa de Longo Prazo (TLP), em substituição à Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP)

Mais conteúdo sobre:
Previdência Social

Encontrou algum erro? Entre em contato

Cleide Silva, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

Em meio a um processo ainda frágil de recuperação, a indústria brasileira teme ver abortados os sinais de crescimento da produção que já apareciam em setores como os de equipamentos de informática, eletrônicos, veículos, têxteis e máquinas agrícolas.

Para tentar manter esse recomeço e avançar mais no próximo ano, é praticamente unânime entre os empresários que as medidas adotadas pelo governo de Michel Temer, em especial as reformas trabalhista e da Previdência, investimentos em infraestrutura e corte de gastos tenham prosseguimento, independentemente de quem venha a ocupar o cargo.

“Não podemos correr o risco de estagnar lá embaixo”, diz José Augusto Fernandes, diretor de Políticas e Estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI). “Apesar de ser difícil um descolamento da crise política, é preciso ter uma equipe econômica que esteja à frente da agenda de reformas.”

Fernandes lembra que o cenário de incertezas tem afastado investimentos em novos projetos (os chamados greenfields). O presidente da Mercedes-Benz do Brasil, Philipp Schiemer, confirma que o Brasil hoje já não está sendo considerado para novos investimentos, “porque não somos competitivos e a matriz prefere outros lugares”. Somente investimentos já aprovados estão mantidos.

Uma forma de reverter esse quadro, na visão de Schiemer, é a continuidade do projeto de modernização que o governo atual vinha adotando, com reformas e projetos de infraestrutura. “Isso criou um consenso entre a indústria e os agentes financeiros de que o Brasil estava mudando o rumo e indo no caminho certo. Hoje, a crise política está colocando em risco esse projeto.”

O presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), João Carlos Marchesan, espera maturidade por parte de deputados e senadores para aprovar as reformas. Ele conta que, antes de 17 de maio (data das delações dos sócios da JBS), ocorreram duas feiras de negócios do setor e houve grande procura por equipamentos.

Para muitas empresas, diz ele, esses negócios representariam até meio ano de pedidos. “Mas, agora, quase a totalidade está em compasso de espera”, diz o executivo. A expectativa da Abimaq, de crescimento de 5% no faturamento do setor neste ano, mudou. “Se parar de cair já vai ser bom”, diz Marchesan. Nos últimos três anos, o setor acumula queda de 50% nos negócios.

Sopro. Antonio Megale, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), espera uma definição rápida sobre o cenário político, “para que haja uma estabilização e a economia aproveite o sopro de recuperação para seguir adiante”.

Em sua opinião, é fundamental que as reformas comecem a ser aprovadas, primeiro pela trabalhista, o que, diz ele, possibilitará mais confiança aos investidores. “A medida trará maior segurança jurídica às empresas que vão trabalhar em um cenário mais previsível”. A reforma da Previdência, acrescenta, “mostrará ao mundo que o País começa a equacionar seu endividamento nessa área”.

O estágio em que o Brasil se encontra ainda é frágil e, dependendo de como for gerenciada a política econômica, será possível acelerar a retomada da economia ou acabar com ela, diz José Ronaldo Júnior, diretor de Macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“O Legislativo e o Executivo precisam ter responsabilidade neste momento, ter consciência de que a situação é grave e que não se pode perder a oportunidade de fazer as reformas”, diz Ronaldo Júnior.

O Ipea vem constatando melhoras nos investimentos, na atividade industrial, nos indicadores de comércio e na massa salarial, o que ajudaria na possível retomada do consumo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Márcia De Chiara, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

Após três anos de quedas e acumulando retração de cerca de 20% nas vendas de 2014 a 2016, o comércio varejista mostrou neste início de ano os primeiros sinais de recuperação. Mas, após denúncias envolvendo Michel Temer, as incertezas em relação à recuperação que vinha se desenhando aumentaram.

É consenso entre especialistas que a variável para validar as projeções de recuperação feitas inicialmente é quanto tempo vai levar para que o imbróglio se resolva. “Tudo depende de quanto tempo vai durar a crise política”, diz o diretor do Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo.

