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Economia

Pedro Doria

O iPhone do terrorista

Quando alguém compra um iPhone, compra também a promessa de segurança

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Pedro Doria

19 Fevereiro 2016 | 05h00

A briga que a Apple comprou esta semana com o FBI interessa diretamente a toda pessoa que tem um smartphone. A todos. É daquelas brigas que, se resumida, perde tanto das nuances que leva à conclusão errada. Os investigadores conseguiram, na Justiça, a ordem para que a empresa os ajude a entrar no iPhone do terrorista de San Bernardino. Um homem responsável por 14 mortes. Parece razoável. Não é.

Trata-se de um iPhone 5C que pertencia a Syed Farook. Ele e sua mulher foram responsáveis pelo ataque suicida da Califórnia, em dezembro. Foram inspirados pelo ISIS. Há provas circunstanciais que levam a essa conclusão. Mas os investigadores querem ter certeza de que não houve intervenção direta do grupo no planejamento. E o celular está protegido por senha.

Senhas podem ser quebradas. Um computador potente testa, muito rápido, inúmeras combinações de quatro números até acertar. Mas os agentes do FBI têm dois problemas. O mais preocupante é que, após errar dez vezes a senha, o celular apagará tudo o que está lá dentro. Faz parte da segurança padrão de inúmeros smartphones. É para impedir que assaltantes fucem o que o dono do aparelho tem gravado. O outro problema, menos difícil, é encontrar uma forma de ligar um computador ao iPhone para que os testes de senha possam ser feitos.

Para atender ao pedido, a empresa teria de criar uma versão exclusiva do iOS, sistema do aparelho. Nela, o comando para apagar o conteúdo seria desativado e uma ferramenta de conexão para testar senhas, implementado. Criado este iOS exclusivo, o que não seria complexo para a Apple, os engenheiros da empresa o instalariam no iPhone de Farook.

Só a Apple pode criar este sistema que dribla a segurança dos iPhones. É porque, enquanto ligam os celulares, eles conferem certos códigos que estão no iOS. É para confirmar que o sistema é original, que a segurança não foi burlada. São códigos que só a empresa que o criou conhece. Ajudar na investigação de um caso de terrorismo é uma coisa. Criar um sistema capaz de driblar a segurança de qualquer iPhone e colocá-lo num celular que agora pertence ao FBI é outra muito distinta. Afinal, depois de criado, ele poderia ser utilizado novamente. O FBI teria uma arma poderosa nas mãos. 

Este é o dilema prático. Os EUA são uma democracia com Constituição sólida e sistema judicial eficiente. Mas a Apple é uma multinacional que tem negócios relevantes em inúmeros países. Como a China. E aí entra o segundo dilema. Porque, na China, a definição de crime ou de direitos do cidadão passam ao largo de critérios democráticos. Se a Apple viola a segurança que garante a seus usuários nos EUA por ordem judicial, teria de fazer o mesmo lá. E, na China, um democrata muito ativo pode ser chamado de terrorista.

Há o terceiro dilema. Não faz muito, uma insegurança da própria Apple permitiu o vazamento de fotos íntimas de várias atrizes. As pessoas têm medo justificável do que põem no aparelho. Quando alguém compra um iPhone, compra também a promessa de que suas informações estarão seguras. Vale para a Apple, para a Samsung e para qualquer um envolvido no negócio dos celulares. Celulares guardam dados íntimos e delicados. Agora que passarão a substituir cartões de crédito, a garantia de inviolabilidade torna-se mais relevante.

Um terrorista é um caso extremo. Mas se a Apple se dispõe a quebrar a senha do aparelho uma vez, abre o flanco. A garantia de segurança já não é mais inviolável e discutiremos apenas os critérios. O Vale do Silício em peso está de olho neste caso.

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