O impasse da ingovernabilidade

Marco Antonio Rocha, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2015 | 02h03

Ontem nossa muy amada presidente saiu-se com a seguinte pérola do seu cultuado e profundo pensar político: "Usar a crise para tentar chegar ao poder é a versão moderna de golpe".

Há tempos ela fala que "os inimigos" querem "o golpe" e "os inimigos" são aqueles que procuram o "quanto pior, melhor".

A esta altura é difícil de identificar quem quer o golpe ou quem quer o "quanto pior, melhor", já que mais de 90% da sociedade brasileira, segundo pesquisas, está desgostosa com ela e boa parte desses 90% aderiu ao "fora Dilma". A vasta maioria da população, e não só os eleitores, quer simplesmente que o governo governe e nos tire da situação caótica, perigosa e altamente frustrante em que ela, Dilma, nos meteu, com sua arrogância, prepotência e estupidez, dignas do IG Nobel Prize - o contrário do Nobel -, que hoje estará sendo outorgado pela 25.ª vez no auditório da Universidade Harvard.

Normalmente, nenhum governante sério, numa democracia séria, precisa governar muito, todos os dias e o dia inteiro. Precisa é ter boas ideias viáveis, que o povo aceite bem, e fazer bons discursos inspiradores e mobilizadores, como os de técnicos de futebol - não a algaravia ininteligível que ela distribui pelas TVs e rádios. As burocracias estabelecidas cuidam - e cuidam bem - das tarefas rotineiras de governo. Até a imensa burocracia brasileira sabe governar no dia a dia.

Os governos bem estabelecidos só precisam governar de fato, com firmeza, empenho e esforço, em situações graves, de crises, como a que nós estamos atravessando, ou de guerras, de ameaças externas inquietantes. Nessas ocasiões é que a nação e a população precisam não só de um discurso inspirador e mobilizador, mas de medidas imediatas claras, viáveis e eficazes.

A ineficácia e a desídia de sucessivos governos, inclusive militares, conduziram todo o serviço público brasileiro, dos três níveis, a um descalabro completo: educação, Justiça, saúde, polícia - para falar dos quatro mais essenciais, apenas - estão todos os dias exibindo nos telejornais do País suas mazelas e abandono.

O conserto dessa falência continuada do Estado brasileiro exige imensos recursos materiais e humanos que certamente não temos. O que temos não dá para consertar esse carro velho. Antigamente, quando o Brasil estava melhor de vida, conseguíamos uma Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) - o tutu necessário para tocar com alguma esperança de êxito essa imensa obra chamada Brasil - da ordem de 24% a 25% do PIB. Com isso, funcionamos desde a década de 1950, com altos e baixos, até o começo dos anos 80. De um terço a um quarto dessa poupança vinha do exterior; outro quarto vinha do setor governo; e metade ou pouco mais, do investidor privado nacional. O fato é que aquela taxa de poupança nos permitiu crescimento de 5% a 7% do PIB por ano, durante anos.

Hoje estamos poupando, nos melhores anos, cerca de 16% do PIB, pouca coisa vindo do setor privado, um tanto do governo e quase nada do setor externo. Precisamos desesperadamente aumentar a taxa de poupança interna, obter muito mais da poupança externa e reduzir no que for possível o investimento do setor público.

Isso exige um altíssimo grau de confiança na gestão macroeconômica do governo. Houve alguma dose de confiança nos oito anos de FHC e nos primeiros quatro anos de Lula. Depois, caímos na velha gandaia das contas públicas. No período Dilma, a coisa degringolou de vez, até a S&P cansar de advertir.

Estamos, agora, num impasse. Dilma talvez até queira governar como manda o manual ortodoxo. Mas não consegue. É tarde para o remendo. Ela está paralisada e numa situação de ingovernabilidade. As exortações para que pegue o bastão e governe, inclusive de Lula, são inúteis. Mas ela não reconhece a inviabilidade do seu governo. Mesmo porque, não tem mais governo.

* Marco Antonio Rocha é jornalista. E-mail: marcoantonio.rocha@estadao.com

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