Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

‘O Brasil é um grande Rio de Janeiro’

Economista lembra que a dívida pública hoje só não preocupa porque governo toma medidas acertadas, mas riscos permanecem

Entrevista com

Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 05h00

Para Mário Mesquita, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central e hoje economista-chefe do Itaú Unibanco, duas premissas sustentam um cenário otimista para a economia brasileira. Lá fora, Donald Trump, o novo presidente dos Estados Unidos, não vai desencadear um estresse global com a China. Aqui dentro, o governo vai aprovar as reformas, em especial a da Previdência, abrindo espaço para reduzir o gasto público e segurar a dívida. Sem isso, o cenário turva. Será de crise. “Reformas não garantem que a economia vai sair crescendo rapidamente, mas a ausência delas garante que não tem crescimento”, diz ele. A seguir, trechos da entrevista ao Estado

No fim de 2016, a previsão do Itaú Unibanco era que a economia cresceria 1,5% neste ano, mas em janeiro vocês revisaram para 1%. Foram otimistas?

No terceiro trimestre houve uma melhora dos indicadores de confiança, de empresários e dos consumidores. Houve também, ao longo do ano passado, uma melhora no preço de ativos, da Bolsa de Valores em especial. Em geral, isso precede uma retomada da economia. Mas não é engenharia. É economia. Então, sempre pode haver incerteza. O PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre decepcionou. Isso gerou uma revisão do que a gente chama de carrego estatístico (a influência de um período sobre o outro) do quarto trimestre para o resto do ano. Com isso, a gente reviu. Mas, agora, estamos confortáveis com esse número, ainda que ele esteja acima do consenso do mercado.

Por que a economia está demorando para dar a virada?

Efeitos pontuais jogam contra. A alavancagem (endividamento) das famílias e das empresas tem sido um freio. Outro fator, que gera preocupação, é a crise financeira dos Estados. Afeta funcionários públicos das capitais e seus efeitos são capturados pelas pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Pegue o Rio Grande do Sul. O serviço público está numa situação difícil. Por outro lado, lá tem um agronegócio forte. As estatísticas do IBGE são mais sensíveis ao que acontece em Porto Alegre do que no interior. Isso joga contra no curto prazo. Olhando o lado positivo, o salário mínimo subiu em linha com a inflação de 2016, mas a inflação de 2017 está caindo: o poder de compra do assalariado tende a ter um incremento. Inflação em queda é condição necessária para você ter retomada e estamos verificando isso.

Essa projeção pressupõe a aprovação das reformas?

Tem duas premissas. A primeira é que as mudanças de Trump, ainda que tenham um certo protecionismo, não coloquem a economia global num cenário de estresse exacerbado. A segunda premissa é que o governo brasileiro tenha sucesso na aprovação das reformas. Não considera, necessariamente, que a reforma da Previdência, por exemplo, será aprovada exatamente como chegou no Congresso, mas que não será desfigurada. Nossa expectativa é que a tramitação termine em meados do ano. Se essas premissas não se verificarem, será outro cenário. 

E qual seria?

O Brasil é um grande Rio de Janeiro. Só não acontece nada porque a República pode tomar dívida. Mas a dívida federal está numa trajetória insustentável. A gente só não está mais preocupado porque o governo está adotando iniciativas importantes para controlar a dívida no futuro. Sem a reforma da Previdência, não vamos cumprir o teto de gastos. Se o teto não for cumprido, não estabilizaremos a dívida. Sem estabilizar a dívida, o cenário passa a ser de crise. O que acontece? Teremos dúvida em relação à solvência do governo, risco país aumenta, câmbio deprecia, bate na inflação e a gente pode entrar num círculo vicioso. Reformas não garantem que a economia vai sair crescendo rapidamente, mas a ausência delas garante que não tem crescimento. 

Nesse caso, a política pesa?

