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O jornalista que traduziu o economês

Jose Maria Mayrink, de O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2012 | 18h 03

Joelmir Beting, que revolucionou a cobertura da economia no jornal, no rádio e na televisão, morreu nesta quinta aos 75 anos em São Paulo  

Morreu na madrugada desta quinta-feira, aos 75 anos, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, o jornalista Joelmir Beting. Internado desde 22 de outubro para tratamento de vasculite autoimune, Joelmir sofreu um acidente vascular encefálico hemorrágico (AVE) no domingo, permanecendo em estado grave desde então. Seu corpo foi velado das 8h às 14h no Cemitério do Morumbi e cremado, no final da tarde, no Cemitério e Crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra.

Depois de uma passagem pela Folha de S.Paulo, Joelmir teve sua coluna diária distribuída pela Agência Estado e publicada pelo Estado e pelo Globo entre agosto de 1991 e dezembro de 2003. "Joelmir considerava suas passagem pelo Estado como auge de sua carreira", disse Lucila, sua mulher, com quem foi casado durante 49 anos.

O jornalista que revolucionou a cobertura da economia no jornal, no rádio e na televisão, ao traduzir em linguagem comum o dialeto do economês que só os iniciados eram capazes de entender, desembarcou em São Paulo com a roupa do corpo em 26 de dezembro de 1955. Vinha de Tambaú, a 260 quilômetros da Capital, cidade onde nasceu em 21 de dezembro de 1936.

Neto de imigrantes alemães que ficaram ricos na lavoura e depois perderam tudo, Joelmir José Beting começou trabalhando como boia-fria aos 7 anos, para ajudar o pai na colheita de jabuticaba e limão na roça. Vendeu tomates na rua e foi coroinha do padre Donizetti Tavares de Lima, hoje em processo de beatificação no Vaticano, a quem poderia atribuir um milagre.

Foi o padre Donizetti que, milagre ou não, curou Joelmir de uma gagueira crônica, fazendo-o rezar com ele em voz alta. Locutor do serviço de alto-falante da prefeitura de sua terra e, mais tarde, comentarista de economia em São Paulo, o profissional exibia o microfone, falando agora com desenvoltura, para os colegas que riam dele na escola.

Joelmir entrou na profissão empurrado pelo padre Donizetti, que o aconselhou a estudar Sociologia e a fazer jornalismo. Uma carta de apresentação do "guru espiritual", como ele o definia, garantiu uma vaga de revisor num dos jornais de Assis Chateaubriand. Fez futebol em O Esporte e no Diário Popular e na rádio Panamericana, atual Jovem Pan. Até aí, queria seguir no magistério, como fizeram dois brilhantes colegas de turma, Francisco Weffort e Ruth Cardoso.

'Chacrinha'

Ao se formar em Ciências Sociais, Joelmir trocou o jornalismo esportivo pelo econômico, em 1962. Quatro anos mais tarde, foi convidado a lançar uma editoria de Automóveis na Folha de S. Paulo. Em 1968, foi nomeado editor de Economia do jornal e, em 1970, passou a assinar uma coluna diária. Em 1991, foi contratado pelo Estado, juntamente com Paulo Francis. Sua coluna era publicada, então, em mais de 50 jornais no País.

"A coluna diária foi meu pau da barraca profissional. Com ela, desbravei o economês, vulgarizei a informação econômica, fui chamado nos meios acadêmicos enciumados de 'Chacrinha da Economia', virei patrono e paraninfo de 157 turmas de Economia, Administração, Engenharia, Direito...", escreveu Joelmir em seu currículo em 2004.

Trabalhava 15 horas por dia. Seu braço direito na organização da agenda era Lucila, com quem se casou em 14 de abril de 1963.

"Lucila é ótima. Temos um casamento de 30 anos (49 anos em 2012) de comunhão total, a ponto de provocar ciúmes em nossos filhos (Gianfranco, de 49 anos e Mauro, de 46 anos). Preciso sempre dela fisicamente ao meu lado, senão fico meio perdido", escreveu no currículo.

O casal se conheceu na Rádio 9 de Julho, da Arquidiocese de São Paulo, em 1958. "Foi lá que a gente se engraçou", escreveu Joelmir, lembrando o começo do namoro. Lucila, discotecária da emissora, tinha 17 anos. Joelmir, aos 23 anos, era locutor comercial.

Consultoria

Joelmir trabalhava muito e ganhava um bom dinheiro. Por conferência ou consultoria, "ganhava mais do que trabalhar em jornal, rádio e televisão juntos". Restringia os compromissos a São Paulo e arredores, estendendo-os no máximo ao Rio.

Dava, em média, oito palestras por mês em empresas, convenções, simpósio, congressos e seminários. "É onde me reencontro com a profissão que pretendia seguir nos tempos da Universidade de São Paulo (USP): o magistério", confessou. Nos últimos anos, era editor e comentarista de Economia da Rede Bandeirantes, para a qual voltou, depois de um período na TV Globo.

Agenda sempre cheia, arrumava tempo para jogar vôlei com amigos no Clube Pinheiros e para uma corrida diária de 7 km. Almoçava sempre em casa e, se tinha algum luxo era beber um bom vinho - branco alemão e tinto francês. Adorava viagens. O implante de cabelo foi vaidade confessada, porque não assumiu a calvície. O que diriam, se usasse peruca e ela caísse no meio da rua? Iam dizer que "um cara que mente o cabelo pode mentir muita coisa mais séria".

Um dos marcos da carreira de Joelmir foi uma entrevista com o líder cubano Fidel Castro. A conversa de 15 horas em Havana virou livro. Os Juros Subversivos, publicado em 1985. O jornalista escreveu também Na Prática a Teoria é Outra. Em 1969, ganhou o Prêmio Esso de Informação Econômica, o mais importante dos muitos troféus que colecionou.

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