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Economia

José Roberto Mendonça de Barros

O Brasil em queda livre

A cada mês que passa nossa economia fica pior. Nas últimas semanas duas coisas ficaram claras. O final do ano passado foi mesmo muito fraco, que acabou levando a uma piora acentuada nas estimativas de evolução do PIB em 2015. O índice IBC-BR, recentemente divulgado e calculado pelo Banco Central, indica uma queda de 4,1% no ano. Nossa estimativa na MB Associados é de retração de 3,9%. Muitas projeções disponíveis na praça também são da mesma ordem. A indústria de transformação e a construção civil já haviam caído muito, o que é demonstrado pela fortíssima redução no número de seus postos de trabalho, que representaram 65% do total de um milhão e meio de empregos destruídos em 2015. A novidade no final do ano foi o forte enfraquecimento do comércio e dos serviços em geral. Esse enfraquecimento no final do ano, naturalmente, piora a visão para dezembro de 2016.

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José Roberto Mendonça de Barros

21 Fevereiro 2016 | 03h00

O segundo fato notável é que os dados disponíveis para o mês de janeiro mostram uma nova rodada de queda, maior que a esperada. A produção de veículos caiu quase 30%, quando comparada a janeiro do ano passado, os índices de confiança do consumidor, da indústria, dos serviços, do comércio e da construção pioraram entre 11% e 20%, em janeiro do ano corrente. Outros indicadores antecedentes, como a expedição de papelão ondulado e o índice de atividade dos pedágios também caíram entre 5% e 8%.

Os dois conjuntos de números mostram que a economia brasileira está em queda livre. Mostram adicionalmente que o primeiro semestre será muito ruim, pois mesmo na ocorrência de boas medidas de política econômica (algo extremamente escasso nos últimos tempos) não haverá tempo para qualquer melhora na atividade.

Janeiro também pulverizou a ideia de que podemos esperar alguma melhora do segundo semestre. Daí porque a OCDE projeta outra queda no PIB, de 4% para este ano, em linha com várias instituições. A MB, mais otimista espera uma contração de “só” 3.8%. Em dois anos apenas, o PIB per capita deverá cair algo como 10%!

É isto que também está por trás da redução adicional da nota soberana do Brasil como calculada pela agência S&P. Estamos agora dois nós abaixo do grau de investimento e olhando para baixo, porque a perspectiva é negativa. Para o nosso embaraço ficar maior, o Paraguai tem hoje a mesma nota que o Brasil, mas com uma perspectiva positiva, isto é, deverá ser promovido para um nível melhor de risco de crédito. Aliás, com todos os méritos.

A enorme queda na confiança, que comanda esses resultados é perfeitamente compreensível, uma vez que a situação econômica e financeira da maior parte das famílias e empresas segue piorando, sem grandes perspectivas de alteração. A recente pesquisa do instituto Ipsos relata que para 92% da população o Brasil está no rumo errado. O pior é que nossa política econômica segue acomodatícia, burocrática e sem imaginação. As três grandes novidades não resistem a qualquer análise: é absolutamente claro que a CPMF é rejeitada por todos e que não tem a menor chance de ser aprovada pelo Congresso. A reforma da Previdência, por sua vez, é francamente rejeitada pelo partido da presidente da República e por vários de seus ministros e, como consequência, também tem minguadas chances de ir adiante. Finalmente, a meta fiscal flexível, embora defensável para ser introduzida numa época de bonança ou, pelo menos, normal apenas soa a essa altura como desculpa para mudar a meta oficial de 0,5% do PIB, de superávit primário, para um número negativo. A dívida pública, como porcentagem do PIB, continuará se elevando aceleradamente, sem sinais de melhoras.

Ao lado disso, a situação financeira dos Estados e de muitas prefeituras é deplorável. Dos 25 Estados que já publicaram suas contas de 2015, 19 já romperam o limite de alerta para os gastos máximos com pessoal, como definidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (44,1% da receita corrente líquida). Onze ultrapassaram o limite prudencial (46,4% da receita corrente líquida) e três, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Tocantins, gastam com pessoal mais do que o teto de 49% da receita corrente líquida. Minas só não estourou o limite, porque se apropriou de R$ 5 bilhões dos depósitos judiciais, algo de legalidade e legitimidade discutíveis.

Apenas dois eventos se contrapõem a este tsunami: o crescimento da cadeia do agronegócio, do lado da oferta, e o setor exportador, do lado da demanda. Apesar de muito relevantes, estes segmentos não tem dimensão suficiente para evitar mais um ano muito ruim para a economia e para a sociedade.

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