Richard Drew/AP
Richard Drew/AP

O declínio do Goldman Sachs

Problemas do banco de investimentos estão pela primeira vez nos negócios, não na imagem

O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 05h00

O Goldman Sachs é um banco de investimentos que se notabilizou por fazer apostas financeiras arriscadas e manter o sangue frio em situações delicadas. Em 1986, um passo em falso numa operação com títulos do Tesouro americano quase levou a instituição à bancarrota, mas as perdas acabaram revertidas. 

No início de 2007, acreditando na queda dos títulos subprime, o banco assumiu enormes posições “vendidas”, o que o ajudou a acumular lucros de US$ 14 bilhões entre 2008 e 2009, enquanto a economia mundial sofria com a pior crise financeira dos últimos 80 anos. 

Sabe-se que, ao menos internamente, uma das práticas mais valorizadas por seus executivos é a de jamais dourar a pílula. Nesse espírito, é chegada a hora de reconhecer que a estratégia atual da instituição parece pouco promissora. Em sua defesa, o banco alega que não está se saindo pior que os concorrentes. Mas em Wall Street, permanecer na média não leva a lugar nenhum.

Depois de brilhar nos anos imediatamente subsequentes à crise, de 2012 para cá o retorno total (ganhos com a valorização das ações, somados aos dividendos) do banco é 36% inferior à média dos seus quatro maiores concorrentes americanos. 

Na época em que o Goldman era uma sociedade de capital fechado, o banco apresentava lucratividade maior do que a do Facebook hoje. O retorno sobre o patrimônio (ROE) chegou a 38% em 1998, antes da abertura do capital. Em 2007, o ROE foi de 29%, mas recuou 9% nos últimos trimestres. Dois terços dessa queda são pelas regras mais rígidas impostas aos bancos.

A lucratividade medíocre é consequência da alocação de ativos pouco eficiente. O Goldman vem tentando enxugar seu balanço, em particular nas operações com títulos, mas foi atingido pelas novas normas do acordo de Basileia 3, que determinam como os ativos ponderados pelo risco devem ser calculados. O Goldman tem novos projetos, como seu pequeno banco de varejo online, mas o cerne da estratégia é esperar a volta dos bons tempos no mercado financeiro. 

A estratégia de “aguentar firme” está relacionada com a sucessão de seu CEO. Lloyd Blankfein comanda a instituição desde 2006. Nesse período, seu desempenho só foi inferior ao de Jamie Dimon, do JPMorgan. Nos últimos tempos, porém, Blankfein vem se mostrando tolerante demais com a unidade de operações.

Os outros negócios — serviços de consultoria a empresas e gestão de ativos — são excelentes, mas não têm perspectiva de crescer. E se o Goldman se juntasse a um banco comercial? A solução foi perfeita para o JPMorgan, mas a única grande instituição de crédito sem um banco de investimentos é a Wells Fargo, e uma fusão entre ambos daria em um colosso com US$ 3 trilhões de ativos, o suficiente para deixar as autoridade reguladoras em alerta.

O Goldman diz ter “histórico de adaptação” e que seu ROE médio na última década supera em 8% a média dos concorrentes. Isso indica que o conselho manterá a estratégia e o comando atuais por ao menos mais um ano. 

Depois disso, se o desempenho continuar medíocre, os acionistas externos, que controlam 90% da instituição, não aguentarão calados. Se as operações com títulos não voltarem a gerar lucros polpudos, o Goldman terá de encolher mais. No futuro, as pessoas talvez olhem com perplexidade para as duas décadas em que o Goldman Sachs dominou inconteste o segmento dos bancos de investimentos e essas instituições pareciam dominar o mundo. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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