Rupak De Chowdhuri/Reuters
Rupak De Chowdhuri/Reuters

O poder da paridade

O mundo seria muito mais rico se mais mulheres tivessem empregos remunerados

The Economist

28 Setembro 2015 | 02h03

A comediante Joan Rivers, que morreu no ano passado, não permitia que as tarefas domésticas atrapalhassem sua carreira artística. "Detesto esse negócio de ficar arrumando a casa", caçoava ela. "Você faz a cama, lava a louça e, seis meses depois, tem de começar tudo de novo."

Deixar os serviços maçantes e não remunerados de lado para se dedicar a uma atividade assalariada parece perspectiva distante para milhões de mulheres. No Sul da Ásia, por exemplo, elas são responsáveis por até 90% das tarefas domésticas não remuneradas, incluindo-se aí afazeres como cozinhar, limpar a casa e cuidar de crianças e idosos. Na Índia, as mulheres são menos de um quarto da força de trabalho assalariada, e respondem por apenas 17% do Produto Interno Bruto (PIB), uma medida do total de bens e serviços produzidos que exclui atividades não remuneradas. Já na China, as mulheres contribuem com 41% do PIB.

Um novo relatório elaborado pelo McKinsey Global Institute (MGI) chama a atenção para o fato de que, em termos de sua distribuição internacional, a desigualdade de gênero no trabalho e na sociedade é um fenômeno em si mesmo desigual.

Com dados referentes a 90% da população mundial, os analistas do MGI elaboraram um índice de paridade de gênero, por meio do qual é possível mensurar o desempenho obtido pelas mulheres no trabalho e na sociedade em comparação com os homens. Os cálculos indicam que o Sul da Ásia (excluindo a Índia) é a região mais atrasada do mundo, com um índice de 0,44 (um índice igual a 1 corresponderia a uma paridade perfeita entre os dois sexos). As regiões mais ricas se saem muito melhor, mas ainda estão longe da completa igualdade de gênero. A mais bem colocadas, com índices de 0,74, são América do Norte e Oceania.

É difícil determinar com precisão os custos sociais disso, mas o MGI tenta de estimar os prejuízos em termos da riqueza que deixa de ser produzida. Outros estudos indicam que, se as mulheres tivessem participação igual à dos homens na força de trabalho, os PIBs nacionais seriam entre 5% e 20% maiores.

Mas isso não capta toda a riqueza que deixa de ser produzida. Mesmo nos países desenvolvidos, onde as mulheres são quase a metade dos assalariados, elas geralmente trabalham menos horas que os homens e ocupam posições onde a produtividade é mais baixa - isso para não falar nos salários inferiores, resultantes da discriminação. Se as diferenças de gênero em termos de participação na força de trabalho, horas trabalhadas e produtividade fossem todas eliminadas, o mundo seria US$ 28,4 trilhões mais rico, calcula o MGI. Os ganhos potenciais são proporcionalmente maiores em lugares onde menos mulheres têm empregos remunerados. A economia da Índia, por exemplo, seria 60% maior.

Um exercício mais realista é imaginar que os países consigam eliminar as diferenças de gênero em ritmo semelhante ao registrado no país de sua região que melhor se sai nesse aspecto. Até 2025, isso acrescentaria US$ 12 trilhões ao PIB mundial, calculam os analistas do MGI - imaginando-se que os outros fatores permaneçam inalterados (coisa que quase com certeza não acontecerá).

As políticas que poderiam reduzir mais rapidamente as diferenças de gênero no trabalho - tais como manter as meninas por mais tempo na escola, oferecer melhor proteção jurídica às mulheres - são da alçada das autoridades governamentais. As mulheres cuja escolaridade se equipara à dos homens têm mais chances de conseguir empregos com bons salários em atividades que requerem alguma especialização. Também costumam dividir mais equilibradamente com os homens a responsabilidade por tarefas não remuneradas - ou pelo menos podem dizer, como fazia Rivers, que se dedicam aos afazeres mais maçantes só de seis em seis meses.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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