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Economia

Celso Ming

O efeito China

A desaceleração da economia da China derruba implacavelmente as cotações das commodities e as economias emergentes e os grandes produtores de petróleo sentem os efeitos na pele

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Celso Ming,
O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2016 | 21h00

Este mês de janeiro trouxe um aumento das incertezas na economia global. Os mercados vêm reagindo com derrubada das bolsas e das cotações das matérias-primas. A recuperação ocorrida ontem não transmite firmeza porque os problemas persistem.

No epicentro da crise está a economia da China em franca desaceleração. Em 2015, o PIB avançou 6,9%, o que objetivamente não seria pouco. Mas são enormes as dúvidas a respeito da exatidão das contas nacionais da China. A suspeita dos analistas mais céticos é a de que o crescimento tenha sido cerca de metade disso. De todo modo, o Fundo Monetário Internacional confirma esses 6,9% e projeta para 2016 avanço do PIB de 6,3% e, para 2017, de 6,0%.

No dia 18, o Financial Times, o mais influente diário de Economia e Finanças da Europa, publicou matéria em que adverte para o impacto da fuga de capitais da China. Em 2015, deve ter atingido os US$ 59 bilhões, mais ou menos o que o Brasil recebeu em investimentos estrangeiros. Essa revoada deve se acentuar. A desvalorização do yuan em agosto levou os investidores a temer que seja um processo que só começou. Se isso se confirmar, quem permanecer por lá obterá menos dólares por yuans aplicados.

A desaceleração da economia da China, principal importadora mundial de matérias-primas, vai derrubando implacavelmente as cotações das commodities, especialmente as do petróleo e dos metais. Esse mega-ajuste vai levando de roldão as economias emergentes e os grandes produtores de petróleo.

Em consequência do enfraquecimento das economias emergentes se reduzem as encomendas aos países industrialmente avançados, que já vinham enfrentando quebra das exportações, baixo crescimento, problemas fiscais, ameaça de deflação e alto desemprego.

Ainda não está claro o impacto da derrubada do preço do petróleo sobre os bancos internacionais. Os analistas preveem falências em cadeia nesta área, derrocada que pode puxar para baixo os bancos excessivamente expostos ao setor.

A fuga de dólares da China deve produzir grande estoque de capitais no mercado internacional e, com isso, o aumento das pressões pela redução dos juros. Esta seria excelente oportunidade para o Brasil, que precisa de investimentos para puxar o crescimento. No entanto, por aqui os indicadores gerais estão se agravando. O PIB afunda, a inflação ameaça manter-se nos dois dígitos também em 2016, o desemprego está cada vez mais alto (veja o Confira).

Novo ciclo de alta do dólar em reais reflete o aumento da insegurança, fator que pode ajudar a puxar a inflação para cima. O único indicador que aponta franca melhora é o das contas externas. Mas isso acontece mais porque a atividade econômica mais fraca derrubou as importações do que pelo aumento da competitividade do produto brasileiro.

Com base nesse indicador, não é descabida a aposta de que a queda forte da demanda interna ajude a derrubar a inflação. Mas a desordem das contas públicas, agravada pela queda da arrecadação, decididamente não ajuda. E não dá para desconsiderar que a crise política segue trabalhando contra o ajuste.

CONFIRA

O gráfico mostra como evoluiu nos últimos sete anos o saldo líquido da abertura de postos de trabalho com carteira assinada.

Vai piorar

O resultado apontado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) foi o fechamento de 1,5 milhão de postos de trabalho em 2015. É um quadro de deterioração do mercado de trabalho, embora em proporção mais baixa do que a esperada pelos analistas. Como a queda do PIB deve continuar, as perspectivas para 2016 são de que o mercado de trabalho também continue se estreitando.

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