O salvador da Pátria

Um corte de 0,75 ponto na Selic teria efeito psicológico de um impulso maior à economia

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2017 | 05h00

Diante da profunda recessão em que se encontra a economia brasileira, está na hora de o Banco Central ser mais cauteloso ou agressivo no corte de juros? A aposta majoritária de analistas e investidores é que o Comitê de Política Monetária (Copom), que anuncia hoje a sua decisão, será cauteloso, cortando a taxa Selic em 0,50 ponto porcentual. Contudo, uma parcela não desprezível, de 25% dos investidores, acredita que o BC será mais agressivo e reduzirá os juros em 0,75 ponto.

O dilema, na realidade, não é de vida ou morte, mas o de trocar o efeito psicológico no curtíssimo prazo (via corte mais profundo do que a maioria espera) por um resultado semelhante no futuro próximo (via redução menos agressiva agora que permita um ciclo maior de afrouxamento monetário mais adiante).

Mesmo a maioria que aposta num corte de 0,50 ponto admite que, se o BC optar por reduzir 0,75 ponto, não será uma má decisão técnica, uma vez que essa estimativa majoritária está baseada mais na comunicação recente da autoridade monetária do que propriamente nos fundamentos macroeconômicos. A fraqueza da atividade econômica e a desaceleração da inflação num ritmo mais forte nos últimos meses corroborariam um corte mais agressivo dos juros. O BC tem sinalizado, de fato, que a redução dos juros vai se acelerar em relação à última decisão do Copom, que reduziu a Selic em 0,25 ponto, para 13,75%, mas não indicou que esse ritmo poderia ser já de 0,75 ponto.

A favor de um corte menos agressivo neste Copom, de 0,50 ponto, está o argumento de que, dessa forma, o BC ajudaria as expectativas inflacionárias de médio prazo a cederem mais rapidamente. Por tabela, isso ajudaria a ancorar as projeções inflacionárias e os juros de longo prazo cairiam, ao refletir uma maior confiança de que a inflação futura estará sob controle. E são os juros de longo prazo que influenciam as decisões de investimentos e de consumo. Por outro lado, a favor de um corte de 0,75 ponto está o efeito psicológico de um impulso maior à atividade econômica no curtíssimo prazo. Mas apenas psicológico, porque a diferença entre uma redução de 0,50 e 0,75 ponto não é tanta em termos de impacto econômico.

Um paralelo a essa decisão do Copom é a escolha entre consumir e poupar. Consumir pode saciar as necessidades imediatas, mas pode deixar o consumidor desprevenido em caso de alguma emergência financeira. Ou seja, uma redução mais agressiva dos juros, de 0,75 ponto, pode injetar uma confiança maior num momento em que a recuperação da economia teima em não vir, mas poderá deixar o BC vulnerável se, por exemplo, houver um choque externo – como uma crise geopolítica que resulte numa disparada do dólar ou num aperto drástico das condições financeiras mundiais. Todavia, desde o fim de 2016, quando fechou a R$ 3,25, o dólar anda surpreendentemente bem comportado frente ao real. Nesta semana, vem se mantendo abaixo de R$ 3,20. Isso reforça a aposta de uma inflação próxima da meta fixada pelo BC, de 4,5%, neste ano.

Sem nenhum vetor de crescimento à vista para a economia brasileira, como investimento, consumo ou exportações, o BC passou a ser visto como o salvador da pátria, especialmente pela área política do governo Michel Temer. Depois que o Produto Interno Bruto (PIB) registrou queda de 0,8% no terceiro trimestre de 2016, frustrando expectativas de uma estabilização, os analistas projetam nova contração da economia no quarto trimestre do ano passado. Para 2017, a mediana das estimativas aponta para um crescimento de apenas 0,5%, mas o risco é de nova decepção.

Há quem projete até novo recuo do PIB neste ano. E, se a inflação de serviços, até há pouco tempo resistente à recessão e à queda de demanda, mostrar desaceleração maior no IPCA de dezembro, a ser divulgado hoje, cresce a chance de um corte de 0,75 ponto já neste Copom. Mas, se não vier agora, uma redução dessa magnitude certamente virá na reunião de fevereiro.

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