Segundo ele, por conta da queda da inflação e dos juros, da liberação dos recursos das contas inativas do FGTS – além da base fraca de comparação que é o ano de 2016 –, em maio, as perdas do comércio foram praticamente zeradas em relação ao ano passado. A perspectiva é registrar aumento modesto nos próximos meses. Para ele, o movimento do dia a dia do varejo ainda não foi afetado pela crise política. Mas reconhece que a confiança do consumidor, ainda baixa, pode ter sido abalada.

O tamanho do susto apareceu em duas pesquisas da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP) para apurar a confiança dos consumidores. Na primeira, dia 10 de maio, antes da delação, o índice estava bem melhor do que o de duas semanas depois. “Esse resultado é relevante”, diz Fabio Pina, assessor econômico da Fecomércio-SP. Ele destaca que, até agora, a mudança mais significativa ocorreu na intenção de compra de bens duráveis, que caiu depois da delação. Mas avalia ser cedo para medir o impacto da crise no varejo. “Na melhor das hipóteses, vai retardar as decisões dos investidores.”

A crise política também assustou empresários do comércio. Após cinco altas seguidas, o índice que mede a confiança empresarial voltou a cair em maio. O economista Aloisio Campelo, da FGV/Ibre, pondera que pode ter havido exageros e o pessimismo pode recuar nos próximos meses. “A crise tira velocidade da recuperação e prejudica mais os bens duráveis. Mas não acho que vá trazer o País de volta para a recessão, a não ser que haja um quadro de ruptura.”

Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio, observa que, entre as variáveis mais relacionadas ao desempenho do comércio – projeção de PIB, inflação, juros e câmbio –, só o câmbio teve alteração após a delação. “Essa alteração não foi suficiente para abortar nossa expectativa de crescimento de 1% do volume de vendas neste ano”, diz. Ressalta, porém, que a validade da previsão “está ligada à gravidade da crise e à sua duração”.

Mais conteúdo sobre:
Varejo comércio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Malena Oliveira, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2017 | 17h00

MARIA SANTANA, desempregada

“Vim da Paraíba para São Paulo há um ano para acompanhar meu marido, que é porteiro. Ele trabalha em dois empregos para sustentar a casa. Eu ainda não consegui nada. Está bem difícil encontrar trabalho, principalmente com isso tudo que está acontecendo aí. As pessoas falam de crise, de dificuldade, e não contratam. Eu até tinha planos de ter filho, mas do jeito que está não tem como. Vamos ter que esperar as coisas melhorarem.”

 

 

+ Veja o especial completo

MARGARIDA RICIOLI, dona de casa

“Em casa, somos só meu marido e eu. Os nossos dois filhos já são casados e, por isso, as contas já não são tão pesadas. O meu marido tem 63 anos e ainda não pensa em se aposentar. Ele não acha que seja a hora e também, com a situação que está o País, a gente fica inseguro sobre como vai ficar a nossa renda. Espero que no ano que vem as coisas melhorem de verdade e a economia dê condições de uma vida mais confortável para todos nós.”

 

ALEXANDER DOS SANTOS, funcionário público

“Como cidadão, eu sou otimista e acredito na melhora das condições. A crise tem que acabar, mas não acho que essa mudança virá logo, nos próximos meses. Os nossos governantes precisam ter mais consciência de que a população é diretamente afetada pelas decisões que eles tomam. Aparentemente, eles não estão se importando com isso. Todos os dias vemos notícias de esquemas e denúncias. Enquanto isso não mudar, é difícil ver uma saída.”

 

ALESSANDRA MIRRA, autônoma

“Fui demitida em julho de 2015, no ápice da crise. Tive dificuldade de me recolocar e hoje trabalho com revenda de material escolar. A procura não caiu, mas as pessoas estão trocando as marcas mais caras pelas mais baratas. A gente acha que talvez esse comportamento possa mudar com a melhora da economia, mas ainda não dá para ver isso acontecendo. Eu sou otimista, e por isso tenho investido no negócio esperando essa melhora. Que ela venha logo.”

