Agustin Marcarian/Reuters
Agustin Marcarian/Reuters

'O crescimento aconteceu por termos alterado a política de austeridade'

Para ministro, desempenho de 2,7% do PIB em 2017 é reflexo de uma economia que avança de forma sustentável; indústria se recuperou apostando no luxo

Entrevista com

Manuel Caldeira Cabral, ministro da Economia de Portugal

Andrei Netto, enviado especial

01 Abril 2018 | 05h00

LISBOA - O crescimento de Portugal não só é sustentável, como também atesta para a transformação e qualificação da indústria e para a afirmação da economia digital no país. Quem garante é o ministro português da Economia, Manuel Caldeira Cabral. À reportagem, o ministro evocou as razões pelas quais crê que o desempenho do PIB em 2017 não é um acaso. Para ele, a transformação da indústria, que a exemplo da calçadista vem refinando seus produtos para escapar da concorrência de baixo custo da China ou do Vietnã, é uma prova de adaptação. 

Da mesma forma, sustenta Caldeira Cabral, a qualidade dos engenheiros e programadores portugueses, somando ao baixo custo da mão de obra e do custo de vida, vem atraindo empresas de tecnologia de fora do país. “Elas encontraram no país uma porta de entrada para a União Europeia, em que tudo funciona tão bem como em qualquer país da UE, mas onde os custos do espaço, da mão de obra e das operações são consideravelmente menores do que na Suíça, Inglaterra ou Alemanha”, afirma. "É um país muito competitivo, com qualidade europeia, segurança jurídica, fiscal e pública, sem os custos dos países mais caros do mundo.”

A seguir, a síntese da entrevista concedida ao Estado.

Portugal registrou um crescimento surpreendente em 2017, o maior em 17 anos. O senhor diria que isso aconteceu devido às medidas de austeridade tomadas pelos governos precedentes ou apesar delas?

Eu diria que esse crescimento aconteceu por termos alterado a política de austeridade, que estava reprimindo o crescimento, por uma política fiscal responsável que deu ao mesmo tempo espaço ao crescimento. Não adotamos uma política contracionista por uma expansionista, mas por uma política fiscal e por despesas públicas que deram espaço ao crescimento, que repuseram o rendimento dos funcionários públicos, dos pensionistas. O aumento do salário mínimo, com uma política responsável,  permitiu baixar o déficit público e a dívida pública em 4,7% do PIB, que foi uma baixa importante no nível de endividamento de Portugal.

Mas o nível de dívida pública continuar alarmante.

O nível da dívida pública portuguesa é elevado, mas está diminuindo. É isso que temos programado nos próximos 10 anos: continuar o programa de redução do nível de endividamento. Isso será conseguido de duas maneiras: primeiro conseguindo um saldo primário positivo. O déficit português em 2017 foi 1,3% do PIB. Mas sem juros já é positivo. Portanto estamos a gastar menos do que o que arrecadamos em impostos, e com isso estamos conseguindo reduzir o nível de endividamento. Por outro lado, registramos em 2017 um crescimento acima da média da União Europeia, e especialmente interessante porque foi puxado pelo aumento das exportações. Nesse sentido é sustentável, por ser baseado no crescimento do investimento privado, de 3%, o que significa que as empresas estão confiantes no crescimento no futuro e no aumento das exportações, que estão crescendo acima da média dos mercados internacionais. 

Muitos economistas têm dúvida se é um crescimento sustentável. Portugal descobriu um novo modelo de economia?

Sim, é um crescimento sustentável e de longo prazo no sentido de que foi puxado principalmente pelo investimento. Quando há um aumento do investimento hoje, há um aumento do PIB hoje. O investimento cria um aumento da produção nos anos seguintes, com mais capacidade produtiva no país. O crescimento privado de 3% que registramos é muito interessante. Além disso, foi um crescimento muito voltado para o exterior, através das exportações em setores muito diferentes, como o de automóveis -- com aumento de 14% --, de máquinas, 10%, produtos alimentares, com crescimento de 14%, 15%, até 20%, de calçados, de turismo, que cresceu 19,5%, que se assemelha mais ao crescimento de um país asiático. O crescimento das exportações vai continuar ao longo de 2018. 

O senhor fala na indústria como se ela estivesse vivendo um renascimento, mas muitos economistas alertam para a fragilidade do setor. Quem está certo?

Eu penso que os números falam por si; quando se vê um aumento de 8% dos investimentos estrangeiros, de 13%-14% do investimento privado de empresas não financeiras, que incluem muitas empresas não industriais, quando se tem um aumento das exportações, penso que a nossa indústria demonstra bem que está muito competitiva. O que aconteceu com a indústria de Portugal foi que, quando começou o processo de maior abertura da União Europeia à globalização e à emergência da China e dos países asiáticos, nos anos 1990 e 2000, seguido do alargamento da UE a novos países, isso criou alguma concorrência à nossa indústria. Nossa indústria e nossas exportações tiveram um momento muito difícil, mas nesses setores houve uma grande reestruturação. Muitos produtos tiveram de evoluir em tecnologia para se tornar competitivos pela inovação.

A importância da economia digital é crescente. Eventos como o Websummit tem afirmado a imagem de Portugal como hub tecnológico na Europa, não? 

Portugal evoluiu muito em muitas áreas. Há 20 anos praticamente não exportávamos serviços tecnológicos. Hoje temos muitas empresas de software que fazem produtos para a Nasa, que fazem serviços para as maiores empresas mundiais, ou empresas de nicho que desenvolvem soluções de cybersegurança, de fintech, de informática para plataformas de consumo. Temos hoje um conjunto muito diversificado de empresas de software. Várias dessas empresas estão trabalhando no mercado brasileiro, da América do Sul, dos Estados Unidos e da União Europeia. E há ainda muitas empresas multinacionais que estão abrindo escritórios em Portugal, onde desenvolvem atividades específicas. Uma das últimas a anunciar isso foi a Google, mas a Cisco já está aqui fazendo, Microsoft e várias outras de tecnologia e de engenharia aumentaram sua presença em Portugal.

 

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