O embate EUA-China

Se a Coreia do Norte é perigosa com alguma sustentação econômica, imaginem o que não seria se virasse um Estado falido do dia para a noite, sem o apoio direto e indireto dos países da região

Monica de Bolle, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2017 | 05h00

Não é surpresa alguma que a administração Trump enxergue a China como o grande inimigo no palco econômico internacional. Pouco antes de ser demitido de sua função como conselheiro de Trump, o ex-dirigente da campanha Trumpista e incendiário nacionalista econômico Stephen Bannon – nacionalista econômico é como o próprio Bannon se define – concedeu entrevista em que afirmou estarem os EUA engajados em uma guerra econômica com o país asiático. Alguns influentes estudos acadêmicos recentes, especialmente a badalada pesquisa empírica de David Autor (MIT), David Dorn (Universidade de Zurique), e Gordon Hanson (Universidade da Califórnia, San Diego) intitulada “The China Shock: Learning from Labor Market Adjustment to Large Changes in Trade”, sugerem que a ascensão chinesa provocou deslocamento brutal no mercado de trabalho americano, alimentando tanto a retórica quanto as ações protecionistas do governo Trump.

Como mostram pesquisas recentes do Peterson Institute for International Economics, onde trabalho, a administração Trump não tardou em usar dispositivos previstos nas leis comerciais americanas como subterfúgio protecionista. Em vez de solapar as importações chinesas com uma tarifa de 45% conforme prometido durante a campanha, o governo tem usado diversos mecanismos unilaterais previstos pela legislação para conter a entrada de produtos estrangeiros, sobretudo os provenientes da China. O mais controvertido até agora foi o uso de mecanismos de “proteção da segurança nacional” para controlar as importações de aço e alumínio. Sob esse pretexto, os EUA podem alargar a cobertura de produtos que “ferem a segurança nacional”, adotando tarifas seletivas e outras medidas protecionistas. Entre os parceiros mais afetados pela invocação da chamada seção 232 do Trade Expansion Act de 1962 estão os três maiores parceiros comerciais dos EUA, a saber, o Canadá, a China e o México.

Mas não é apenas nas ações já tomadas que se vê a beligerância do governo Trump na área comercial. As ameaças de extinguir o Nafta, o tratado de livre comércio com o Canadá e o México, em vigor desde 1994, e de enterrar o Korus, o tratado de livre comércio com a Coreia do Sul, assinado em 2012, são também exemplos da visão estreita que tem a adiministração a respeito das relações comerciais. No caso da Coreia do Sul, o sexto maior parceiro comercial dos EUA e aliado estratégico importante dos americanos, o fim do Korus poria em risco o fragilíssimo equilíbrio geopolítico da península coreana, cada vez mais visível nos testes de mísseis e bombas conduzidos dia sim, outro quase também, pela Coreia do Norte.

O mais recente teste de uma suposta bomba de hidrogênio pelo regime de Kim Jong-un levou o presidente americano a afirmar que entre as possíveis medidas de retaliação estaria a suspensão do comércio internacional com todos os parceiros da Coreia do Norte. O principal parceiro comercial da Coreia do Norte? A China, responsável por 90% dos fluxos de comércio para essa pequena economia. Os chineses compram carvão e produtos minerais dos norte-coreanos, suprindo-os de alimentos e combustíveis. Por que o fazem, apesar do perigo nuclear desse volátil país? Antes de tudo, para garantir a estabilidade na região. Se a Coreia do Norte é perigosa com alguma sustentação econômica, imaginem o que não seria se virasse um Estado falido do dia para a noite, sem o apoio direto e indireto dos países da região. A questão é demasiado complexa para ser resolvida por uma bravata de Trump.

Contudo, se Trump resolvesse parar o comércio com a China para pressioná-la com a Coreia do Norte, seriam inúmeras as consequências indesejáveis. Entre elas, está o risco de retaliação chinesa, e os danos que tal risco traria tanto para a economia americana, quanto para a economia global. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China disse sem qualquer ambiguidade que as ameaças de Trump são “inaceitáveis”.

Enquanto as bolsas e os mercados comportam-se como tudo estivesse funcionando na mais normal das normalidades, amplificam-se os riscos econômicos, políticos e geopolíticos do embate sino-americano. Dessa cacofonia não sairão ilesos os países emergentes.

*ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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