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Economia

Roberto Fendt

O jogo dos sete erros

Os jornais publicavam antigamente o jogo dos sete erros. Dois desenhos semelhantes eram colocados lado a lado, o segundo dos quais apresentava sete erros com relação ao primeiro. O jogo consistia em identificar esses erros.

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Roberto Fendt

24 Janeiro 2016 | 03h02

Há muitos erros em algumas avaliações da economia chinesa. Identifico, aqui, sete dos mais frequentes. O primeiro erro é acreditar que a China descarrilará a economia global. O Fundo Monetário Internacional (FMI) é da opinião que, se não a descarrilar, uma continuada desaceleração econômica na China provocará efeitos negativos por meio dos canais do comércio, dos preços das commodities e das expectativas empresariais.

Minha avaliação é de que a economia chinesa não descarrilará a economia mundial, como não a descarrilou no passado. De fato, a China impulsionou, nos últimos 25 anos, a economia mundial. Há 25 anos, o PIB da China (medido em paridade do poder de compra) correspondia a 4% do PIB mundial. Em 2014, a sua fatia no PIB mundial (16,3%) já excedia a fatia do PIB dos EUA (16,1%). Um terço do crescimento global deveu-se à China no período “desacelerado” dos últimos dez anos.

Agora, em 2015, o PIB da China aumentou 6,9% e o PIB mundial, 3,1%, nesse total incluído o crescimento chinês. Se o excluirmos, o crescimento do restante da economia mundial foi de apenas 2,4%. Quem cresce mais rápido e puxa os retardatários é parte da solução, não dos problemas.

O segundo erro é atribuir as perdas de nossas exportações à China. Mas quem se der ao trabalho de examinar a corrente de comércio do Brasil verificará que, ao contrário do pensamento geral, a China foi responsável por apenas 15% da queda geral das exportações brasileiras. Os outros 85% ficaram por conta dos demais parceiros.

Não quer isso dizer que a desaceleração do crescimento da China não teve efeitos negativos. No caso brasileiro, por exemplo, o quantum das exportações aumentou 13% em relação a 2014, insuficientes para contrabalançar a queda média de 29% nos preços desses bens, atribuíveis, em larga medida, à superoferta deles no mercado internacional e em parte à queda da demanda chinesa. O fato é que os volumes embarcados de soja em grão, minério de ferro e petróleo em bruto – os principais itens da pauta de commodities – registraram seus maiores níveis na série histórica.

O terceiro erro consiste em atribuir ao rebalanceamento da economia da China todos os riscos à economia mundial. Mais apropriado seria igualmente localizá-los em outras áreas, como na trajetória de alta das taxas de juros nos EUA; na crescente aversão ao risco, que desvaloriza as moedas e dificulta o financiamento das economias emergentes mais vulneráveis; e no aumento das tensões políticas em diversas regiões, para ficar somente com esses.

O quarto erro consiste em associar um ajuste único na paridade cambial chinesa – necessário para a inclusão do renminbi na cesta de moedas dos Direitos Especiais de Saque do FMI – com uma mudança de rumo na política cambial, de crescente valorização nos últimos anos para uma de agressiva desvalorização.

O quinto erro é imaginar que a política de reduções progressivas das taxas de juros será o instrumento preferido para relançar a economia chinesa. As taxas de juros já estão baixas o suficiente e não autorizam pensar em cortes adicionais. Acertará quem atribuir à política fiscal aquele papel.

O sexto erro é atribuir a desaceleração econômica à queda no consumo decorrente da queda dos preços no mercado imobiliário. O consumo permanece estável no País e seu avanço tem que ver com o aumento da renda real das famílias e nada a ver com mudanças na taxa de poupança ou nos valores dos ativos das famílias.

Finalmente, o sétimo e último erro, o mais grave deles, é atribuir a terceiros (a China) a origem de todos os males que aqui nos assolam. Eles decorrem unicamente de uma política econômica doméstica, inconsistente e errática.

*ROBERTO FRENDT É SECRETÁRIO EXECUTIVO DO CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA

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