 

EDUARDO CANJANI, empresário

“Na indústria gráfica, onde atuo, nós sentimos de cara qualquer mudança na economia. Os pedidos estavam começando a crescer quando fomos surpreendidos pelas denúncias mais recentes. O volume caiu no dia seguinte e, agora, todo mundo parou de novo, esperando o que vai acontecer. Eu só não contrato mais gente porque não sabemos o que vai acontecer no País. Amanhã pode estourar outra bomba dessas e as coisas piorarem. Difícil se planejar assim.”

 

THIAGO KUIN, empresário

“Tive que mudar o meu negócio a partir da crise, pois todas as empreiteiras da Lava Jato eram clientes. As coisas estão difíceis, mas as pessoas sabem que, com crise ou sem crise, elas não podem parar. As grandes empresas estão segurando investimentos, esperando um momento melhor, mas as pequenas empresas cansaram. Não dá mais para esperar a crise passar, a gente precisa fazer alguma coisa para continuar trabalhando.”

 

Mais conteúdo sobre:
Desemprego

Encontrou algum erro? Entre em contato

Fernando Nakagawa, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

BRASÍLIA - A crise política se transformou em uma grande fonte de dúvida para a política monetária. Há poucas semanas, a redução mais acentuada do juro parecia óbvia diante da economia sem força e da inflação menor. Agora, a incerteza prevalece e o Banco Central já avisou que a aparente hesitação do Congresso com as reformas deve moderar o ritmo dos cortes. Há nuvens carregadas no céu, mas ainda prevalece a aposta de que a taxa seguirá em queda pelos próximos meses.

O Banco Central foi a primeira instituição econômica do governo a reagir assertivamente ao agravamento da situação política. Exatamente 14 dias depois da divulgação da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, o Comitê de Política Monetária (Copom) avisou que a tesoura para cortar o juro passará a ser mais cautelosa.

Com o argumento de que aumentaram as incertezas associadas ao processo de reformas e ajuste da economia, a instituição anunciou que “entende que uma redução moderada do ritmo de flexibilização monetária em relação ao ritmo adotado deve se mostrar adequada em sua próxima reunião”. A explicação foi dada em 31 de maio, logo após o corte de 1 ponto porcentual que levou o juro básico da economia, a taxa Selic, cair para 10,25%.

O recado foi entendido imediatamente no mercado financeiro e investidores passaram a apostar na redução mais contida do juro – provavelmente com corte de 0,75 ponto em julho. Antes do furacão Joesley, a previsão era de 1 ponto ou até mais.

“O cenário político mais conturbado deve postergar a tramitação das reformas, dificultando o reequilíbrio fiscal e consequentemente impactando a confiança dos agentes e os preços dos ativos”, resumiram os economistas do Itaú Unibanco, que fazem parte da corrente majoritária que prevê corte de 0,75 ponto no próximo mês. Entre analistas, esse pé no freio do BC não chegou a ser inesperado, mas houve surpresa com a clareza da mensagem e a rapidez da resposta dos diretores da instituição.

Fundamentos. Tanta incerteza, porém, não foi suficiente para mudar os fundamentos da economia. Por isso, analistas apostam que o juro continuará caindo ainda que em ritmo menos intenso. Mantido o atual cenário político, a inflação cadente – de 3,6% no acumulado dos últimos 12 meses – e a fraqueza da atividade deverão manter aberto o espaço para que a Selic continue em queda. Nesse cenário, grandes casas como o Itaú e o Bradesco preveem que a taxa deve terminar o ano em 8%.

O Itaú estima que, a partir de setembro, a taxa Selic deve ser reduzida em 0,50 ponto a cada reunião. Esse é o mesmo cenário do Bradesco, que acredita que a política econômica não mudará nos próximos meses.

Confirmado, o juro em queda poderá ser um combustível importante para a tão esperada retomada do crescimento. “Terá um impacto favorável na atividade economia, que ganhará força para 2018”, cita o Bradesco, que prevê crescimento da economia de 2% no próximo ano. O Itaú é ainda mais otimista e estima expansão de 2,7%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Eduardo Laguna, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

Do câmbio à bolsa de valores, passando pelo risco país e pelas previsões sobre a retomada da atividade econômica, a mais grave crise enfrentada pelo presidente Michel Temer deixa marcas de dimensões incomparavelmente menores do que as do choque sentido pelo mercado financeiro nos meses que antecederam o afastamento de Dilma Rousseff.

