O desafio de exportar séries em português

Documentários e animações têm boa aceitação, mas ficção esbarra na resistência a conteúdos legendado

Fernando Scheller, Impresso

20 Março 2017 | 05h00

Quando o assunto é série de televisão, o conteúdo feito no Brasil começa a romper barreiras e a cair no gosto do público internacional. A trajetória, no entanto, não é fácil. Embora serviços como o Netflix digam estar conseguindo convencer espectadores a assistir a produções de diversas parte do mundo, dubladas ou legendadas, produtores locais afirmam que alguns conteúdos em português têm dificuldades de aceitação no exterior.

Os dois segmentos que estão conseguindo transpor essa barreira com mais facilidade são os documentários e as animações. Hoje, segundo a Bravi – associação que reúne as produtoras independentes no Brasil –, 38% do conteúdo local consumido lá fora é de documentários, seguido pelas animações, com 24%. Já as propostas de ficção, apesar do “boom” das séries de televisão, ainda enfrentam desafios.

Pelo mundo. Entre as séries nacionais mais vendidas figuram Peixonauta e O Show da Luna, ambas da TV Pinguim, que hoje estão presentes em 89 e 96 países, respectivamente. Luna está entrando na quarta temporada, e Peixonauta vai virar longa-metragem ainda este ano. Para garantir que as produções tenham boa aceitação lá fora, os desenhos são feitos para se adequarem às falas em inglês. Posteriormente, os conteúdos são dublados em outros idiomas, incluindo o português.

“Essa foi a forma de vencermos a barreira do americano para conteúdos dublados”, diz Kigo Mistrorigo, da TV Pinguim. Hoje, além e Luna e Peixonauta, que incluem uma longa lista de produtos licenciados, a TV Pinguim produz, em parceria com o Canadá, Ping & Pong, concebida para ter 52 episódios de 7 minutos. A série já tem contrato de exibição no Brasil (na Discovery Kids) e no Canadá (TVO).

À medida que o Brasil ganha reputação, as coproduções tornam-se mais comuns. É o caso de Meu Amigãozão, exibido em 117 territórios. Embora o conceito seja pensado para uma audiência global e produzido em inglês, aspectos da cultura brasileira evidenciam a origem da série. “O tipo de construção que aparece ao fundo, e o fato de as pessoas jogarem futebol, e não beisebol, são alguns dos aspectos (de brasilidade)”, diz André Breitman, da 2dLab. A produtora prepara a série infantil, a Maxi Mais, também em parceria com o Canadá, para o ano que vem.

Outros gêneros. No caso dos documentários – categoria em que também se encaixam alguns programas de “aventura” –, as séries ligadas à fauna e à flora brasileira têm boa procura. No entanto, segundo Fernando Dias, sócio da Grifa Filmes, aos poucos a capacidade de produção brasileira está sendo reconhecida. “No mercado internacional, importa sua capacidade de entrega, e não de onde você é”, diz o executivo, que já produziu séries exclusivas para canais estrangeiros como o franco-alemão Arte.

Em alguns casos, o sucesso internacional de certos conteúdos chega a surpreender. Foi o caso da série culinária Receitas de Viagem com Bel Coelho, que falava de gastronomia brasileira. Originalmente pensada para o Brasil, a série foi exibida pela Europa. “Acabamos fazendo duas versões: na internacional, usamos imagens mais óbvias do Brasil, como do Pelourinho, em Salvador.”

Cota de conteúdo local fez produção disparar no Brasil

A Lei do Cabo, que definiu uma cota de produções nacionais em todos os canais por assinatura da TV brasileira – o período mínimo é de 3 horas e 30 minutos de conteúdo local por semana –, causou um “boom” na produção independente nacional a partir de 2013, quando a regra entrou em vigor. Para cumprir a cota, uma produtora brasileira precisa deter 51% do conteúdo, seja ele ficção, documentário, animação ou captação de um show musical.

De 2011 para cá, segundo a associação Bravi – que reúne as produtoras independentes do País – mais do que triplicou. Há seis anos, a TV paga exibiu um total de 534 horas de programação local. O número saltou para 1.232 em 2013, quando a regra entrou em vigor, e chegou a 1.801 horas em 2015, último dado disponível.

 

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