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Susan Walsh | AP

O Fed, em nova parada

A decisão do Fed de esperar antes de avançar no aumento dos juros vai produzir e deixar de produzir efeitos em cadeia no mundo todo

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Celso Ming

27 Janeiro 2016 | 21h00

A atuação dos grandes bancos centrais são como os macrofenômenos climáticos. Enchentes no Sul, seca no Nordeste ou tempestades elétricas por todo o Brasil podem ser o resultado do El Niño, a megarrelação de forças naturais produzidas pelo aumento da temperatura no longínquo Oceano Pacífico.

Assim, também, a simples disposição do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de aumentar ou não os juros básicos (Fed funds), como aconteceu nesta quarta-feira, produz impactos de grande repercussão na economia do Planeta.

O Fed levou anos estudando quando aumentaria os juros, na operação que retiraria do mercado mais de US$ 3 trilhões despejados desde 2008 para enfrentar a crise. Depois de muita vacilação decidiu começar o processo. Em dezembro, os juros foram finalmente aumentados em 0,25 ponto porcentual ao ano, o primeiro passo de uma presumivelmente longa caminhada de enxugamento. Os sinais então eram de que haveria mais três ou quatro altas dos juros nos Estados Unidos neste ano.

Mas de lá para cá muita coisa mudou a ponto de comprometer todo o processo e colocar em dúvida o que há apenas três semanas o vice-presidente do Fed, Stanley Fischer, avisou: que o Fed trataria de aumentar os juros pelo menos quatro vezes ao longo de 2016.

A crise global tomou novas feições. A economia da China entrou em forte desaceleração. Os preços do petróleo, que afundaram a níveis de 13 anos atrás, ameaçam provocar falências em cadeia e, mais que tudo, tendem a derrubar a inflação nos países ricos. O tombo do petróleo não veio sozinho. Veio acompanhado pelo mergulho vertiginoso dos preços das commodities.

Tudo isso junto derrubou a economia dos emergentes o que, por sua vez, tende a prejudicar as exportações e a atividade econômica da Europa e dos Estados Unidos. E, também por lá, o desemprego vai aumentando, com prejuízo para o nível de confiança geral.

Mais especificamente, multiplicaram-se as preocupações do Fed em três áreas: excessiva valorização do dólar provocada pelo aumento dos juros; ameaça de deflação, que coloca em risco a arrecadação e aumenta as dívidas em termos reais; e redução da atividade econômica com aumento do desemprego.

A decisão anunciada nesta quarta-feira foi a de esperar antes de avançar o processo de normalização da política monetária. E que novos movimentos obedeceriam a um ritmo muito gradual. É uma decisão que, sozinha, vai produzir e deixar de produzir efeitos em cadeia ao redor do mundo, embora não estejam claros.

Esperar até quando? Se foi um erro aumentar os juros em dezembro, por que não corrigi-lo imediatamente. Se as coisas se deterioram tão rapidamente em duas ou três semanas, o que impediria que se deteriorem ainda mais?

Mais que tudo, fica a percepção geral de que as autoridades que estão no comando, a começar a presidente do Fed, Janet Yellen, não sabem exatamente como avaliar o comportamento anômalo da economia mundial sob esta forte derrubada dos preços do petróleo. Operam no escuro, mais por tentativa e erro do que por certezas de que estejam em terreno firme e rumo certo.

É um momento em que o mundo vive uma situação de forte insegurança e isso vai refletido todos os dias na enorme volatilidade do mercado financeiro.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução do crédito nas duas principais modalidades.

 Desaceleração

Em 2015, o saldo do crédito concedido pelo sistema financeiro avançou 6,6%, abaixo da inflação, que ficou nos 10,67%. É um número que comprova a desaceleração do crédito em consequência da recessão e da queda de renda. Outro número que aponta para a mesma conclusão é a relação do estoque de crédito com o PIB. Atingiu em 2015 os 54,2%. Ficou algo acima da mesma relação em 2014 (53,1% do PIB). Mas o crescimento é aparente, porque o PIB caiu mais.

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