Desde que, há um mês, a delação dos donos do frigorífico JBS colocou sob ameaça o mandato de Temer, o dólar bateu em R$ 3,40, mas já está novamente abaixo de R$ 3,30, o que ainda representa alta de 5% no período, porém distante dos mais de R$ 4 alcançados no auge da crise da ex-presidente.

O Ibovespa, índice que expressa o desempenho das ações mais negociadas na bolsa de valores de São Paulo, mesmo tendo recuado quase 9% na crise de Temer, se mantém 64% acima da pontuação de janeiro do ano passado.

Os números revelam que, embora o mercado financeiro não passe ileso pelas turbulências na política, a crise não anulou a recuperação mostrada pelos ativos desde a troca de governo.

A valorização das commodities ajuda o País a reduzir o déficit nas transações correntes com o exterior. Sem fuga de capital – pelo contrário, pelos dados do BC, um saldo de mais de US$ 2,4 bilhões desembarcou no País desde o início da crise – e amparado por reservas internacionais que se aproximam de US$ 380 bilhões, o BC teve munição para despejar US$ 10 bilhões para evitar a disparada do dólar no mês passado.

Parte da relativa calmaria vista no mercado se deve também à leitura de que, com Temer ou sem Temer, o País não perderá o norte de uma política econômica elogiada por conter o avanço da inflação e por permitir uma perspectiva melhor do que se tinha no governo Dilma sobre a trajetória da dívida pública. “O governo tem uma equipe econômica tecnicamente muito boa, que executa ou anuncia políticas que o mercado quer ver”, comenta o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

Mais conteúdo sobre:
Mercado Financeiro Bovespa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Renée Pereira, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

Depois de cair quase R$ 26 bilhões em três anos, a expectativa era que o volume de investimentos no setor de infraestrutura (exceto petróleo e gás) iniciasse uma recuperação gradual a partir deste ano, com crescimento de 1,8% e retomada em 2018. Mas, com a turbulência política das últimas semanas, as projeções podem não se concretizar. Na avaliação de especialistas, a principal preocupação neste momento é com o atraso no lançamento de licitações, o que melhoraria o nível de investimentos no País.

O Brasil vive hoje um grave problema de falta de projetos prontos para serem levados a leilão. E é nesse ponto que recaem as apreensões sobre os reflexos da crise política. Especialistas temem que os esforços para tirar projetos importantes do papel se diluam com a piora do ambiente político. Nos últimos meses, questões importantes do setor vinham sendo resolvidas, como a estruturação do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), mudança nos editais e a preocupação com a proteção cambial.

O resultado desses esforços foi verificado nos dois leilões de concessão feitos neste ano, de linha de transmissão de energia elétrica e de aeroportos. “Em algumas áreas, se houvesse leilão amanhã haveria interessado”, diz o presidente da consultoria Inter.B, Claudio Frischtak. Ele se refere sobretudo aos empreendimentos de transmissão de energia onde, além de o risco ser pequeno pelo novo modelo de negócio, com renda fixa, os órgãos responsáveis funcionam bem, como a agência reguladora do setor (Aneel).

A aprovação das reformas (trabalhista e da Previdência), unanimidade entre os executivos, pode dar mais segurança e perspectiva de estabilidade em especial aos investidores estrangeiros. “Não podemos ficar à mercê de uma crise política a cada semestre. Temos de fazer o Congresso fazer o trabalho deles”, diz o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins.

Durante viagem ao Japão, ele disse ter sondado as agências de desenvolvimento do país sobre a situação do Brasil: “Eles acham que em dois anos estaremos bombando. Eles têm interesse em investir aqui, especialmente nas áreas de energia, telecomunicações e rodovias”. O sócio da BF Capital, Renato Sucupira, que acabou de voltar do exterior, afirma que a questão da corrupção não é uma preocupação para o estrangeiro, mas eles temem que a crise política interfira na parte econômica. “Por isso, a aprovação das reformas pode dar uma boa perspectiva para os investidores.”

