Jim Wilson/The New York Times - 19/10/1987
Jim Wilson/The New York Times - 19/10/1987

O pânico das Bolsas e o 'fator humano'

Nada indica que mercado atual está livre de choques como nos EUA, em 1987, diz Nobel de Economia

Robert J. Shiller*, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2017 | 05h00

Dezenove de outubro de 1987 foi um dos piores dias da história do mercado de ações. Trinta anos depois, seria reconfortante acreditar que não vai acontecer de novo. No entanto, daria para acreditar nisso apenas no sentido mais estrito: as mudanças regulatórias e tecnológicas tornaram impossível uma repetição exata daquele dia terrível. Mas ainda corremos riscos, porque tal choque de mercado foi, fundamentalmente, uma apavorada fuga em massa, provocada pelo contágio viral.

E esse tipo de pânico certamente pode voltar a acontecer. Baseio essa conclusão em minha pesquisa (ganhei o Prêmio Nobel de Economia de 2013, em parte pelo meu trabalho sobre o impacto da psicologia social no mercado). Enviei milhares de questionários a investidores em menos de quatro dias depois do choque de 1987, motivado pela crença de que nunca vamos compreender tais eventos se não perguntarmos aos envolvidos os motivos de seus atos – e os pensamentos e emoções associados a estes.

Partindo dessa perspectiva, creio que podemos encontrar uma analogia a esse colapso da Bolsa de 1987 em outro evento: o pânico de 28 de agosto de 2016 no Aeroporto Internacional de Los Angeles, quando as pessoas pensaram, erroneamente, que estavam sob grave perigo. Falsos relatos de tiroteio – em uma época na qual já se noticiavam episódios de atiradores disparando contra grandes multidões – fizeram com que algumas pessoas corressem para as saídas. Quando começou o pânico, todos correram.

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É essencialmente isso o que penso ter acontecido há 30 anos no mercado de ações. No fim da tarde de 19 de outubro, a gravidade do dia já estava clara: a Bolsa tinha caído 20%. Em termos porcentuais, foi a maior queda diária dos anais do mercado americano.

Percebi que aquela era uma oportunidade de pesquisa única na vida. Trabalhei até tarde naquela noite e na noite seguinte, em um questionário que revelaria o verdadeiro modo de pensar dos investidores.

Naquele tempo não havia internet, então recorri a papel, caneta e ao bom e velho correio. Em quatro dias, enviei 3.250 questionários a uma ampla variedade de investidores individuais e institucionais. A taxa de resposta foi de 33% . 

Minhas descobertas se centraram nos dados psicológicos e diferiram totalmente das explicações oficiais incorporadas ao relatório da Comissão Brady – força-tarefa criada pelo presidente Ronald Reagan e presidida por Nicholas F. Brady, que se tornaria secretário do Tesouro.

A comissão associou o choque a causas como o alto déficit comercial da época e a uma proposta tributária que poderia ter inviabilizado algumas aquisições corporativas.

O relatório chegou a dizer que o “declínio inicial disparou vendas mecânicas e indiferentes aos preços por parte de várias instituições que empregam estratégias de seguro de portfólio e de um pequeno número de fundos de investimento que reagem a resgates”.

++O 'elo perdido' do mercado

Seguro de portfólio é uma expressão que já não ouvimos muito, mas ficou com boa parte da culpa pelo 19 de outubro de 1987. Esse seguro quase sempre foi descrito como uma forma de negociação programada: a estratégia provocava a venda automática de futuros de ações quando os preços caíam e, indiretamente, desencadeava a venda das ações em si. 

A Comissão Brady descobriu que o seguro de portfólio representara vendas substanciais em 19 de outubro, mas não soube dizer quantas dessas vendas teriam sido evitadas se a estratégia de seguro de portfólio jamais houvesse existido. Na verdade, esse seguro era apenas uma versão repaginada da antiga prática de vender quando o mercado começa a cair. 

Capital humano. Em última análise, acredito que precisamos nos concentrar não nos computadores, mas nas pessoas que adotaram a estratégia e que de fato derrubaram os preços. No entanto, o seguro de portfólio teve papel importante em outro sentido: uma narrativa que se espalhou antes de 19 de outubro de que a estratégia era perigosa. O medo do seguro de portfólio pode ter sido mais importante que a estratégia em si.

Em 12 de outubro, por exemplo, o Wall Street Journal disse que o seguro de portfólio poderia começar uma “enorme queda nos preços das ações, alimentando a si mesma” e “deixando o mercado em pânico”. E no sábado, 17 de outubro, dois dias antes do choque, o New York Times disse que o seguro de portfólio poderia transformar “oscilações em quedas assustadoras”. 

++À procura de um rendimento diferenciado, aqui e lá fora

Na pesquisa, pedi aos entrevistados que avaliassem uma lista de notícias que apareceram dias antes do colapso do mercado e que também citassem artigos que tinham em mente naquele dia. O mais fascinante das respostas é o que estava ausente: não se via nada sobre os fundamentos do mercado nas justificativas para a venda generalizada ou para a decisão de ficar fora da Bolsa em vez de comprar na baixa (essas compras teriam segurado os preços das ações). Isso não deve ser entendido como uma previsão de que o mercado sofrerá mais um colapso. É simplesmente um reconhecimento de que tais eventos envolvem psicologia de massa.

 

Velocidade com que pânico se espalhou à época surpreende

As quedas que já haviam ocorrido em outubro de 1987 foram muito parecidas com as que ocorreram antes do crash da Bolsa em outubro de 1929. Levando em conta o estado das comunicações da época, é incrível a velocidade com que o pânico se espalhou. Como meus entrevistados disseram nos questionários, a maioria das pessoas ficou sabendo do colapso da Bolsa através do boca a boca.

A primeira vez em que ouvi que a Bolsa estava caindo foi pela manhã, enquanto dava aula em Yale. Um aluno estava ouvindo rádio e me interrompeu para contar tudo sobre o mercado.

Logo depois da aula, fui até o escritório do meu corretor no Merrill Lynch, no centro de New Haven, para sentir como estava o clima por lá. Meu corretor só teve tempo para me dizer: “Não se preocupe!” Ele tinha razão.

A Bolsa voltou a subir. A queda foi causada pelo medo baseado em rumores. Em 1987, um poderoso circuito de feedback de pessoas para pessoas – não de computador para computador – criou o caos no mercado. / TRADUÇÃO RENATO PRELORENTZOU 

 

*PROFESSOR DE ECONOMIA EM YALE

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