O novo papel do Estado e das instituições públicas

Temos de repensar nossa visão estratégia na condução da agropecuária brasileira

Otaciano Neto *, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2018 | 05h00

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é responsável por prestar um importante e relevante serviço para o setor ao longo de sua história. Nos mais de 40 anos de existência, a instituição muito contribuiu para o desenvolvimento da nossa agricultura.

Em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, no dia 5 de janeiro, o brilhante pesquisador Zander Navarro – que desde a década de 70 atua e contribui no desenvolvimento de pesquisas na Embrapa – fez uma qualificada provocação e reflexão sobre os rumos da empresa de pesquisa pública.

Temos de repensar a nossa visão estratégica na condução da agropecuária brasileira. Estamos batendo bumbo, porém há enormes desafios que podem tirar o Brasil do protagonismo mundial na produção de alimentos, mas preferimos ficar jogando confetes em nós mesmos!

Qual deve ser o novo papel da Embrapa, do Ministério da Agricultura, das empresas de pesquisa, extensão e defesa agropecuária nos Estados, das secretarias estaduais e municipais de agricultura? E qual o papel do Estado como um todo?

E foi essa a reflexão que o pesquisador Zander Navarro nos levou a fazer no artigo. E concordo com ele. É preciso repensar as formas de financiamento público, o tamanho do Estado e com o que ele realmente precisa se ater a resolver.

Na agricultura, por exemplo, tenho dito que nos próximos anos entraremos em uma nova fase da agropecuária do mundo inteiro e que vai revolucionar a forma de produção.

Estudo recente da consultoria Bain & Company, uma das mais importantes do segmento, apontou que será necessário aumentar em 60% a produção de alimentos em todo o mundo nos próximos 40 anos sem a ampliação da área cultivável: ou seja, será preciso produzir mais por hectare de terra. Essa nova fase se dará pelo desenvolvimento da tecnologia aplicada à produção agrícola, especialmente por meio das Agtechs, que são startups que desenvolvem e aplicam inovações tecnológicas para o campo.

E o mundo e o País são dinâmicos em todos os setores. Em cada um é preciso debater a função das instituições e qual a necessidade de atuação delas. E foi nessa linha a reflexão, democrática, respeitosa e seguindo o preceito constitucional importante da liberdade de expressão, que o pesquisador Zander nos fez.

Mesmo após o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, ter emitido um comunicado rebatendo pontos do artigo, também exercendo o direito da livre manifestação, e o pesquisador ter reforçado os pontos argumentados, fui surpreendido com a informação de que Zander Navarro foi demitido da Embrapa de forma na qual classifico como precipitada e autoritária.

No Brasil, lutamos muito pelo direito da livre expressão e o direito do contraditório, que fazem parte da nossa democracia. Reitero que considero respeitosa, educada e propositiva as considerações feitas pelo pesquisador Navarro em seu artigo e manifestações públicas acerca do futuro da Embrapa. E acredito que a presidência da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária vai rever essa posição para que a instituição permaneça sempre acima de todos. Precisamos estar abertos sempre para debater qual o papel das instituições para o desenvolvimento da não só da agropecuária brasileira, mas do Estado como um todo para que possamos alinhar necessidade e realidade.

* SECRETÁRIO DE AGRICULTURA DO ESPÍRITO SANTO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.