Reação. Nos últimos dias, o governo tem ensaiado alguma reação na área de concessões. Semana passada, anunciou o leilão da Ferrovia Norte-Sul para início de 2018 e a construção do Ferroanel como contrapartida para renovação do contrato da MRS. “Neste momento, a estratégia é pegar projetos com riscos mais controlados, privatizar ativos ou renovar concessões em troca de novos investimentos”, afirma o professor de estratégia do Insper, Sérgio Lazzarini.

Nessa linha, há uma série de investimentos que podem dar novo fôlego ao Produto Interno Bruto (PIB). No ano passado, os recursos aplicados em infraestrutura ficaram em 1,68% do PIB – menos da metade exigida só para manter a infraestrutura existente. Isso significa que a rede atual está se deteriorando com o baixo investimento. “As oportunidades são evidentes, até porque temos tudo por fazer em infraestrutura”, diz Lazzarini.

O QUE PODE SER FEITO

1. É unânime entre os executivos que a aprovação das reformas da Previdência e trabalhista pode dar mais segurança e perspectiva de estabilidade, em especial, para os investidores estrangeiros.  

 

2. Maior temor do investidor estrangeiro não é a questão da corrupção no País. O que eles mais temem é que a crise política interfira na parte econômica. Especialistas estão receosos de que os esforços para tirar projetos de infraestrutura importantes do papel acabem diluídos pela crise política. 

 

3. A estratégia apontada pelos especialistas é pegar projetos com riscos mais controlados. Existem vários investimentos que podem dar fôlego à economia. No ano passado, apenas 1,68% do PIB foi aplicado em infraestrutura. Isso é menos da metade do que é preciso investir para manter a infraestrutura já existente.

Mais conteúdo sobre:
Aneel Ferrovia Norte-Sul Ferroanel

Encontrou algum erro? Entre em contato

Clarice Couto, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

Os bons resultados da safra recorde de grãos no Brasil têm ofuscado os eventos recentes no cenário político-econômico nacional aos olhos das empresas de agronegócio. Elas avaliam que as turbulências pouco ou nada afetarão seus planos de negócio, não apenas por causa da produção prevista de 238,6 milhões de toneladas mas porque o dólar mais forte que o real garante aos produtores maior remuneração e isso se reflete nos investimentos. As companhias também citam a demanda internacional firme e o anúncio do Plano Agrícola e Pecuário 2017/2018, na semana passada, que trouxe previsibilidade do montante e do custo dos recursos que serão oferecidos no período.

“É claro que observamos com cautela o cenário político-econômico, esse ‘vai não vai’ do governo”, diz o vice-presidente da New Holland Agriculture para a América Latina, Rafael Miotto. “Mas a gente observa muito mais outros fatores: níveis de consumo de proteína, de alimentos e do complexo soja para alimentação humana e animal.” Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele acrescenta que a agricultura consegue se descolar do cenário político e econômico nacional por causa da oferta e demanda internacional.

O vice-presidente da empresa de silos para armazenagem de grãos Kepler Weber, Olivier Colas, acrescenta que o cenário para 2017, com inflação mais baixa, sinaliza que o Brasil está saindo do fundo do poço e gerou maior demanda por parte dos clientes. “Só notamos que o pessoal estava postergando as decisões de compra porque aguardava o anúncio do Plano Safra.” Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), em maio, as vendas internas de máquinas agrícolas tiveram alta de 16,4% ante o mesmo período de 2016.

No setor de fertilizantes o quadro também é positivo, segundo o consultor na área de adubos da INTL FCStone, Marcelo Mello. “O horizonte de longo prazo para a agricultura no Brasil é o máximo. Tem um potencial de crescimento enorme, a terra é boa, mais barata que em outros países e fica mais barata à medida que o dólar sobe.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Raul Velloso, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

Mesmo com tanta crise, a saída da recessão parecia óbvia até há pouco. Inflação baixa e queda do risco país permitiam redução cada vez maior dos juros, e, portanto, maior estímulo ao consumo e ao investimento. E a PEC do Teto do Gasto, com os progressos na tramitação da reforma da Previdência, parecia garantir uma situação fiscal razoável, atacando o maior problema econômico. Ou seja, apesar de tudo, íamos bem.