Sem dúvida. A gente vai ter eleições no Congresso. Rodrigo Maia parece que vai ser mesmo eleito (presidente da Câmara), embora haja um questionamento legal. Vai ter também eleição no Senado. Essas eleições, volta e meia, causam cicatrizes: pessoas querendo cargos e, se não conseguem, o governo precisa acomodar, compor. Isso pode influenciar o andar das votações. O Senado ainda vai ter de avaliar e aprovar um substituto para o ministro Teori Zavascki (juiz, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal) que, lamentavelmente, faleceu. Então, tem uma agenda carregada e a reforma da Previdência andando nesse meio tempo.

As delações da Odebrecht preocupam?

Também. Comenta-se que várias personalidades do meio político podem ser citadas. Eu não sei. Não vi as delações. É um fator adicional de incerteza. Mas uma coisa vale registrar: lá fora, a percepção que tenho, conversando com investidores, é cada vez mais positiva a respeito da Lava Jato.

Por quê?

Fica a percepção de que o Brasil é um país com “ene” problemas, mas que tem instituições que funcionam. Tem um Judiciário independente. Para o investidor estrangeiro, Judiciário independente importa. Eles veem nisso um seguro contra eventuais expropriações. 

O estresse que o País vive, no fim, é visto como um bom sinal?

Sim. Olhe uma empresa como a Petrobrás, olhe para o setor da construção: é inegável que houve melhora da governança. Outra coisa que as pessoas falam é que seria inocência supor que outros grandes mercados emergentes tenham menos corrupção. O Brasil não é extraordinário no grau de corrupção. Extraordinário é que nós estamos enfrentando isso a céu aberto. Pessoas importantes estão sendo punidas quando se desviam do marco legal. No Hemisfério Norte, as pessoas pensam que nos emergentes as coisas andam mais relaxadas. Acho que a Lava Jato está mostrando que o Brasil quer fugir desse estereótipo.

Dá para prever o efeito Trump?

O que preocupa em relação a Trump é que parece – posso estar sendo injusto – que ele quer resolver um problema microeconômico com remédio macroeconômico. Quer resolver, com estímulo fiscal maciço e protecionismo, o problema de empregabilidade de segmentos da população que não foram equipados pelo sistema educacional para atuar de forma competitiva numa economia aberta. Isso tem algum paralelo com medidas que o governo passado tomou no Brasil e que não deram certo.

Se existe essa clareza, o sr. pode explicar por que o mercado comemorou e fez, na semana passada, a Bolsa americana atingir o maior nível em 120 anos? 

Trump tem outro lado: o da desregulamentação. As pessoas estão vendo a desregulação bancária e uma lei ambiental menos restritiva. Então, as ações dos setores financeiro e de energia sobem. Esperam que ele gaste com infraestrutura, beneficiando a demanda por metais e mineração. 

Mas são medidas, todos sabem, problemáticas lá na frente.

Sim. A questão ambiental pode se agravar. A desregulamentação financeira pode elevar riscos. Mas Trump tem essa ambiguidade. É um governo protecionista para fora, liberal, do ponto de vista de regulação interna, e gastão. A gente sabe que resolver problema micro com instrumento macro, em geral, dá errado, e que o protecionismo não é uma avenida para a prosperidade, se não, a gente seria mais próspero. 

E quais são as vantagens e desvantagens para o Brasil?

Se o governo americano adotar uma política comercial que leve a uma crise com a China, prejudicando o seu crescimento, vai afetar o preço das commodities e a economia brasileira. Do lado positivo, se a gente for criativo e agressivo, podemos buscar acordos com países e regiões para os quais os EUA podem estar em via de se fechar. Mas aí teremos de romper padrões. Um economista me disse que a política comercial brasileira é a do “só quando”: só quando eu for tão competitivo como a China, vou abrir a economia; só quando todo mundo abrir os mercados para a gente, eu vou abrir o meu para eles. O Brasil não é fechado à toa. É fechado porque lideranças decidiram, sejam acadêmicas, empresariais, políticas. Enquanto isso predominar, vamos permanecer como o País do “só quando”. 

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