O risco de crise, lá e cá

Os bancos centrais podem errar a mão e produzir bruscos deslocamentos de capital

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2018 | 18h00

A economia mundial está cada vez mais integrada, mas a economia do Brasil nem sempre dança a música da integração tocada no salão global. E, às vezes, como agora, corre o risco de enfrentar esbarrões e alguns tropeços sérios.

A atividade da economia global segue em alentada expansão: produção em avanço, desemprego em baixa e inflação quase inexistente. Mas uma ameaça paira no ar: a de que os grandes bancos centrais saiam a combater a inflação – que ainda não mostrou sua cara, mas pode mostrar – e, com isso, retirar centenas de bilhões de dólares dos mercados.

O risco aí é o de que os bancos centrais errem na mão e produzam bruscos deslocamentos de capital, por exemplo das ações para as aplicações em juros. Esta é a principal causa do tombo global das bolsas em fevereiro.

Ou seja, a inflação nos países avançados, hoje sumida, pode voltar a se mostrar, ainda em consequência do enorme despejo de moeda nas economias, como recurso para enfrentar a crise de 2008 e de suas consequênciaS. Este foi o tema da Coluna da última quinta-feira (Vem aí o superajuste). 

Nos dois últimos anos, enquanto a economia mundial já vivia bons momentos, a economia brasileira permaneceu mergulhada na recessão, no desemprego e no caos das contas públicas. Mas, já no último trimestre de 2017, começou vigorosa recuperação que se caracteriza pelo fim da recessão e avanço do PIB ao redor dos 3% (em 2018), reação da indústria, resultados exuberantes no agronegócio, mergulho histórico da inflação e dos juros, excelentes resultados do balanço de pagamentos com o exterior, alguma queda no desemprego e certa recuperação da arrecadação.

Esse cenário interno otimista pode ser contaminado se a turbulência externa ganhar força, como tantos analistas vêm advertindo. A contaminação pode acontecer por ação de alguns transmissores. 

O principal deles é o câmbio. A alta internacional dos juros, hoje muito próxima do zero, tende a gerar certa valorização do dólar. Essa valorização do dólar pode intensificar-se no câmbio do Brasil se também se generalizar a percepção de aprofundamento da desordem fiscal por aqui. Ou seja, o estrago que não chegou a ser produzido em janeiro pelo rebaixamento da nota do Brasil pela Standard & Poor’s, pode acontecer a partir do momento em que o mundo inteiro fugir do risco e saltar para as aplicações de segurança.

O resultado imediato de uma forte valorização do dólar também no câmbio interno seria o aumento dos preços dos produtos importados e, em alguma proporção, a volta da inflação e da alta dos juros também por aqui.

Outro transmissor da crise externa para o Brasil poderia pousar nas contas externas. O encarecimento das importações e certa redução no influxo de capital estrangeiro poderiam prejudicar as boas previsões para este ano.

Enfim, a crise poderia chegar aqui com mais força do que a simples marolinha de 2008, mas ninguém deve esperar que se transforme em alguma coisa parecida com fuga de dólares, o maior problema do Brasil nas crises dos anos 80. Para evitar fortes turbulências é que existe aqui o poderoso para-choque dos US$ 380 bilhões de reservas externas.

CONFIRA:

» Transmissão da crise

O gráfico mostra o comportamento de outro indicador de confiança na economia brasileira durante as duas primeiras semanas de fevereiro. (A turbulência começou nos mercados segunda-feira, dia 5.) Trata-se do Credit Default Swap (CDS) de cinco anos, que funciona como seguro contra calotes do principal título de dívida do Brasil. A curva do gráfico mostra como nestes últimos cinco dias úteis de fevereiro o nervosismo dos mercados contaminou a percepção sobre a economia brasileira. 

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