É verdade que o governo erra no ataque à crise financeira estadual e ao “apagão da infraestrutura”, onde os investimentos claudicam. No Fórum Nacional de 18-19/05 isso foi bastante discutido. Mas não se trata de algo que impediria a recuperação de pelo menos parte da atividade econômica perdida, se não fosse o efeito devastador da recente delação da JBS, que atingiu frontalmente a maior autoridade da República.

Haja economia de mercado capaz de resistir a isso. A qualquer momento algo do tipo pode se repetir e impedir que a economia se recupere, eternizando a crise econômica (virão bancos? O mercado financeiro surtaria. E depois?). Que se danem as camadas mais pobres da população, exatamente os mais atingidos nesses processos.

Óbvio que não pode ser assim. A escalada anticorrupção virou quase uma bênção para o País. Mas fico pensando se não chegou a hora de, numa mesa altamente representativa, pactuarmos caminhos que nos levem às próximas eleições sem relaxar no combate à corrupção, mas ao mesmo tempo blindando minimamente a economia, garantindo que ela cresça pelo menos à metade do que cresceu nos anos de boom de 2004-2008.

Claramente, teremos de aumentar o esforço pró-reformas, resolver pendências econômicas e impedir que o espectro de soluções da crise político-institucional se limite a dois extremos: extirpar quase toda a classe política e as empresas de construção pesada, de um lado, e punir poucos, do outro. Nesse particular, precisamos urgentemente de uma solução intermediária que nos leve a bom termo.

* CONSULTOR ECONÔMICO

Mais conteúdo sobre:
Previdência Social Crise Econômica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2017 | 17h00

O economista Fabio Giambiagi é conhecido por sua quase militância, por assim dizer, na defesa da reforma da Previdência. Há praticamente 20 anos, ele considera a reforma elementar para assentar as bases do crescimento sustentável. Nos últimos meses, mergulhou no segundo tema. Em conjunto com Mansueto Almeida, secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, está para lançar o livro Retomada do crescimento – Diagnósticos e propostas, com textos de 32 economistas sobre as mais diversas ferramentas de crescimento, do prático investimento em infraestrutura ao intangível combate à desigualdade. Mas essas propostas são apenas o ponto de partida. “É preciso que sejam encampadas pelo governante de plantão; com respaldo na opinião pública; apoio do Congresso; e implementadas por uma equipe econômica de boa qualidade e coesa”, diz. A seguir trechos da entrevista que concedeu ao Estado.

+Veja o especial 'O Brasil além da crise' completo

O País está em recessão, mas já faz tempo que economistas dizem que cresce pouco. Qual o diagnóstico?

O Brasil perdeu o rumo na altura da segunda metade da década passada. Havia um rumo, traçado desde o começo da década de 90, acentuado com a estabilização de 1994 e nos oito anos do governo FHC, que foi mantido durante 4 ou 5 anos no Governo Lula, mas que foi sendo gradualmente deixado de lado a partir de 2008 e, de certa forma, abandonado nos anos Dilma. A partir de meados de 2016, o País está tentando retomar essa rota, com as dificuldades impostas por um ambiente político conturbado. Temos uma combinação de mazelas: baixa poupança, escassa competição, gasto público deficiente e, até recentemente, uma inflação claramente inibitória.

Hoje a reforma da Previdência é apontada como fundamental para a recuperação, mas que outras medidas são importantes?

O livro que estamos lançando sobre o tema, de certa forma, tenta mostrar isso. Com uma base parlamentar que sustente boas políticas, há condições de termos quatro anos excelentes de 2019 em diante. Vivemos, nos últimos tempos, anos conturbados, com uma agenda legislativa em 2015 marcada pela aprovação de “pautas-bomba” e, desde 2016, uma instabilidade institucional que de certa forma perdura até hoje.

É preciso costura política?

O País precisa ser pacificado. Nas circunstâncias atuais, sem dúvida nenhuma, estabilidade e comprometimento com uma agenda de reformas. Acompanho a economia brasileira desde o começo dos anos 80. Nunca vi, olhando três ou quatro anos à frente, um contraste tão grande de cenários possíveis como os que se pode construir hoje. No passado, era possível traçar cenários, com nuanças, mas sem tanta amplitude como hoje. No momento, olhando para o começo da próxima década, pode-se vislumbrar, dependendo do rumo que o País tomar em 2019, tanto uma história de sucesso, com um período excelente na gestão de governo 2019-2022, como um cenário de horror, com retomada da inflação alta ou até mesmo uma ‘comida’ da dívida interna.

Então, crise política e investigações criminais ameaçam o crescimento?

Certamente há controvérsias sobre o assunto. Pessoalmente, entendo que esse movimento de depuração que está em curso tem potencial para nos tornar um país muito melhor. Gustavo Franco e outros economistas dizem que podemos ir do “capitalismo de compadrio” para um capitalismo efetivo, de competição. Não há como negar que estamos, porém, vivendo as dores de parto desse novo sistema, sendo que não sabemos como esse novo filho nascerá e se ele crescerá sadio. É um momento histórico, mas reconheço que assistir à história ao vivo, com sua carga inerente de dúvidas, carrega a sua dose de angústia.

De onde veio a ideia de publicar um livro sobre retomada do crescimento? O Brasil carece de receita?

O título é a última coisa que se decide num livro. Minha modesta sugestão era que o livro se chamasse ‘Depois da transição’, encarando a gestão de 2016-2018 como um governo de transição, mas no contexto em que havia sinais de um bom primeiro trimestre este ano e entendendo que meu título não teria muito apelo comercial (no que fui obrigado a concordar) no começo de 2017 optou-se pelo título que faz menção à retomada do crescimento. Na verdade o que precisamos é de um conjunto de ideias e propostas que sejam, em primeiro lugar, encampadas pelo governante de plantão; em segundo lugar, com respaldo na opinião pública; em terceiro, com apoio do Congresso; e, em quarto, implementadas por uma equipe econômica de boa qualidade e coesa. Depois de meados do ano passado, algumas dessas condições passaram a se fazer presentes e outras não. A visão que norteia o livro é que após as eleições de 2018 poderia haver condições para implementar um conjunto de ideias como as que são defendidas no livro, no governo a se iniciar em 2019.

O livro traz textos de 31 economistas respeitados, tem prefácio de Armínio Franga e o sr. dividiu o trabalho de coordenação com Mansueto, que está na equipe econômica. Deve ter muitas sugestões.

O livro foi concebido pelo Mansueto e por mim quando o Mansueto ainda estava fora do governo. A gente teve uma boa interação com os autores, explicando o que queríamos. Montamos a agenda de temas que não podiam faltar, pensamos nos nomes e conversamos com cada autor para passar o que a gente tinha em mente, dando liberdade a cada um deles para definir os detalhes do que efetivamente seria tratado em cada capítulo. Foi uma satisfação coordenar os esforços de profissionais desse calibre. São essas coisas que, apesar dos tempos sombrios do País, permitem olhar para o futuro com otimismo: há muitos talentos no Brasil, muita gente de altíssimo gabarito espalhada por aí, com uma enorme capacidade de contribuir com seu conhecimento para o País. Quando 30 desses caras se juntam, dá um bom livro. Quando 500 se juntam, dá um bom governo.

* QUEM É

Nascido em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, é filho de argentinos e foi criado na terra natal dos pais, retornando ao Brasil na adolescência. Graduado pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FEA/UFRJ) e mestre em Ciências Econômicas pelo Instituto de Economia da UFRJ. Também foi professor de diversas cadeiras na UFRJ e na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ). Entre 1993 e 1994, trabalhou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington. Desde 1984, faz parte do corpo técnico do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Cynthia Decloedt e Aline Bronzati, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

O mercado de capitais brasileiro adotou uma dose de cautela adicional após a crise deflagrada com as delações da JBS. A nova fase da crise, que ameaça a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária, não travou, no entanto, as operações em andamento para captação de recursos por empresas em bolsa e com emissão de títulos de dívida. No mercado de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), olhar para o Brasil do futuro continua valendo a pena, mas, por enquanto, é melhor esperar alguma visibilidade para definitivamente selar negócios.

A crença dos executivos é de que a taxa de juros continuará caindo, beneficiando a atividade econômica, que sairia da recessão. Carrefour e o ressegurador IRB Brasil Re anunciaram ofertas bilionárias de ações (IPO, na sigla em inglês), que devem acontecer em julho. Há informações de que a farmacêutica Biotoscana testará o mercado nessa época. Operações de captação por meio de emissão de títulos como debêntures e Certificados de Recebíveis do Agronegócio mantêm cronogramas e algumas que vieram ao mercado nos últimos dias surpreenderam positivamente.

Os sinais de manutenção de otimismo, porém, são acompanhados de muita insegurança. O diretor gerente do Bradesco, Renato Ejnisman, diz que os investidores locais estão mais seletivos do que os estrangeiros. “Os estrangeiros já estão acostumados a investir em emergentes, têm visão menos contaminada e estão atentos para acertar o ponto de entrada.”

Até agora, as ofertas de ações no Brasil movimentaram R$ 14,5 bilhões, volume quase 37% maior que total registrado em 2016, segundo a B3, empresa resultante da fusão da BM&FBovespa e Cetip. A cifra pode dobrar caso Carrefour e IRB sejam bem-sucedidos em suas captações.

O diretor de ações do Santander Brasil, André Rosenblit, observa que as empresas que desejarem emplacar uma oferta de ações terão período curto para fazê-lo, porque as discussões das eleições 2018 devem começar a esquentar.

O andamento das transações foi até acelerado em alguns casos, em fusões e aquisições. O sócio do fundo de private equity inglês Actis, Patrick Ledoux, afirma que a estratégia de busca de oportunidades não mudou. “As decisões são mais afetadas por câmbio e desempenho econômico. A turbulência obriga a observar a resiliência da empresa, o que pode ser descontado no preço do negócio.”

Mais conteúdo sobre:
Cetip BM&FBovespa Mercado de Capitais

Encontrou algum erro? Entre em contato

Gesner Oliveira, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

O aumento da instabilidade política criou um cenário de incertezas e colocou em xeque a continuidade das reformas econômicas, abalando a confiança dos empresários e investidores.

Antes das delações da JBS, a economia brasileira dava os primeiros passos para sair da maior recessão de sua história. Depois de oito trimestres de queda, o PIB voltou a crescer, em 1% no primeiro trimestre. Um bom sinal, embora a contribuição da agropecuária e da demanda externa tenha sido maior que a esperada. A demanda interna segue modesta.

De toda forma, os fundamentos econômicos sugerem, independentemente da crise política, a retomada da economia, mesmo que de forma bastante gradual ao longo do ano. Mas não estão descartadas novas dificuldades pelo caminho.

Os preços dos ativos domésticos, que sofreram forte depreciação depois da divulgação do acordo de delação da JBS, apresentam alguma estabilidade. O dólar, por exemplo, permanece próximo aos R$ 3,30, e não deve gerar maiores efeitos inflacionários. As projeções de crescimento foram revistas para baixo, mas ainda há expectativa de ligeira expansão.

Esse quadro favorável abre espaço para o Copom continuar reduzindo a taxa de juros. Nesse cenário inflacionário confortável, o BC pode inclusive manter o ritmo de queda de 1 ponto porcentual para a próxima reunião, no final de julho.

Na infraestrutura, há elevado interesse dos investidores pelos ativos a serem leiloados. É fundamental que o governo dê continuidade aos leilões, gerando um vetor de retomada para os investimentos, além dos efeitos positivos sobre a produtividade da economia.

Diante de tal cenário, apesar do aumento da instabilidade, ainda há evidências que a economia deve continuar seu processo modesto de recuperação. Aos poucos os investidores percebem que é preciso diferenciar entre processos sérios de investigação e um clima de denuncismo e politização. Na medida em que as expectativas econômicas estiverem vacinadas em relação à política, a retomada prosseguirá.

* ECONOMISTA, SÓCIO DA GO ASSOCIADOS

Mais conteúdo sobre:
Crise Econômica

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.